o riachense

Sexta,
30 de Setembro de 2022
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

Carlos Paula Simões

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

Venenos pela porta dentro


A quantidade de produtos tóxicos que nos rodeiam no dia-a-dia é alucinante. Todos os dias o comum cidadão europeu respira e ingere um verdadeiro cocktail de substâncias complexas, produzidas e comercializadas pelas maiores corporações mundiais, desenvolvidas alegadamente para fazerem frente à necessidade de aumentar a produção alimentar de um planeta que alojará dentro de pouco mais de 30 anos aproximadamente 10 mil milhões de pessoas, muito acima dos cerca de 7 mil milhões actuais.

Para produzir essa comida, entrámos num círculo vicioso alucinante de atentados ao equilíbrio natural, onde pontificam as culturas geneticamente modificadas e os pesticidas especificamente criados para estas.

Um efeito perverso desse círculo vicioso, deriva da forma que a natureza encontra sempre de ultrapassar obstáculos: a adaptação. E o que se tem assistido desde a década de 70 do século passado, é ao aparecimento de estirpes de pestes resistentes, super-insectos e super-ervas daninhas, a que se seguem o desenvolvimento e a aplicação de novos “super-pesticidas”. A resistência a pesticidas é um dos principais desafios para a produção agrícola, para a saúde humana, e já foi registada para praticamente todos os grupos de pesticidas.

Por muito que nos digam que não é forçoso que a sua utilização seja perigosa, o facto é que os pesticidas muitas vezes são massivamente utilizados sem que haja a noção das suas consequências sobre o ambiente e sobre a saúde humana a longo prazo, ou até mesmo a médio prazo. Cancro, esterilidade e envenenamento são apenas alguns dos efeitos indesejados provocados pelos resíduos de pesticidas que ficam nos produtos hortofrutícolas. Além destas consequências para a saúde humana, os pesticidas provocam a contaminação dos recursos hídricos, a morte de peixes nos rios, acabam por chegar às torneiras dos consumidores e acumulam-se ao longo da cadeia alimentar. Omnívoros que somos, no topo da cadeia alimentar, acumulamos mais pesticidas no nosso organismo do que os animais herbívoros de que nos alimentamos. 

Contesta-se a fiabilidade dos métodos que avaliam a toxicidade dos pesticidas, em particular os efeitos de exposição acumulada e duradoura a estas substâncias. Questões importantes permanecem sem resposta sobre os riscos potenciais de contaminação dos seres humanos, e do meio ambiente, por pesticidas. Hoje em dia existem normas e orientações disponíveis apenas para um número limitado de produtos e não para as misturas de pesticidas ou para os produtos de degradação destes. 

No passado mês de Março, a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar anunciou que quase metade dos alimentos consumidos na Europa apresentam resíduos de pesticidas, apesar de a maioria estar dentro dos limites legais e provavelmente sem efeitos na saúde. Provavelmente. Porque o que ontem nos foi vendido como perfeitamente seguro, pode muito bem amanhã ser declarado como absolutamente mortal. 

Não se pense que apenas a agricultura contribui para a nossa exposição a estes produtos tóxicos. Os pesticidas encontrados nos principais rios e aquíferos reflectem contribuições quer de áreas agrícolas, quer de áreas urbanas e, neste último caso, sobretudo insecticidas e herbicidas.

É por isso importante que a gestão de pestes no espaço urbano seja também ela sustentável, no sentido de impedir a pressão selectiva que leva ao aparecimento de espécies resistentes, evitar a contaminação de solos e água e, finalmente, mas não menos importante, preservar a saúde presente e futura de quem vive nesse espaço.

É óbvio que os fabricantes dos pesticidas incentivam a sua utilização em detrimento de métodos alternativos. E se na exploração agrícola tais métodos podem ser mais custosos de implementar, nas nossas autarquias é uma questão de vontade. Vontade de optar pelo que poderá a curto prazo parecer mais difícil, mas a longo prazo poderá vir a fazer toda a diferença na qualidade de vida dos habitantes das nossas cidades, vilas e aldeias. A restrição voluntária da utilização de pesticidas nas áreas urbanas é uma das expressões dessa vontade.

Deixo aqui o apelo aos nossos autarcas para que se mantenham atentos e actualizados no que diz respeito aos produtos tóxicos usados pelos seus serviços de controlo de pestes e que procurem alternativas à utilização desses produtos. Como disse atrás, o que ontem era seguro, pode ser hoje fatal. Veja-se o herbicida glifosato, largamente utilizado pelos nossos serviços municipais para controlo de ervas daninhas: há menos de um mês a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Cancro, que integra a Organização Mundial de Saúde, referiu que o glifosato foi encontrado no ar, na água e nos alimentos, que a população em geral está particularmente exposta quando vive próximo de áreas tratadas e que a exposição a este herbicida pode provocar o aparecimento de linfomas ou cancros no sangue.

Os nossos autarcas devem ter em conta esta nova realidade e devem, por sua própria iniciativa, fazer o que se exige: banir a aplicação deste produto, entre outros. Mesmo que isso lhes saia mais caro: a saúde não tem preço. Tenham a coragem de sacudir o comodismo e, de caminho, a opressão das multinacionais dos venenos.

Actualizado em ( Quarta, 08 Abril 2015 10:21 )  
{highslide type="img" height="200" width="300" event="click" class="" captionText="" positions="top, left" display="show" src="http://www.oriachense.pt/images/capa/capa801.jpg"}Click here {/highslide}

Opinião

 

António Mário Lopes dos Santos

Agarrem-me, senão concorro!

 

João Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária