o riachense

SŠbado,
30 de Setembro de 2023
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Pedro Barroso

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Os autores, a língua mãe e a desobediência

Em memória de mim e de todos os que aprenderam a amar a Língua Portuguesa hoje, 13 de Maio - por milagre da imbecilidade...- entrei de luto.

Fui sempre excelente aluno a Portugu√™s. Nem tanto nas Matem√°ticas e Qu√≠micas, confesso, cuja exactid√£o e aridez me confundiam e perturbavam, por n√£o permitirem opini√£o nem argumentos. Por isso as detestava. N√£o conseguia ver beleza nenhuma nem num n√ļmero, nem numa f√≥rmula qu√≠mica, sinceramente.

Aprendi a amar a leitura muito cedo. Meu pai ensinou-me a descobrir as mensagens enredadas e a eleg√Ęncia na fuga √† censura pelos grandes mestres do jornalismo na altura. Norberto Lopes, Augusto Castro, Leit√£o de Barros, Manuela Azevedo, Ant√≥nio Pedro Ruella Ramos, Joaquim Manso, Fernando Assis Pacheco...

Depois tive o privil√©gio maior de ser aluno de Latim do enorme vulto da escrita e da filosofia nacional que foi Verg√≠lio Ferreira. Era assim que ele se assinava, Verg√≠lio com e. Dele bebi toda a sua vasta obra, com um respeito imenso pela qualidade do que se absorvia daquelas palavras, daquela constru√ß√£o sem√Ęntica, da sua pr√≥pria desconstru√ß√£o das ideias e daquela dimens√£o sibilina e estratosf√©rica de pensamento.

Este razoado vem a prop√≥sito do putativo "acordo", sem acordo algum. N√£o teve sequer respeito pelos autores e intelectuais - pois dificilmente se encontrar√° um que o aprove... √Č aberrante, est√ļpido, in√ļtil e contra natura.

N√£o se imp√Ķem as evolu√ß√Ķes da L√≠ngua por decreto. Que tremendo disparate. DISCORDO ABSOLUTAMENTE. ponto. par√°grafo. N√£o me invoquem ou remetam para portais da L√≠ngua - eu trabalho com ela h√° tanto tempo. Sim, se quisermos entrar por a√≠ - por acordos anteriores ‚Äď foi tamb√©m asneira omitir o trema, por exemplo. √Č dif√≠cil explicar a um estrangeiro que aprenda a nossa l√≠ngua porque se diz tranq√ľilo e n√£o trankilo, uma vez que tal sinal foi abolido; e quilo se diz "kilo".

Ter√≠amos muitos dias para conversar e debater tudo isso. Todos os acordos que houve e os que nunca deveria ter havido. N√£o me invoquem os neo-grafismos por raz√Ķes etimol√≥gicas, pol√≠ticas, comerciais, ou da oralidade corrente e aproxima√ß√£o dos povos. As diverg√™ncias s√£o saud√°veis. Em Portugu√™s nos entendemos.

As línguas nascem, evoluem, fluem e morrem; ou derivam em novos troncos. São vivas, adoptam termos, influenciam e são influenciadas como nós, seres vivos. Geram filhos, uns bastardos, outros autónomos e directos das línguas mães. Todos respeitáveis na sua pluralidade e comunhão possível. Alguma vez me passaria pela cabeça ler Jorge Amado sem ter o gosto e o sabor dos seus termos genuinamente brasileiros? E depois?

Deixemos evoluir as coisas naturalmente e n√£o de forma decretada, fascista, opressora. N√£o sou sequer purista - digo "abat-jour", nunca me ocorreria dizer "quebra luz". Mas imporem-me ‚Äúespetadores‚ÄĚ em vez de espectadores, ‚Äúrece√ß√£o‚ÄĚ em vez de recep√ß√£o, etc... e grafia igual para ‚Äúpara‚ÄĚ e p√°ra e outras alarvidades sem sentido, em nome de nada e de um acordo que n√£o teve em conta, repito, a opini√£o dos autores. Isso n√£o. JAMAIS. Nunca!

Um dia, Fernando Assis Pacheco telefonou-me e deu-me os parabéns por um LP que tinha saído há pouco - salvo erro "Roupas de Pátria, roupas de mulher"

Admitiu que o jornal "Sete", que ajudara a fundar, era recorrentemente injusto com a minha poética e a minha obra e queria reparar o facto. Fiquei surpreso com tal assunção.

Veio a Riachos de comboio, quase clandestino. Fui buscá-lo à estação. Pedi ao Zé da Laura para fazer um cabrito no forno da padaria. Ficou divinal. Comemos e bebemos bem e conversámos melhor ainda. Tínhamos o mesmo pulsar amante pela Língua Portuguesa - criei um amigo.

Emocion√°mo-nos. Queixou-se da pr√≥pria gera√ß√£o de neo jornalistas que ele mesmo encontrava a cada dia no seu quotidiano de homem de cultura. Homem brilhante, sofria por isso. Fal√°mos precisamente disto; destas quest√Ķes da L√≠ngua Portuguesa.

Na terra ninguém soube que teria por cá passado. Era já nessa altura muito conhecido mas pela "visita da Cornélia" e poucos conhecerão ainda hoje a sua obra de autor prematuramente desaparecido.

Os autores são assim. Os autores trabalham a Língua e amam-na. Com ela comunicam, e sofrem, e partilham ideias, avanços, confidências, desabafos, sentimentos. Estou de luto, triste, magoado, revoltado. Mataram hoje, 13 de Maio, injustamente, uma grande amiga minha - a minha Língua.

A l√≠ngua da velha p√°tria m√£e. Sem necessidade. Amiga de uma vida!... Em nome da verdade convoco √† desobedi√™ncia total. √Č a ultima arma que nos resta neste pa√≠s de cabe√ßa perdida.¬†

Actualizado em ( Quinta, 14 Maio 2015 14:17 )  
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