o riachense

TerÁa,
19 de Setembro de 2017
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Pedro Barroso

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O vestido a secar na corda

Memórias (3)

Meu pai fora estudar para Lisboa. Novidade pretensiosa. 

Muita gente da terra criticou meus av√≥s por tal bizarra escolha. P√īr um filho a estudar em vez de aprender of√≠cio de jeito, ou cavar a terra! Mas minha av√≥. D. Em√≠lia Pedro Barroso, fora menina de alguns estudos e saberes, numa educa√ß√£o bem acima do costume, para uma jovem na sua √©poca.

Não lhe servira de muito, é certo, mas lá entendeu que seu filho varão haveria de estudar.

Quando urgia algum livro mais caro, matava-se uma galinha gorda, vendia-se um galo, cortava-se um choupo da Valada, alguma coisa se providenciaria. Mas o rapaz havia de estudar. Estranho entendimento, rasgando o futuro para l√° dos horizontes de uma aldeia antiga, de cingeleiros e gente de trabalho sol a sol.

Era uma mulher diferente, minha av√≥. Dela recebi um dia, quando terminei a licenciatura, um livro de serm√Ķes setecentista - imagine-se! - guardada rel√≠quia de fam√≠lia, dois s√©culos √† espera do destinat√°rio certo e do momento adequado. Ainda me lembro bem: - alma subida, pose parada, o livro na m√£o, os olhos h√ļmidos, atentos nos meus. Obviamente, fiquei perplexo, a olhar para t√£o insuspeitada prenda, vinda de uma mulher de olhos claros, um bom palmo mais alta que o marido, porte senhoril, olhar sempre aquilino e perscrutante.

Tudo isso invulgar, ao tempo. Tanto quanto compreendi, foi talvez for√ßada pelos dotes e desdotes da sorte a levar uma vida de outro recato e singeleza. Dela guardo dois apelidos: Pedro e Barroso. √Č verdade: ‚Äď ambos apelidos. Mas adiante.

Para facilitar as coisas, meu pai, António Pedro, ficaria em casa de gente conhecida e ainda vagamente familiar, ali para a Lapa. (Hoje é um bairro fino, dos mais caros e in de Lisboa. Mas naquele tempo, não se sabia que tal coisa pudesse vir a acontecer. Não era, portanto, o caso destes primos, gente austera e de trabalho.) Ao que parece, tinham uma mercearia. E o meu pai lá ficava, recolhido com os marçanos, numas esteiras de sacas, em ambiente seguramente de pouco conforto e duvidosa limpeza. Estudar …assim impunha.

Na ideia trazia uma menina bonita e elegante, morena e de cabelos negros. Com efeito, tal musa visitava nas f√©rias a sua tia Maria, a qual vivia em Riachos. Irm√£ de seu pai - meu av√ī Paulo. E o tio, Manuel; e sua prima, essa de seu singelo e estranho nome Liberdade.

Catrapiscanço de jovem ambicioso, claro. Menina da cidade, outra gente, outros costumes, ela ia lá querer saber dele! Mas enfim, tentaria. Que raios, não era um maltrapilho qualquer. Mais um par de anos e iria sair professor!

Bom. De tal paixão apenas sabia o nome por que ouvira a prima Liberdade, um dia, a chamá-la para jantar: - Fernandinha…! E morar ela para os lados de S. Bento. Não era longe donde estava, havia de descobrir.

E aos domingos, - após ajudar nas limpezas com que retribuía a hospedagem - à tarde, em vez de descansar de tão alongado percurso diário da Lapa para Benfica, - onde se situava a Escola do Magistério - …não senhor. Descia a Calçada da Estrela e calcorreava todo o que lhe cheirasse a Fernandinha. E procurava, coitado, bem procurava. E Lisboa tão grande, caramba.

Depois, no fim - olha! - trepar tudo aquilo outra vez, até a Lapa! Houvesse pernas.

Até que um belo dia, afortunado, por entre a roupa colorida a secar - que fazia então de Lisboa um festival de cor nos velhos bairros - foi por um vestido posto a secar, pendurado na sacada de uma janela, que o seu coração deu um baque. Já tinha visto a sua paixão com ele; no Largo, em Riachos! Era portanto, ali.

Passou a postar sentinela frente ao 284 da rua de Poiais de S Bento. Todos os poucos tempos livres, ei-lo ali ca√≠do; at√© que, um dia, ela saiu do pr√©dio e, para seu grande espanto, ele lhe disse que era de Riachos e perguntou se podiam conversar. Claro que especulo, mas acho que era assim que se dizia nessa altura: ‚Äúconversar‚ÄĚ

Seguiram-se semanas, meses de sil√™ncio. At√© que, um dia, j√° farta, minha m√£e lhe imp√īs como condi√ß√£o m√≠nima que cortasse aquele bigodinho rid√≠culo e aparecesse escanhoado. Ora bem. A√≠‚Ķ talvez se dignasse falar com ele!

Escusado será dizer que no domingo seguinte, meu pai apareceu limpinho e barbeado de feição.

Memórias hoje, portanto, de um tempo antes de mim. De tanto as ouvir contar, aqui deixo hoje tão íntimo testemunho.

Realmente! As coisas que um vestido posto a secar nas velhas janelas de Lisboa pode fazer.

 

Nunca se sabe se eu estaria aqui, se tal acaso nunca tivesse acontecido.

 

Actualizado em ( Ter√ßa, 27 Janeiro 2015 23:24 )  

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