o riachense

Domingo,
30 de Abril de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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O meu feriado nacional é o 25 de Abril

Chega-nos um feriado, ao menos isso, a meio da semana: o 10 de Junho. O dia da pátria. Dia de Camões. Das comunidades. Este ano em Lamego, para homenagear a interioridade. Uma vez por ano, a visão política portuguesa presidencial encoraja o interior a pôr os meninos das escolas do ensino básico a acenar bandeirinhas, a ver uma parada militar, enquanto para os adultos se preparam discursos nacionalistas, comendas e graus de oficial das ordens portuguesas para um grupo escolhido por critérios que se desconhecem, mas consentâneo com a festa presidencial de Cavaco Silva.

Hoje, a 9 de Junho, continua a prisão de José Sócrates. É assunto que me não surpreende, sem o comentar. Preocupa-me, isso sim, como português, o país que amanhã é glorificado na praça pública. Preocupa-me a propaganda dum presidente, que, em ocaso de função, deixa uma imagem de partidarização do cargo, tomando medidas em defesa e protecção do centro direita e abandonando tudo o que tenha um cheiro a democracia e a desenvolvimento social. Um presidente que nenhuma medida assumiu para que a corrupção ou a exploração dos mais fracos fosse olhada como uma praga a combater e a destruir e não como algo irritante mas inevitável. Foi, na minha opinião, o pior presidente da democracia portuguesa, nos últimos quarenta anos.

A democracia não se compagina com o autoritarismo sectário. A recusa de participação das Associações das Forças Armadas nas comemorações, praças, sargentos e oficiais, sinaliza o mal-estar evidente numa sociedade cada vez mais divorciada da política, cada vez mais manipulada pela ditadura dos poderes sobre a informação, desta sobre a anomia cidadã. Ontem eram os magistrados em protesto contra a ministra da Justiça. Recente, a greve de um mês dos funcionários do INEM às horas extraordinárias. Hoje, é a maioria dos clínicos inquiridos por um estudo do Instituto Universitário de Lisboa denunciando a degradação crescente do Serviço Nacional de Saúde. O aumento da pobreza e das desigualdades sociais neste país é dramático. Assenta na visão ideológica do mundo como um mercado imenso ao serviço duma minoria.

A sociedade secreta Bilderberg com o seu controlo global, onde Portugal é hoje representado por Durão Barroso e António Vitorino, a convite dum empresário dos meios de comunicação, Pinto Balsemão. A falsificação da realidade no seu estado puro, no controlo da mente colectiva da sociedade humana. Claro que há resistência, mas esta serve também ao poder das organizações dominantes como exemplo de que a democracia funciona. Essas forças, Pentágono, Cia, Nato, Fmi, Banco Mundial, Finança, Mercados, Serviços de Segurança, adormecem o planeta com os prozacs do combate à depressão cada vez mais esquizofrénica das sociedades em conflito.

Os países deixaram de ser autónomos. As línguas nacionais que formam a identidade, saem a mercado, ao preço de saldo. Só há um linguajar dominante, a anglofobia, símbolo, desde o século XX, do poder americano no domínio mundial, da ferramenta mental contemporânea intercivilizacional, de divulgação do novo mundo das comunicações. As pátrias sucumbem, o pensamento uniformiza-se, o Grande Irmão protege-nos. 

Não espanta que Cavaco Silva acene aos autarcas com os fundos comunitários que irão ser disponibilizados até 2020. Nem uma palavra sobre os que, durante a sua longa gestão, como primeiro-ministro e presidente da república, entraram no país e se sumiram, em proveito de gente que se conhece, distribuída pela banca, a finança, a universidade, as fundações, as associações de advogados, o empresarialismo privado parasitário; não pelo país que, sob a sua direcção, empobreceu, pior do que isso, desacreditou e perdeu a esperança no futuro.

Há muitos nomes de portugueses que o 10 de Junho nunca recordará. Estão fora do mundo economês de Cavaco Silva. São igualmente estranhos à mentalidade neoliberal duma Europa concentracionária e burocrática, onde elites fechadas em guetos, incapazes de contactos com pessoas normais, monitorizam o menor sinal de vida, movem as marionetas colocadas nos palcos nacionais. 

 É um outro Portugal, que irrompe das páginas de Fernão Lopes, que foi assassinado em Alfarrobeira, vingado por D. João II, expulso e perseguido por D. Manuel, D. João III e a Inquisição, cantou alto com Camões, resistiu com o padre António Vieira, correu mundo, mudou mentalidades com o Marquês de Pombal, foi enforcado com Gomes de Andrade, renasceu em 1820, 1834, 1836, 1890, 1910, 1974, escrito em muitas páginas de sacrifício, combate, dignidade, respeito pelo outro. O Portugal de Abril, metido pelos actuais poderes, no bolso das suas ambições, nas contas e nos róis dos seus negócios. Aí, a um canto da pátria, disperso pelo mundo, a preparar a sua vez de inventar um outro dia para voltar a ser um povo.

11 de Junho de 2015
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Quinta, 11 Junho 2015 23:22 )  

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