o riachense

Sexta,
30 de Setembro de 2022
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António Mário Lopes dos Santos

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Je suis Charlie, hoje. E amanhã?

Domingo foi um dia de sol. Paris vestiu-se de gente de todas as cores, ideologias, religiões, nacionalidades. A capital da Bastilha de 1789, da queda da monarquia e da implantação da república, o fogo capitoso do iluminismo tolerante mas blasfemo de Voltaire subiu nos ares com a entoação vibrante da Marselhesa. Je Suis Charlie multiplicou-se em cerca de dois milhões de rostos que assumiram que um jornal ateu, satírico, crítico, implacável para com todos os autoritarismos e fanatismos, quer políticos, quer religiosos, não podia ser destruído, ainda que o brutalidade do terror assassinasse em nome da fé os seus jornalistas, cuja única arma contra a demência, a chantagem, o terror, o crime hediondo, era um lápis, um espírito criativo, uma acusação implacável de tudo, o que em nome do sangue, da fé, da cor da pele, do dinheiro, avilta a condição humana. Se não sais hoje, quando sairás? Lembro-me do voo dessa frase, num qualquer momento em que as palavras são inúteis, o silêncio pesa milénios de combate contra a intolerância, em qualquer recanto do planeta habituado à chacina, à violação, ao apedrejamento, à degolação, tudo em nome de deuses que garantem, no além, um mundo melhor. O Ocidente não é melhor que o Oriente, o terror do fundamentalismo islâmico não é diferente da limpeza étnica de Hitler, das purgas estalinistas, das limpezas do napalm do Vietname, dos genocídios maoistas de Pol Pot, do anticomunismo dos generais argentinos, dos crimes de Pinochet, dos massacres um pouco por todo o lado sob as ordens do Pentágono e da Cia. Nenhuma ideologia vale um ser humano, se por detrás dos seus generosos ideais arde um inferno podre de interesses e privilégios. Guantanamo não se diferencia de Dachau, nem do Tarrafal, nem dos campos de concentração siberianos. 

O que é um homem? Para que serve um homem? Qual o fim do ser humano?

Os doze assassinados na redacção do Charlie Hebdo relembram-me os catorze mil processos da inquisição portuguesa guardados na Torre do Tombo, as prisões fascistas de Salazar e Caetano apadrinhada pela igreja católica portuguesa do cardeal Cerejeira, os milhares de processos das prisões e campos de concentração da Gestapo, das prisões franquistas, dos resultados do colonialismo europeu em África, na Ásia, na China. O silêncio ferido da manifestação de Paris relembra-me a invasão anglo-americana do Iraque, o totalitarismo judaico sobre o povo palestiniano, a destruição da Líbia, da Síria, de tudo o que cheira a dinheiro, a petróleo, a gás, a minérios, em qualquer dos cinco continentes.

Quem criou a armadilha do ódio que se despeja, como lama podre, sobre as vidas humanas? A guerra artificial de civilizações que respiram o mesmo oxigénio gratuito do planeta, sobrevivem sobre o mesmo fogo solar da estrela que o vivifica?

Não há justificação para a selvajaria e o morticínio. Mas também não há para os temas que Charlie Hebdo denunciava nas páginas do seu combate jornalístico, onde cabiam os Deuses e os políticos, a direita e a esquerda, o real e o irreal. Havia um grito, amarfanhado, torturado, algemado, de séculos sucessivos de hipocrisia fanática, escondendo interesses materiais sob

a capa do bom senso e do respeitinho é preciso da todas as regras da aparência em que assentam tronos, reinos, governos, igrejas, chefias militares, financeiros, mafias multinacionais, laicas ou religiosas. A força dum lápis contra a canalha do mando. 

Je Suis Charlie, a imagem duma recusa pelo futuro da humanidade. Paris foi, assustada, mas corajosa, uma vez mais palco dum desejo de mudança. Duma porta que se abra para um mundo diferente. Onde o comprimido que cura a hepatite C seja para salvar vidas, não para enriquecer laboratórios de gente que bem merece uma caricatura dum desenho dum sobrevivente do Hebdo. Onde uma criança de dez anos possa no brincar viver e não encontrar e levar a morte nas bombas que criminosos que se não suicidam lhe puseram no corpo. Gente tão criminosa como os que dispararam, em nome dum Islão fanatizado, Maomé está vingado, sobre um desenho satírico porque não compreendem que rir-se de si é a melhor arma da inteligência humana contra a onda do servilismo resignado duma mentalidade que usa uma religião, seja ela qual for, para acorrentar a humanidade ao privilégio bem pouco espiritual do poder absoluto.

Je suis Charlie, hoje. E amanhã, cidadão?

15 de Janeiro de 2015
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Quinta, 15 Janeiro 2015 11:07 )  
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