o riachense

Quinta,
17 de Agosto de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Antes que o inverno nos atinja a todos

A alguns meses das eleições, não há partido nenhum que não tenha entrado em campanha. De momento, o tema da semana que finda e da que começa é o sistema de pensões e os 600 milhões que o governo PSD/CDS colocou no seu projecto que entregou em Bruxelas, que sairiam do único bolso que os merquelianos lusos conhecem - o dos reformados. A tal modo o protesto - sobretudo o mal-estar - ganhou forma contra mais uma jogada baixa da ministra Maria Luís Albuquerque, que o CDS veio, de mãos postas, com aquele arzinho de penitente dos locais dos milagres, negar que tivesse algo com aquela bacorada; e o nº2 ou 1 do PSD, vice-presidente da falida Câmara de Vila Nova de Gaia, agora também arguido dum processo no Ministério Público, acrescentar, credo, o PSD nunca pensou uma coisa dessas, os reformados até são a nossa razão de governar.

Quando o PSD e o parasitário CDS - quanto vale sozinho? - se tentavam convencer de que ainda era possível inverter a cada vez mais apagada fogueira do PS e chegar ao poder, mesmo sem maioria absoluta, e estavam a criar essa sensação de angústia no povo português, de ver que o futuro era, como diz um amigo, uma nota preta, levam um coice de mula duma das figuras importantes do partido, que tanto lhes garantia que tem, como Salazar tinha, os cofres cheios, à custa da miséria e do empobrecimento, como vem angustiada dizer que faltam 600 milhões para cumprir o estipulado no défice público e que vai buscá-los ao sítio que só tem medo de que o que vem a seguir ainda pode ser pior - os reformados.

Maria Luís Albuquerque, no meio dos meninos da Jota SD, ao querer fazer um brilharete, rasgou o bilhete da lotaria que esperava ser o volte face para as futuras eleições.

Penso que o que falta em Portugal é um movimento de contestação como o Podemos, que soube em pouco tempo criar o pânico nos partidos corruptos que entre si dividiam a mala do tesouro de Espanha. A nossa realidade, infelizmente, é outra.

Os partidos que temos no Parlamento, da direita à esquerda, boicotam, com a sua estrutura programática, a capacidade de renovação das sociedades ante as ameaças que têm de enfrentar. Os movimentos de cidadãos esbarram com o encolher de ombros do mal-estar que nos parece estar no sangue, pela desconfiança em relação à política, que opta preferencialmente porque, ao serem todos os mesmos, só querendo é tacho, o melhor é afastarmo-nos dos seus objectivos, não votar. 

Esquecem-se os abstencionistas que, pelas leis da democracia que temos, pode-se ser poder com 20% ou menos dos votos expressos na urna. A abstenção, como na eleição de Salazar, deu-lhe o poder por 50 anos. A actual, mantém, em Portugal e no mundo, uma nova elite, assente no clientelismo.

Mas o mundo parece querer mudar. As novas gerações começam a exigir os seus direitos. Há um momento em que, se tudo emperrar e for o emperramento o caminho para que essa elite se mantenha, décadas a fio, nos partidos, no parlamento, nas administrações, nas direcções públicas e administrativas, nas Câmaras, nas empresas jornalísticas, nas igrejas, na justiça ou na vida militar, à frente da vida dos países e dos organismos internacionais, a ruptura será, quanto mais demorada, mais violenta. A capacidade de resignação, de encolher de ombros, de sofrimento, de subvida, tem um limite. O mundo tecnológico em que entrámos não há muito tempo, abre fendas no que outrora era o controlo das sociedades. A informação que o jornalismo hoje cria choca com o medo da perda do emprego, da sua precariedade, com o direito à liberdade de informação. Os medias, escritos ou de imagem, são aparelhos de produção de informação controlada e defensora do sistema partidocrático dito democrático que controla, desde a junta de freguesia à assembleia da ONU, da Comunidade Europeia, do FMI, da NATO. Só que os meios tecnológicos criam antivírus contra essa lavagem ao cérebro.

Isso não impede que as redes sociais estejam cheias de comentários, intervenções, protestos, que nenhum órgão de informação comenta. Mas, diga-se, circulam, ao ponto de os próprios elitistas criaram as suas próprias páginas electrónicas. Uma das causas da crise dos meios de comunicação assenta nessa falta de respeito pelo cidadão, que não vê no jornal ou no ecrã a sua vida, os seus problemas., as suas necessidades, a sua voz. Sem mudança nos actuais meios, a informação pública terá de procurar outros caminhos para os rios das vozes que a abandonaram. Os partidos de esquerda deveriam pensar nisso.

Vive-se numa sociedade planetária assente na desigualdade e na hipocrisia. Sabê-lo, apontá-la a dedo, acusá-la em voz alta, é já um caminho. 

A Espanha foi apenas um exemplo do que está a acontecer num mundo onde ser rico começa a ser sinónimo de corrupto e terá de explicar como e donde lhe veio a riqueza. Cada vez se torna mais incompreensível que quem governa o faça por compadrio, por cunha, por amiguismo, por seguidismo ideológico. Está na forja uma nova sociedade, onde as pessoas não sejam mercadorias, números estatísticos, mas pessoas. Que não dão a outrem o direito de pensar pela sua cabeça.

As eleições portuguesas não vão trazer grandes mudanças. Os partidos de esquerda nacionais não estão preparados para o entendimento, um programa comum, com cedências no acessório, unidade no essencial. Não são poder, porque o não querem. Mas creio que serão as últimas onde a partidocracia vigente vai ver abrir-se as portas da sua, mesmo que não queira, renovação.

Já não há lugar para meias palavras, meias ofertas, meias soluções. Como assinalou Pablo Iglesias, A Guerra dos Tronos, que passa no cabo, antecipa bem o que é o mundo planetário onde vivemos. Onde vale tudo para se ter o poder. O que é preciso mudar, para que o inverno não nos atinja a todos.

28 de Maio de 2015
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Quinta, 28 Maio 2015 10:38 )  

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