o riachense

Domingo,
30 de Abril de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Feira Cabisbaixa

Entre falar das relações do primeiro-ministro com o fisco ou da Feira Medieval que a Câmara projecta entre 4 e 7 de Junho, fico indeciso. Mas como as respostas às questões postas pelo jornal O Público, como se pode ler na edição de 4 de Março, não mereceram, até à altura, resposta, deixando-me entregue aos extractos da sua explicação nas Jornadas Parlamentares do PSD, opto pela feira, deixando a primeira para outra altura, já com a poeira mais assente.

Da Feira Medieval, ninguém duvida que sou um claro opositor. Utilizando o velho título dum livro de poesia de Alexandre O’Neill, onde nos surge o poema Portugal, que termina: Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo/…/ feira cabisbaixa, /meu remorso, /meu remorso de todos nós… Escrevi-o durante anos seguidos na imprensa local, ao ponto do poder me tentar calar, pelos métodos que o poder, seja grande ou pequeno, sempre usa: pela corrupção, pela forma persecutória, sobre mim e, não tendo dado efeito, a família directa.

Nunca participei em nenhuma das suas edições e não espero fazê-lo, como munícipe, enquanto a Câmara Socialista vender gato por lebre. 

Uma feira é uma festa, eu sou, sempre fui, a favor duma festa do Concelho na cidade. Uma festa que tenha o seu aspecto lúdico, mas seja de igual modo representativa da estrutura económica, social e mental da sociedade torrejana. 

Uma festa que não assente numa múltipla fraude, histórica, sociocultural, já que na época que se pretende em Julho recriar o território concelhio era de guerra de domínio, entre duas religiões do Livro, a muçulmana e a cristã, com a ambiguidade da terceira, a judaica. A palavra povo não tinha sentido e a estrutura social cristã estava dividida entre os de cima, clero e nobreza, e os explorados, muito bem descritos por exemplo, por Mattoso na "Identificação dum País", ou Alexandre Herculano, no século XIX. 

Segundo, nenhumas das feiras medievais já realizadas foram diferentes das mais diversas que, de Norte a Sul do País, congeminadas por grupo ou grupos que encontraram nesse modo de festa um meio profissional de vida e não passaram dum empreendorismo oco muito na moda neste país do centro direita, que, no dia seguinte à sua conclusão, após a cura das bebedeiras e o encerramento dos palcos das cantigas, não deixaram rasto na estrutura do concelho. Partindo duma historieta local, muito pouco entrosada com a realidade histórica, movimentam-se escolas e colectividades, sem um debate prévio de que a festa traria de importante para a projecção do concelho. Pelo contrário, meia dúzia de cabeças ilustres do Município encenam um espectáculo, com uma única finalidade: lavar o cérebro a um povo demasiado generoso para quem o ilude e o explora. Foi assim no passado, não encontro diferenças no presente.

E, como estamos todos numa democracia de pirueta, andamos a brincar à Idade Média, com a adesão duma população com um desemprego enorme, uma população jovem em emigração, uma vida colectiva à beira dum ataque de nervos, uma dívida municipal e escândalos de contratos urbanísticos que se procuram abafar, com uma imprensa concelhia também em crise e em risco dum retrocesso à univocidade, uma cidade e um concelho cheio de ruínas. 

Torres Novas precisa duma festa? Defendo-o, desde que a faça discutir os seus problemas, apresentar as suas potencialidades, debater as suas crises, fomentar a sua capacidade colectiva. Não precisa de ancorar a necessidade psicológica do folguedo num passado, ainda por cima falsificado por uma história nacionalista e fascizante, assente em nomes e datas ditas heróicas, mas desligados da estrutura da época que festeja. Um passado que, a ser posto em cima da mesa, na festa, teria de lembrar em que assentava a sociedade nos finais da Idade Média: uma elite militar e clerical que assentava o seu privilégio e domínio na fome, doença, miséria dos seus cavões, dos seus artesãos, da sua plebe sem direitos. As pestes, a lepra, a mendicidade, a fome, a morte prévia por exaustão, abriam clivagens nas classes camponesas e urbanas, que viam as suas escassas produções exauridas por impostos múltiplos, que tudo lhes levavam, desde a sobrevivência, a saúde, o próprio corpo.

 Fazer uma festa assente nesta destruição da vida humana, no desrespeito pelo outro, num século XXI em que se joga, no ambiente, na igualdade social e política, no desenvolvimento económico, no emprego, na constitucionalidade universal da lei, o choques das civilizações, os confrontos entre ricos e pobres, elites e seres humanos, entre países e economias em nome de pátrias manipuladas em teorias de conspiração, nos bancos suíços, na Wall Street, em Moscovo ou Pequim, em Londres ou em Berlim, só me demonstra que o município está mais interessado na projecção da sua imagem como patrocinadores da alegria que a festa promove, numa representação que o Elogio da Loucura de Erasmo, dos finais da Idade Média, desmistifica, do que no desenvolvimento concelhio.

A festa dum concelho assenta no seu tempo, não se paralisa em festas medievais, como se o passado tivesse sido idílico e o presente algo em que importa não pensar muito. O neo-salazarismo das mentalidades democráticas saídas do velho Estado Novo domina ainda os destinos deste concelho. E utiliza, sem pudor, os velhos métodos da manipulação, para que um povo se mantenha sereno, resignado, a caminho da sua metamorfose num empreendorismo acéfalo que lhe esgravata os bolsos em busca de tudo o que pode servir para o quero, posso e mando de meia dúzia. 

Não alinho.

26 de Fevereiro de 2015
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Quinta, 05 Março 2015 11:05 )  

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