o riachense

Domingo,
27 de Maio de 2018
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

João Moreira

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

Mesmo que a morte nos separe

De médico e de louco

O Sr. Daniel era de poucas falas mas senhor de uma educação e compostura imaculadas. Os estudos não eram muitos, apenas até à 4ª classe porque o dinheiro não abundava. Depois de vários anos em África gozava agora a sua reforma na terra que o viu crescer.

Entrou no gabinete queixando-se das costas. Não era homem de visitas ao médico, nem tão pouco se lembrava da última. Não tomava medicamentos. Apesar da boa vontade de doente e médico, a história clínica era confusa: a princípio não referiu antecedentes relevantes; depois afinal já existia um problema nas costas; finalmente, para procurar recuperar o tempo perdido na vigilância da saúde, fizeram-se exames que revelaram alterações. Várias consultas e testes depois as conclusões não eram animadoras... Existia um tumor no pâncreas com características preocupantes.

As regras para transmissão de más notícias mandam fazê-lo com calma e não revelar mais em cada consulta do que o doente está preparado para ouvir. É mais fácil de dizer do que fazer. Para o conseguir seria necessário muito tempo disponível e um conhecimento profundo do doente e família, duas coisas que escasseiam aos médicos de família de hoje, que têm quase 2000 utentes ao seu cuidado. Desde que o doente não dê instruções em contrário é obrigatório transmitir a informação completa, devagar mas sem omissões. A família é informada apenas na medida em que o doente desejar. 

Expliquei que a situação era grave, tínhamos de tentar um tratamento urgente, iríamos reavaliar depois. A prioridade foi encaminhar o caso para uma consulta de Oncologia. Há sempre uma esperança secreta de que o colega consiga fazer milagres. Temos tempo, pensei.

As semanas foram passando com algumas visitas do Sr. Daniel para que o ajudasse a controlar a dor, mas também as náuseas e a comichão que resultam de um fígado que não está a funcionar. E para ouvir uma palavra de conforto e contar as novidades, com um sorriso que nem sempre terá sido sincero. Com o tempo desenvolvemos uma relação de empatia e respeito mútuo, mais útil do que os muitos comprimidos que lhe prescrevi. Estranhamente passei a gostar daquelas visitas. Trazia agora muitas vezes consigo a esposa, a D. Marlene. 

Um dia visitou-me, animado, para contar que ia começar um tratamento novo. Foi a última vez que o vi. Nunca teve a hipótese de iniciar o tratamento.

Diagnosticar uma doença incurável é uma fonte de frustração para o próprio médico como poucas outras. A impotência perante a doença e até o relembrar da própria mortalidade provocam sempre uma sensação de fracasso. A comunicação é particularmente difícil e particularmente importante, pelo que uma boa relação médico-doente faz milagres. Quando a doença atinge a fase terminal há despedidas a fazer, um testamento para escrever. Pode redigir-se um Testamento Vital, que explica quais os procedimentos a realizar caso o doente fique incapacitado para tomar decisões acerca da sua saúde. Não é legítimo roubar a alguém a possibilidade de resolver esses assuntos sob o pretexto de lhe poupar sofrimento.

Mesmo quando a doença não tem cura há muito a oferecer para aliviar  sofrimento e promover um fim de vida digno. Diz-se que os cuidados ao doente terminal vão para além da sua morte, pela ajuda à família enlutada. Assim foi. Passei a ter visitas regulares da D. Marlene, compreensivelmente abatida. Sentia naquelas consultas uma certa cumplicidade difícil de explicar. E, acima de tudo, uma sensação de respeito e dever para com o doente que não se apaga. Mesmo que a morte nos separe.


Actualizado em ( Quarta, 08 Julho 2015 11:49 )  
{highslide type="img" height="200" width="300" event="click" class="" captionText="" positions="top, left" display="show" src="http://www.oriachense.pt/images/capa/capa801.jpg"}Click here {/highslide}

Opinião

 

António Mário Lopes dos Santos

Agarrem-me, senão concorro!

 

João Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária