o riachense

Segunda,
24 de Setembro de 2018
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Os passageiros da noite

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por Carlos Tomé

Quando passava pelo Central largava sempre uma amostra, por vezes ligeira é certo, da profundidade do seu pensamento. Era daqueles que tinham sempre uma máxima para cada situação, ainda que por vezes aquela não tivesse nada a ver com esta ou esta não ligasse com aquela, mas o espírito inventivo misturado com a bonomia do costume faziam fé em juízo. “Isto é uma trincofaia, ò rapaziada. Dantes eram meia dúzia que comiam por trinta agora são trinta que comem por meia dúzia. Eles querem é lixar a gente. E fica sabendo, ó rapaz, não há nada mais triste que a tristeza nem nada mais bonito que a boniteza”. Qual Aristóteles qual carapuça, quando o Chico Cipriano se punha a filosofar, a vida ganhava outro significado. Pela fisionomia da cara e pelo esgalhar do riso, Chico Cipriano haveria de servir de modelo ao Urso Fozzie dos Marretas que surgiria uns anos mais tarde nos ecrãs, já o filósofo da terra estava no auge da sua fama.
 
Embora Chico Cipriano andasse a pé que se fartava, sempre num andar algo cambaleante mas certo, não tinha possibilidade de aguentar a passada acelerada do Manuel da Clara que passava já de noite na bolina do costume. Parecia o expresso da meia-noite. Com oitenta anos o Manuel da Clara dava um retinto bigode a qualquer um armado em Armando Aldegalega a disputar a marcha do Largo à Travessa dos Forcados indo pelo caminho mais tortuoso e passando por mais de uma dúzia de tascas onde estavam instaladas as metas volantes. Manuel da Clara era imparável, colocava as pernas em modo de marcha acelerada e ninguém o agarrava. Talvez mesmo só o Alfredo Sacristão ou o Ventaneira o conseguissem acompanhar. Aquele, sobrevivente da primeira guerra mundial, uns tempos antes de fazer um século de vida ainda ia à igreja a pé com uma perna às costas. Este, teria que utilizar a galera nova com freio livre puxada por duas mulas bem treinadas e tinha que fazer estalar no ar o chicote como o Kit Carson na diligência roubada, senão nada feito. E mesmo assim, havia menino que tinha dúvidas sobre quem ganharia a competição. 
 
Mas o Manuel da Clara não fazia a prova sozinho, gostava de se fazer acompanhar pelos amigos de copo e de cruz que se viam gregos para o acompanhar. Manuel da Clara, um sapateiro dos antigos, campeão na arte de bater sola, Zé Lopes, trabalhador dos caminhos-de-ferro e um dos obreiros do túnel do Rossio, e Luís Sousa, ferroviário nas oficinas do Entroncamento, eram o trio maravilha e faziam a caminhada todos os domingos à noite, em equipa, largando do Zé das Obras, com uma ametade em cada bucho, passando pelo Pacheco, mais um tinto, pelo Joaquim Paloca, outro tinto acompanhado com pevides de abóbora, pelo António Barrão, mais um tinto e um carapau de escabeche e pelo João da Vaca, de novo um tinto para variar e um molhinho de estalo. Eram as metas volantes de paragem e molhadura obrigatórias. Quando chegava ao Central a equipa estava fresca que nem uma alface, embora se notasse a língua um pouco entaramelada e a voz algo embaçada. Uma tacinha de tinto para variar para cada um dos três amigos com um brinde “à nossa” fechava a prova com chave de ouro. Pelo caminho ficavam muitas conversas, muitos tintos bebidos em esgares de má cara quando o néctar já tinha um picozinho, e solidificava-se cada vez mais a amizade entre todos. 
 
O ritual era de tal modo levado a rigor pelos passageiros da noite que, embora o Zé Lopes tivesse que apanhar na segunda-feira o comboio das seis e picos da matina para Santa Apolónia e depois para o Rossio onde ficava toda a semana, não deixava de apanhar também todas as noites de domingo uma aquecedela das antigas, sendo que toda a gente sabia que não gostava de vinho e que fazia sempre uma cara feia quando o despejava, de repente, goela abaixo, sem lhe ver a cor. O vinho era coisa secundária, apenas um pretexto para o encontro. E o prazer de estar com os amigos era muito superior a qualquer sacrifício de erguer cedo e ir trabalhar com a boca a saber a papéis de música. E isso só acontecia porque os passageiros da noite eram também passageiros da amizade.
 
 Às vezes esta equipa cruzava-se com outra equipa e nenhum dos seus membros podia escapar à troca de galhardetes e de brindes vários. Martinho Ginete, clarinetista desde o primeiro dia do Rancho, Zé Filipe, o último latoeiro da aldeia especialista em consertar calhas, regadores, tachos e panelas de lata, e João Dias, fotógrafo amador de se lhe tirar o chapéu, faziam a mesma prova mas por vezes de cima para baixo ou de trás para a frente, apenas para variar, mas respeitavam sempre as mesmas metas volantes que eram sagradas e de paragem obrigatória. No fundo era difícil que estas duas equipas se não encontrassem nos percursos que cada uma delas escolhia. E faziam sempre uma festa de tal modo que às vezes até engrossavam o caminho em conjunto.
 
Eram todos passageiros da noite, como muito mais tarde e talvez por razões parecidas o Cândido Mota haveria de chamar ao seu programa radiofónico, de todas as noites de domingo quer chovesse quer fizesse calor e brindavam com tacinhas de tinto à revelia das trincofaias ciprianas da vida que eram de certeza muito interessantes, embora ninguém soubesse ao certo o que raio seria uma trincofaia. Mas esse é mais um mistério que continua insondável a perdurar no tempo.


Actualizado em ( Terça, 27 Janeiro 2015 23:15 )  
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