o riachense

Domingo,
30 de Abril de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Um referendo incómodo

Algo irá acontecer na Europa a partir do referendo grego, independente da vitória do sim ou do não. 

Um povo pode ou não reflectir o seu próprio destino? 

Quando a pátria se transporta na lapela e os governantes não passam de moços de recados duma política do capital financeiro e bancário alemão, é difícil perceber o que a dignidade recusa, pela necessidade de assumir um local, uma história, uma cultura, uma língua. 

O problema grego, como o nosso, não é económico, mas político. 

A direita mais conservadora europeia vingou-se da vitória aliada da 2ª Guerra Mundial. Travestida de democratas-cristãos, liberais, sociais-democratas, socialistas,a Europa racista e xenófoba emergiu do fascismo perdoado após o Holocausto, a que a democracia made in América respondeu com o bombardeamento nuclear de Hiroxima e Nagasaqui. 

Com a muleta da ilusão democrática, envolveu-se num processo de uma utópica Europa unida, uma federação de países ligados pela solidariedade, o estado social, a diminuição de diferenças entre ricos e pobres, países desenvolvidos e países de mentalidade agrária, entre protestantes e católicos, onde o desemprego, o analfabetismo, o sofrimento, a pobreza, a marginalidade, a ignorância, fossem substituídas por uma sociedade menos desigual, mais justa e com uma acção reguladora nos conflitos ideológicos e nas diferenças socioeconómicas. 

Durou-lhe pouco o altruísmo. 

Como qualquer sociedade em que o poder sem alternativa destrói o diálogo, o contraditório, o espírito crítico, a burocracia enquista-se na distribuição dos cargos e privilégios entre amigos, conhecidos e familiares. O autoritarismo implanta-se e protege-se com o controlo da informação, da privacidade alheia, da tecnologia, do poder armado.

 As diferenças entre países ricos e pobres, em vez de diminuir, agravaram-se. Foram aliás, despudoradamente subvertidas através duma moeda, aparentemente idêntica em qual quer dos dezanove países da União Europeia, mas que não passou dum passe de mágica Wagneriano escondendo sobre a beleza da música o passo cadenciado do totalitarismo germânico. 

Uma Europa duas vezes destruída num século pelo pangermanismo racista, caminha para a sua terceira implosão, por ter entregue a mangas de alpaca a gestão do direito dos povos à sua conquista da dignidade de viver.

O exemplo grego, como os movimentos anti-partidos um pouco por toda a Europa, anuncia que se está a gerar entre poder e cidadania algo novo, que substituirá, mais cedo ou mais tarde, o centralismo partidário dominante, da direita à esquerda, por uma intervenção directa dos povos nos projectos da sua existência como nação.  

Por isso, o referendo grego incomoda os mandantes europeus, habituados a exigir, sob chantagem, a servidão dos fracos a favor do engrandecimento material dos interesses de quem dependem. 

Desconstrói, só pela sua existência, a mitologia democrática duma Europa humanizada e humanitária.

A corrupção tornou-se epidémica no nosso mundo político. Começa a ser a base duma nova ideologia, a da mercadorização do ser humano, da sua utilidade enquanto activo, descartável como qualquer objecto que ultrapassou o tempo de consumo. Num mundo tecnológico, populações sem uso, excessivas, são inúteis e indesejáveis, pela despesa que suscitam e as exigências sociais de que indevidamente, no seu critério, beneficiam. Não é por acaso que a política do FMi, da União Europeia, do Banco Central, dos seus representantes nos governos nacionais, assenta na destruição da mentalidade de cada país, transformando-o também numa mercadoria vendida ao desbarato em troca duma subordinação dos Estados à planetarização financeira combinada nas Bildergerg dos devoristas, onde chefes de estado, governos, partidos, forças armadas, são simples peças dum tabuleiro de xadrez jogado por gente de rosto escondido sob máscaras dum teatro de marionetas.

O que se joga na Grécia, no referendo, é o que cada cidadão europeu se pergunta: que Europa é esta que vive da humilhação do seu semelhante, em nome do Deus Dinheiro? Que democracia é esta que transformou 18 países numa vaca para aleitar um? Quantos desempregados custam um Mercedes dum burocrata, um Audi dum empreendedor? Que sociedade de bem estar é esta que vive da mentira, do suborno, da repressão, da desigualdade? Quem quer esta Europa, este Euro germânico, este impudor sem freio, este controlo do corpo e do espírito, esta farsa dum capitalismo planetário selvagem, carnívoro, antropófago, genocida?

Há duas escolhas, na Grécia: um não e um sim.

Nenhuma delas é senão o princípio duma ruptura, que cairá sobre a Europa, destruindo-a com a mesma arma que utiliza: como mercadoria, já que 18 países deixaram de o ser, vendidos a quem mais der. A União não passa, hoje, duma mentira. Como está, não durará sempre.

2 de Julho de 2015
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Quinta, 02 Julho 2015 13:05 )  

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