o riachense

TerÁa,
23 de Abril de 2019
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Os passageiros da noite

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por Carlos Tomé

Quando passava pelo Central largava sempre uma amostra, por vezes ligeira √© certo, da profundidade do seu pensamento. Era daqueles que tinham sempre uma m√°xima para cada situa√ß√£o, ainda que por vezes aquela n√£o tivesse nada a ver com esta ou esta n√£o ligasse com aquela, mas o esp√≠rito inventivo misturado com a bonomia do costume faziam f√© em ju√≠zo. ‚ÄúIsto √© uma trincofaia, √≤ rapaziada. Dantes eram meia d√ļzia que comiam por trinta agora s√£o trinta que comem por meia d√ļzia. Eles querem √© lixar a gente. E fica sabendo, √≥ rapaz, n√£o h√° nada mais triste que a tristeza nem nada mais bonito que a boniteza‚ÄĚ. Qual Arist√≥teles qual carapu√ßa, quando o Chico Cipriano se punha a filosofar, a vida ganhava outro significado. Pela fisionomia da cara e pelo esgalhar do riso, Chico Cipriano haveria de servir de modelo ao Urso Fozzie dos Marretas que surgiria uns anos mais tarde nos ecr√£s, j√° o fil√≥sofo da terra estava no auge da sua fama.
 
Embora Chico Cipriano andasse a p√© que se fartava, sempre num andar algo cambaleante mas certo, n√£o tinha possibilidade de aguentar a passada acelerada do Manuel da Clara que passava j√° de noite na bolina do costume. Parecia o expresso da meia-noite. Com oitenta anos o Manuel da Clara dava um retinto bigode a qualquer um armado em Armando Aldegalega a disputar a marcha do Largo √† Travessa dos Forcados indo pelo caminho mais tortuoso e passando por mais de uma d√ļzia de tascas onde estavam instaladas as metas volantes. Manuel da Clara era impar√°vel, colocava as pernas em modo de marcha acelerada e ningu√©m o agarrava. Talvez mesmo s√≥ o Alfredo Sacrist√£o ou o Ventaneira o conseguissem acompanhar. Aquele, sobrevivente da primeira guerra mundial, uns tempos antes de fazer um s√©culo de vida ainda ia √† igreja a p√© com uma perna √†s costas. Este, teria que utilizar a galera nova com freio livre puxada por duas mulas bem treinadas e tinha que fazer estalar no ar o chicote como o Kit Carson na dilig√™ncia roubada, sen√£o nada feito. E mesmo assim, havia menino que tinha d√ļvidas sobre quem ganharia a competi√ß√£o.¬†
 
Mas o Manuel da Clara n√£o fazia a prova sozinho, gostava de se fazer acompanhar pelos amigos de copo e de cruz que se viam gregos para o acompanhar. Manuel da Clara, um sapateiro dos antigos, campe√£o na arte de bater sola, Z√© Lopes, trabalhador dos caminhos-de-ferro e um dos obreiros do t√ļnel do Rossio, e Lu√≠s Sousa, ferrovi√°rio nas oficinas do Entroncamento, eram o trio maravilha e faziam a caminhada todos os domingos √† noite, em equipa, largando do Z√© das Obras, com uma ametade em cada bucho, passando pelo Pacheco, mais um tinto, pelo Joaquim Paloca, outro tinto acompanhado com pevides de ab√≥bora, pelo Ant√≥nio Barr√£o, mais um tinto e um carapau de escabeche e pelo Jo√£o da Vaca, de novo um tinto para variar e um molhinho de estalo. Eram as metas volantes de paragem e molhadura obrigat√≥rias. Quando chegava ao Central a equipa estava fresca que nem uma alface, embora se notasse a l√≠ngua um pouco entaramelada e a voz algo emba√ßada. Uma tacinha de tinto para variar para cada um dos tr√™s amigos com um brinde ‚Äú√† nossa‚ÄĚ fechava a prova com chave de ouro. Pelo caminho ficavam muitas conversas, muitos tintos bebidos em esgares de m√° cara quando o n√©ctar j√° tinha um picozinho, e solidificava-se cada vez mais a amizade entre todos.¬†
 
O ritual era de tal modo levado a rigor pelos passageiros da noite que, embora o Z√© Lopes tivesse que apanhar na segunda-feira o comboio das seis e picos da matina para Santa Apol√≥nia e depois para o Rossio onde ficava toda a semana, n√£o deixava de apanhar tamb√©m todas as noites de domingo uma aquecedela das antigas, sendo que toda a gente sabia que n√£o gostava de vinho e que fazia sempre uma cara feia quando o despejava, de repente, goela abaixo, sem lhe ver a cor. O vinho era coisa secund√°ria, apenas um pretexto para o encontro. E o prazer de estar com os amigos era muito superior a qualquer sacrif√≠cio de erguer cedo e ir trabalhar com a boca a saber a pap√©is de m√ļsica. E isso s√≥ acontecia porque os passageiros da noite eram tamb√©m passageiros da amizade.
 
¬†√Äs vezes esta equipa cruzava-se com outra equipa e nenhum dos seus membros podia escapar √† troca de galhardetes e de brindes v√°rios. Martinho Ginete, clarinetista desde o primeiro dia do Rancho, Z√© Filipe, o √ļltimo latoeiro da aldeia especialista em consertar calhas, regadores, tachos e panelas de lata, e Jo√£o Dias, fot√≥grafo amador de se lhe tirar o chap√©u, faziam a mesma prova mas por vezes de cima para baixo ou de tr√°s para a frente, apenas para variar, mas respeitavam sempre as mesmas metas volantes que eram sagradas e de paragem obrigat√≥ria. No fundo era dif√≠cil que estas duas equipas se n√£o encontrassem nos percursos que cada uma delas escolhia. E faziam sempre uma festa de tal modo que √†s vezes at√© engrossavam o caminho em conjunto.
 
Eram todos passageiros da noite, como muito mais tarde e talvez por raz√Ķes parecidas o C√Ęndido Mota haveria de chamar ao seu programa radiof√≥nico, de todas as noites de domingo quer chovesse quer fizesse calor e brindavam com tacinhas de tinto √† revelia das trincofaias ciprianas da vida que eram de certeza muito interessantes, embora ningu√©m soubesse ao certo o que raio seria uma trincofaia. Mas esse √© mais um mist√©rio que continua insond√°vel a perdurar no tempo.


Actualizado em ( Ter√ßa, 27 Janeiro 2015 23:15 )  
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