o riachense

Quinta,
29 de Junho de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Perdi de vez a paciência

As imagens televisivas do Secretário Geral do PS, António Costa, em Torres Novas, trouxe-me à ideia o discurso de Passos Coelho na queijaria de Aguiar da Beira, onde elogiou Dias Loureiro.«Conheceu mundo, é um empresário bem sucedido, viu muitas coisas por esse mundo fora e sabe, como algumas pessoas em Portugal sabem também, que se nós queremos vencer na vida, se queremos ter uma economia desenvolvida, perfeita, temos de ser exigentes, metódicos». O discurso não apaga as imagens e nestas há o que não legitima o PS como um partido transparente, ao serviço do povo português, capaz de combater a corrupção, o abuso de poder, o compadrio.

O discurso de Passos Coelho originou celeuma, houve mesmo um jornalista de O Público que se não conteve: «Não dá para acreditar. Como pôde o primeiro -ministro dar ao país como exemplo um arguido no caso do BPN (absolvido em primeira instância) por suspeitas num negócio que envolve um lobista libanês, uma empresa marroquina e uma tecnológica com sede em Porto Rico que fez desaparecer das contas do banco nada mais, nada menos, do que 40 milhões e euros?». 

De facto, não dá para acreditar que o PS concelhio não consiga fazer uma autocrítica de tudo o que fez na gestão camarária nos últimos vinte anos, não tenha aceitado uma única das várias propostas de auditoria pública às suas finanças e às relações entre o poder económico e o político, das obras entregues, do seu custo inicial e final, das suas razões, das desconfianças e dúvidas que deixou no ar em relação a gastos supérfluos, a contratos, a viagens presidenciais um pouco à maneira soarista, sem que houvesse resultados que se vissem ou objectivos que o merecessem. Os mesmos rostos, os mesmos discursos, enfim, as mesmas formas de fazer política não combaterão a abstenção, nem a busca doutras soluções para um voto que exige, acima de tudo, respostas claras, para necessidades claras, seja no campo da economia, das obras, da educação, da saúde, da cultura, do desenvolvimento, do desemprego.

Claro que António Costa não pode conhecer todos os bastidores do partido e muita da informação que lhe chega provem da que lhe querem fazer chegar e não da realidade objectiva. O voto que pensa que irá conseguir para o PS em Torres Novas pode sair-lhe furado, se não procurar as razões das descidas do PS localmente, do aumento da abstenção, da perda de influência entre as jovens gerações. Nem fará esquecer, por muito cuidado que tenha na forma de tentar passar a bola de José Sócrates para a Justiça Portuguesa, ignorar as profundas relações que certas empresas tiveram com as obras do distrito de Santarém e, nomeadamente, com Torres Novas, das embrulhadas que certas relações deixaram por resolver, com prejuízos incalculáveis para a bolsa dos cidadãos e dos munícipes. O melhor discurso pode valer zero, se com ele traz a mesma gente que só criou compadrio, autoritarismo, abuso de poder, ruptura financeira, endividamento inexplicável.

O melhor discurso, se assenta na passividade e na aquiescência anestesiada duma militância acéfala e acrítica, mais crente que racional, mais religiosa que crítica, pode enganar António Costa, não engana o munícipe.

Como o discurso de Passos Coelho indignou Manuel Carvalho, a visita de António Costa, vista pela televisão, a este PS concelhio, indignou-me. É que eu até defendo uma política em que o PS tem um lugar, com todas as forças à sua esquerda. Mas, quando se diz que a esquerda precisa de mudar - e eu acredito nisso - parece querer ignorar-se que a mudança essencial passa por dentro deste PS.

O mundo europeu está em crise profunda. O Mediterrâneo transformou-se no seu inferno de Dante. A má consciência duma Europa dirigida pela direita com os partidos socialistas e sociais democratas metidos no saco das moedas de Midas, incapazes de distinguirem as ideologias que ontem defendiam das que hoje os transformam em partidos minoritários em quase todos os países europeus, o abandono que a concepção económica global do planeta faz do respeito do próprio planeta, a ausência de alternativas a um mercado onde a mercadoria mais explorada é o ser humano, a eterna chama da violência que vende armas e deita abaixo governos que armou para destruir, a cada vez mais sombria perspectiva dum mundo à beira de inúmeras explosões sociais, motivadas pela diferença da cor da pele, da religião, sem soluções à vista e a curto prazo para o que acelera em excesso nas sociedades humanas, o direito à dignidade humana. 

Vive-se num mundo tecnológico que recuou mental, intelectual, filosoficamente, a um período anterior à revolução francesa, à sua concepção livre, igual e fraterna do conceito de cidadania. Num mundo com capacidade tecnológica e científica para combater todas as desigualdades, resolver todos os obstáculos, eliminar todas as formas de exploração. E contudo…99% da humanidade vive fora dessa mensagem de esperança e o planeta é esquartejado, esventrado, espoliado, destruído, para a ambição de poder e de prazer desse 1%.

Os partidos socialistas abandonaram o comboio do socialismo às primeiras propostas de cheques acenados pela finança internacional. Os seus discursos não ligam com as realidades, as suas propostas não coincidem com os seus interesses pessoais, os seus ideais de justiça não coincide com os seus hábitos de média e alta burguesia.

A diferença entre o discurso de Passos Coelho e o de António Costa é muito ténue, as diferenças não passam da rivalidade dum Sporting-Benfica, falta algo que entusiasme, que se sinta ser um novo caminho, haver um Meirinho que leve uma equipa à diferença. Com o caruncho das imagens televisivas, os discursos boloridos pelo pó da demagogia, só tenho uma expressão verbal possível: vão à merda.

7 de Maio de 2015
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Sexta, 08 Maio 2015 10:01 )  

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