o riachense

Quinta,
29 de Junho de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Tanto morte, tanto inevitável desperdício

Eu desenho, tu desenhas, ele/ela desenha. O tempo não quer saber do que desenhamos, embrenhado na estrutura do seu próprio desenho. A vida dum ser humano vale o que vale a sua vida, enquanto vivo. Vale o que valem os conceitos da sociedade em que se insere. A forma como por ela é tratada. Não se conte com o tempo, porque o tempo é uma dimensão onde a vida nada conta. As acções humanas são realizadas num espaço e num tempo delimitado. Poderiam ser outras, no mesmo tempo e no mesmo espaço, se. O tempo não tem nada com isso. A única força capaz de alternativa é a vontade humana. A forma como intervém no espaço/tempo, moldando-o, pode mudar as letras futuras da palavra presente. O acaso tem muito a ver com a mudança, a ruptura, a simples alternativa. O que fica na estrada do tempo, duma ou de muitas vidas, é tão frágil como a recordação subtil dum momento que anos depois se torna nebuloso e difícil de reconstruir. Monumentos, música, literatura, o poema contínuo, como desenhou a grande poesia Herberto Helder, cidades mortas sob outras cidades, esculturas duráveis milhares de anos que o camartelo do fanatismo religioso destruiu num ápice, Eduardo Galiano (1940-2015), outro morto recente, terá escrito «a memória guardará o que valer a pena. A memória sabe mais de mim que eu; e ela não perde o que merece ser salvo», sem cuidar que o tempo é o Alzheimer da memória. Nada é durável a não ser a dimensão tempo e aí não há o primeiro sopro, o átomo inicial, o bosão de Deus, a criação de qualquer universo. O ser que somos passa uma vida inteira a roer a maçã duma questão: serei ou fui mais do que sou? Günter Grass (1927-2015), outra equação na matemática do humano :a consciência do mal não deixou de ser o mal. A vida ocupa o lugar da morte. O bem, o mal, são-no ou apenas a circunstância do momento em que se vive? A moral do imoral é inferior, igual, desigual, superior, à imoral do moral? Qual a verdade do juízo, se este é o que se quer que seja hoje e nunca o foi ontem, nem o será depois como se tenta perceber o futuro. Quantos adivinhos adivinharam a adivinha que ao chegar o tempo da demonstração se percebeu que nada foi adivinhado?

Que quero eu com este texto? Não sei. 

Escrevo-o como se pudesse enviar uma carta pelo carteiro do tempo à memória humana dum passado morto ou dum dos futuros possíveis que se constrói no presente pela súmula de todas as acções, conscientes ou não, do homem contemporâneo. Uma cana pensante, chamou-lhe Pascal, ignorando que a maior parte das acções humanas são crimes contra outros homens e contra o mundo e o seu precioso recheio.

Os corredores dos hospitais do meu país contemporâneo, tão desumanizados e esquecidos, onde se morre no meio da maior indiferença e do maior abandono, serão menos cruéis que os crimes cometidos pelo fanatismo islâmico? O genocídio nazi absolve o racismo judaico? A destruição do património da humanidade em nome do presente califado só destrói a memória, porque algures no tempo alguém julgou importante construir um monumento para a recordação do passado num futuro distante e nesse tempo está fixo o gesto do construtor e a construção. Descascar a Cebola mostrou um Günter Grass jovem a integrar as SS nazis e a má consciência dum povo que hoje se impõe pelo que ontem não recusou: o domínio do outro leva ao sacrifício deste pela vontade daquele. A negação do jovem que se foi altera alguma coisa do mal que se fez? O arrependimento é algo mais do que uma fórmula de hipocrisia? O tempo não mudou, a cebola descascada não se pode reconstruir na mesma cebola, o acto praticado não se apaga com nada, era bom poder desenhar a escrita do tempo, só que este nada tem como desejo, o sonho, a prática, a vida. 

Daí que, ante o tempo, a desmemória do tempo, que é a vida humana através do tempo, a única coisa que vale é fazer que a vida valha, que os seres humanos vivam com dignidade enquanto vivem, a felicidade é saber-se que, apesar do mistério do tempo, o homem não recusa o seu quinhão de imortalidade, mesmo que esta não passe duma simples fábula contada de pais para filhos para explicar que a vida precisa de viver bem o tempo que é o seu e isso só se consegue fazer com doação solidária, mesmo que se saiba que o tempo destrói tudo por onde passa porque o tempo é tudo o que a consciência do tempo tem.

16 de Abril de 2015
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Quinta, 16 Abril 2015 11:19 )  

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