o riachense

Sexta,
18 de Outubro de 2019
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

Anda daí mais eu

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF
 
por Carlos Tomé

O tempo estrovantou. Prantou um xaile pelos ombros, saiu de casa e caminhou em passo acelerado até à igreja. Se adrega a chover aparo-lhe as costas, disse para si. Passava em frente ao Central e ia sempre a falar, mesmo que fosse sozinha, talvez a pensar em voz alta ou a rezar a nossenhor. Por vezes ia acompanhada pela Conceição Rito com quem fazia parelha nas rezas. A Emília Lopes Portelinha gostava muito de conversar, a sua característica particular juntamente com a claridade de espírito, a alegria de viver e a invejável memória. Mas era muito distraída. Por vezes encontrava a Elisa Lopes e ambas punham a conversa e a amizade em dia. Mas naquele dia, quando passou ao Central ia muda que nem um eremita com voto de silêncio. Encontrou a Emília Miola e bichanou-lhe o que a apoquentava. “Ò quechopa ando amaldiçoada se calhar por mor das rezas em falta, se adrega a querer orar a Deus há que Deus que me falta o terço, ando mesmo descoroçoada, a ciguêra pelo terço não a perco, mas o terço deu sumiço. Atão quechopa diz-me lá o que é que eu hei-de fazer?” perguntou a Emília Lopes à Emília Miola que logo ali lhe passou a receita. Tinha perdido o norte a um terço e por isso precisava de o encontrar, quando não a sua vida deixava de ter tarilho, ficava sem tarimbelhos, cirandava nela mas sem tino que se visse. Especialista das coisas dos feitiços, do mau-olhado e do quebranto, a Emília Miola baixou a voz “anda daí mais eu” e segredou-lhe o segredo da reza. Falaram à socapa sobre o responso. 
 
Depois de rezar a ladainha, de botar umas lamparinas a arder em azeite e de repetir o ritual por três vezes, durante três semanas, eis que de súbito aparece o rosário. Como dizia a reza “o que é perdido é achado e o que é esquecido é lembrado Santo António bem aventurado”.  Afinal, estava mesmo ali à mão de semear e nunca tinha dado por ele. Pendurado ao pescoço o terço só pedia que lhe contassem as contas, mas com a distracção do costume a Emília Lopes nunca tinha dado fé dele. Finalmente, o achado deu à sua vida o tarilho de que precisava.
 
À noite, o João dos Casais Pinheiros chegava ao Central, bebia um Toddy e ajudava nalgumas coisas. O João era uma espécie de guarda dos Casais Pinheiros onde vivia sozinho. Nunca aprendeu a ler nem a escrever, era uma pessoa simples e gostava muito das gentes que frequentavam o Central e que eram como família. Também no Central o João gostava de se sentir guarda do Café. Cumprindo a sua missão, ao final da noite, fechava as portas e as janelas. 
 
Algumas vezes o João adormecia sentado a olhar para a televisão. E os rapazolas mais ousados logo engendravam uma maneira de meter um susto ao João. Eram muitas as artimanhas mas desta vez a coisa resumia-se a atar com uma guita as suas pernas à cadeira sem ele dar por isso enquanto passava pelas brasas. E assim foi. Alguém bateu com a tampa da arca dos gelados com tanta força que o João acordou espavorido e tentou começar a correr mas a guita não o deixou pelo que caiu no meio do Central com enorme estrondo. Catrapuz. A cara do João ficou completamente cheia de casca de arroz que eu espalhava no chão quando chovia. O João desapareceu num ápice e voltou logo de seguida brandindo um martelo de orelhas. O Central ficou vazio de repente temendo a sua reacção enervada. Mas o João aproveitou o ensejo simplesmente para fechar as janelas e trancar os trincos com a ajuda do perigoso martelo. Afinal já era meia-noite, estava na hora do Central fechar e o João cumpria, tão-somente, a sua missão de guarda, porque só assim a sua vida tinha tarilho.
 
Chegava ao Central de motorizada que acelerava até mais não, trazia sempre o boné de lado na cabeça, à tronga-mocha e por cima o capacete com as presilhas soltas. Atirava o capacete para o assento da Casal e entrava no Café com a fralda da camisa de fora e com o corpanzil a abanar como se fosse tocado por uma rabanada de vento. Dizia-se que a motorizada já tinha acartado mais de 50 hectolitros de vinho e que sabia o caminho de cor. Zé Heleno era o produtor do melhor melão da região e não escondia a ninguém que gostava de uma pinguinha de azeite. Uma pinguinha é uma forma de dizer porque a sua goela escoava toda a espécie de líquidos como um secador seca toda a humidade do milho. A sua sede era tanta que até o Dr. Moreira lhe tinha receitado andar com um garrafão de vinho pendurado ao pescoço. Mas o Zé Heleno gostava acima de tudo de estar com os amigos. Para ele a vida era uma festa, com os excessos naturais de uma festa. Se não fosse assim, com os festejos próprios da bebida e da alegria, a vida era sempre cinzenta. 
 
“Quando estive na Holanda apanhei um dia uma grossura tão grande que não fui capaz de subir a escada do prédio e aqueles franciús tiveram que me atar uma corda aos cornos e eram seis a puxar com toda a força e viram-se à rasca para me arrastarem para cima” dizia o Zé Heleno enquanto fazia a parte que se assoava com todo o estardalhaço ao boné, amarfanhando-o todo e bufando baba e ranho. E, depois de beber uma imperial só de uma assentada, saía do Central ainda mais feliz. Para ele só assim a vida tinha tarilho.

Actualizado em ( Terça, 27 Janeiro 2015 23:13 )  
{highslide type="img" height="200" width="300" event="click" class="" captionText="" positions="top, left" display="show" src="http://www.oriachense.pt/images/capa/capa801.jpg"}Click here {/highslide}

Opinião

 

António Mário Lopes dos Santos

Agarrem-me, senão concorro!

 

João Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária