o riachense

Quinta,
22 de Junho de 2017
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João Moreira

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Laboratórios Goucha, Lda.

De médico e de louco

O sr. Bernardo é um homem saudável para alguém com 80 e alguns anos. Toma poucos medicamentos ao contrário da maioria dos homens da sua idade, graças a Deus, que a reforma é curta e nem sempre dá para tudo. Sentia-se bem, excepto umas dores nos ossos que de vez em quando lhe lembravam que já não era garoto. Um dia contou-me em jeito de confissão que tomava Calcitrin. Compreendo porquê: enquanto fazia malabarismos para prescrever medicação eficaz mas o mais barata possível, eis que surge um suplemento alimentar recomendado pelo sr. Manuel Luís Goucha ao módico preço de €27/mês.

Um antibiótico, por exemplo, não pode ser publicitado porque é um medicamento testado e controlado pelo Infarmed e sujeito a receita médica. Ao contrário dos suplementos que não só não necessitam provar a sua eficácia clínica como podem ser publicitados, desde que não se lhes atribuam “propriedades profilácticas, de tratamento ou curativas de doenças humanas” nem se declare “expressa ou implicitamente que um regime alimentar equilibrado e variado não constitui fonte suficiente de nutrimentos”. As tentativas de promover estes produtos sem quebrar a Lei levaram à criação de verdadeiras pérolas da publicidade como a Depuralina para “remover resíduos nocivos que o organismo vai acumulando”, Depurmon Especial Fumadores que “actua como um limpa-chaminés” ou produtos com nomes deliciosos como o Cogumelo do Tempo, entre outros exemplos que seriam hilariantes se não fossem verdadeiros. E comprados a peso de ouro, naturalmente sem comparticipação pelo Estado que lhes reconhece pouca utilidade e lava as mãos como Pilatos. É um negócio milionário.

Voltando ao exemplo Calcitrin: a página de Internet do produto não explica detalhadamente a sua composição. Menciona que contém cálcio, vitamina D e condroitina, entre outras substâncias, na dose de 1400 mg por comprimido (de cálcio? de tudo?). Se cada comprimido contiver 1400 mg de cálcio e uma vez que são recomendados dois por dia, corresponde a mais do dobro da dose total recomendada pela Direcção Geral de Saúde, nas situações em que a suplementação seja apropriada. 

Os suplementos alimentares e em especial os vitamínicos são fundamentais no tratamento de situações como anemia ou osteoporose ou na prevenção de problemas na gravidez. Nestes casos existem opções sujeitas a receita médica e comparticipadas (um suplemento de cálcio e vitamina D prescrito pelo médico poderia custar ao Sr Bernardo apenas €2/mês). Também é preciso lembrar que a ideia de que todos suplementos são apropriados e seguros para todos os doentes é falsa.

Os portugueses estão habituados a um Serviço de Saúde público que, apesar de andar algo em baixo, os faz esquecer com frequência que a Saúde é um negócio. E em qualquer negócio existem formas de procurar lucro fácil que até podem ser legais mas são também imorais, como o impingir de suplementos, colchões que “curam” a hipertensão arterial, aparelhos auditivos construídos num qualquer vão de escada ou idas à bruxa. Escandaliza-me que figuras públicas se prestem a este jogo sujo sabendo que o seu público é em grande parte composto por pensionistas, gente que só a custo consegue sobreviver com as suas reformas.

A minha conclusão é simples: não peça ao seu mecânico para lhe contar piadas sobre a Cristina Ferreira nem ao seu médico para lhe consertar o carro. Sobretudo, por favor, não peça ao Sr Goucha para lhe tratar da saúde.

Actualizado em ( Terça, 26 Maio 2015 14:29 )  

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