o riachense

Quarta,
16 de Agosto de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Nem bom vento nem bom casamento

Não creio que o PS tenha aprendido algo com a sua passagem pela oposição. Manuel Alegre recordou que as suas incongruências levaram Cavaco Silva à presidência da república. Mas, quando se vêem certos ditos socialistas a mandar bocas sobre a possível candidatura de Sampaio da Nóvoa, chamando-lhe um terrível esquerdista, percebem-se as razões por que numa lista VIP que corre na Internet, muitos socialistas preenchem altos cargos, grandes reformas, outras benesses. Não defendo a candidatura de Sampaio da Nóvoa, cada coisa a seu tempo. Como não me vejo a votar no partido socialista.

Fui professor desde 1962 e depois de 1974 até 2000, geri mais de duas dezenas de anos uma Escola Secundária, onde defendi, sempre, a gestão democrática, a autonomia escolar, uma política educativa centrada no aluno, na sua autoformação, capacidade de crítica, direito de opção, relacionada com o meio, com o percurso discente, com o objectivo final: um ser capaz de intervir activamente na busca dum caminho, quer no país, quer no mundo. Houve sempre, nos ministérios socialistas e sociais-democratas, um abafar legislativo da gestão democrática, uma defesa de directores nomeados pelo poder central, um transformar a educação num resultado quantitativo, saído dum exame final com objectivo restritivo de entrada no ensino superior elitista e segregativo, centralizado nas principais cidades do país, sem quaisquer condições de continuidade para os filhos dos trabalhadores, operários industriais ou agrícolas.

Saí, pela reforma, do ensino, em 2000, com a noção dum recuo em relação a 1975 e 1976, num regresso a uma mentalidade de facção, muito próxima dum ensino anterior à própria reforma Veiga Simão. O que hoje existe, a escola portuguesa coeva, não passa dum arremedo dum neo-fascismo pseudo democrático, onde o professor tem o seu destino traçado da forma como o director simpatiza ou não com o seu trabalho, a sua dedicação, o seu Yes Man. A escola que hoje existe, regida pelo empreendorismo da competitividade, a minha é melhor do que a tua, baseada em falsos conceitos de teórica igualdade de meios e métodos, não passa dum embuste com que o poder político intenta domesticar o ensino aos seus objectivos de gestão política da sociedade.

Aprendi, desde Sottomaior Cardia, passando pelos sucessivos ministros e ministras e seus derivados regionais, que a Escola e o seu futuro tem pouco ou nada a ver com as políticas centralizadoras. Os resultados escolares, o número de desistências, a selectividade do ensino superior, a inexistência dum ensino médio ligado à vida profissional, o grau zero de empregos pós-cursos, a desigualdade de investimento na ciência, na cultura, na arte, no apoio ao prosseguimento de estudos, são a folha de serviço dos governos socialistas e sociais democratas desde o 25 de Novembro, que se encaminha para uma regressão a uma escola autoritária de má memória. Sampaio da Nóvoa até é um dos grandes especialistas da Educação, talvez daí o complexo do mau aluno que os empreendedores ditos históricos do PS têm com o que lhes aponta a nenhuma inocência transparente das suas opções de interesse, mais do que classe. Os negócios, senhores os negócios, mandam muito! 

O meu voto dificilmente seria socialista, porque com esse partido aprendi a existência de muito político parecido com José Sócrates, escondido atrás do seu cartão para usufruir de privilégios que lhe deram, em poucas dezenas de anos, fortunas não declaradas, cargos e carreiras não permitidas a qualquer cidadão, saídas pós-profissionais resultantes das contrapartidas que criaram de forma arbitrária e corrupta com o abuso do poder, sem que a justiça alguma vez lhes fizesse frente.O que eu considerava ser a política de direita, arrebanhou muita gente que se instalara no centro com a capa protectora duma esquerda pluralista . Hoje, a denúncia nalguns órgãos de informação não passa da ponta emersa dum icebergue de que os caminhos dos fundos comunitários é a parte imersa e invisível -mas que existiu e existe - duma realidade em que cada camada cobre outra e assim sucessivamente, ante a passividade da imagem da justiça dos três macaquinhos da estatuária popular: cego um, surdo o outro, o terceiro mudo.

Lutarei, darei o meu a apoio a uma política de esquerda, onde, apesar de muito cepticismo, incluo parte do Partido Socialista. Mas, com ou sem ele, o caminho do futuro passa pelo abandono da mentalidade sectária, à esquerda, da recusa de qualquer tipo de controleirismo, das listas de nomes da confiança dos patrões dos partidos, os padres laicos das igrejas partidocráticas.

Portugal é um país pequeno, com um grande defeito - um umbigo enorme. E uma ignorância resignada que se lhe pegou ao tecido da alma desde a Contra-Reforma jesuítica, do século XVi aos nossos dias, e que se agravou, desde o 28 de Maio ao 25 de Abril.E hoje, perto dos quase 41 anos duma democracia sui generis, não cortou senão na aparência os cordões umbilicais que o transformaram num dos povos mais atrasados da Europa, em desenvolvimento, em direitos democráticos, em identidade. Deve esse atraso, esse permanente divórcio entre o real , o imaginário e a credulidade, aos partidos do arco da governação. Mas não só : deve-o à sua própria apatia. Podem tratá-lo mal, sem nenhuma dignidade, na escola, no hospital, no fisco, nos centros de emprego, nas juntas médicas. Come e cala. Pão e circo é tragédia latina, há mais de dois mil anos.

Em Setembro tudo ficará mais ou menos na mesma. Para nosso mal, dos nossos filhos, dos nossos netos. O PS não desiste de ser o que é, nem mesmo com a imagem dos partidos socialistas a nível europeu como uma fotografia do que o espera, no futuro, se não abandona aquela estranha forma de arranjo político que é o jogo do empurra supervisionado pelos seus quatro padrinhos históricos: Inglaterra, Espanha, França e Alemanha.

9 de Abril de 2015
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Quinta, 09 Abril 2015 14:21 )  

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