o riachense

TerÁa,
23 de Maio de 2017
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Jo√£o Moreira

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Mesmo que a morte nos separe

De médico e de louco

O Sr. Daniel era de poucas falas mas senhor de uma educa√ß√£o e compostura imaculadas. Os estudos n√£o eram muitos, apenas at√© √† 4¬™ classe porque o dinheiro n√£o abundava. Depois de v√°rios anos em √Āfrica gozava agora a sua reforma na terra que o viu crescer.

Entrou no gabinete queixando-se das costas. N√£o era homem de visitas ao m√©dico, nem t√£o pouco se lembrava da √ļltima. N√£o tomava medicamentos. Apesar da boa vontade de doente e m√©dico, a hist√≥ria cl√≠nica era confusa: a princ√≠pio n√£o referiu antecedentes relevantes; depois afinal j√° existia um problema nas costas; finalmente, para procurar recuperar o tempo perdido na vigil√Ęncia da sa√ļde, fizeram-se exames que revelaram altera√ß√Ķes. V√°rias consultas e testes depois as conclus√Ķes n√£o eram animadoras... Existia um tumor no p√Ęncreas com caracter√≠sticas preocupantes.

As regras para transmiss√£o de m√°s not√≠cias mandam faz√™-lo com calma e n√£o revelar mais em cada consulta do que o doente est√° preparado para ouvir. √Č mais f√°cil de dizer do que fazer. Para o conseguir seria necess√°rio muito tempo dispon√≠vel e um conhecimento profundo do doente e fam√≠lia, duas coisas que escasseiam aos m√©dicos de fam√≠lia de hoje, que t√™m quase 2000 utentes ao seu cuidado. Desde que o doente n√£o d√™ instru√ß√Ķes em contr√°rio √© obrigat√≥rio transmitir a informa√ß√£o completa, devagar mas sem omiss√Ķes. A fam√≠lia √© informada apenas na medida em que o doente desejar.¬†

Expliquei que a situação era grave, tínhamos de tentar um tratamento urgente, iríamos reavaliar depois. A prioridade foi encaminhar o caso para uma consulta de Oncologia. Há sempre uma esperança secreta de que o colega consiga fazer milagres. Temos tempo, pensei.

As semanas foram passando com algumas visitas do Sr. Daniel para que o ajudasse a controlar a dor, mas tamb√©m as n√°useas e a comich√£o que resultam de um f√≠gado que n√£o est√° a funcionar. E para ouvir uma palavra de conforto e contar as novidades, com um sorriso que nem sempre ter√° sido sincero. Com o tempo desenvolvemos uma rela√ß√£o de empatia e respeito m√ļtuo, mais √ļtil do que os muitos comprimidos que lhe prescrevi. Estranhamente passei a gostar daquelas visitas. Trazia agora muitas vezes consigo a esposa, a D. Marlene.¬†

Um dia visitou-me, animado, para contar que ia come√ßar um tratamento novo. Foi a √ļltima vez que o vi. Nunca teve a hip√≥tese de iniciar o tratamento.

Diagnosticar uma doen√ßa incur√°vel √© uma fonte de frustra√ß√£o para o pr√≥prio m√©dico como poucas outras. A impot√™ncia perante a doen√ßa e at√© o relembrar da pr√≥pria mortalidade provocam sempre uma sensa√ß√£o de fracasso. A comunica√ß√£o √© particularmente dif√≠cil e particularmente importante, pelo que uma boa rela√ß√£o m√©dico-doente faz milagres. Quando a doen√ßa atinge a fase terminal h√° despedidas a fazer, um testamento para escrever. Pode redigir-se um Testamento Vital, que explica quais os procedimentos a realizar caso o doente fique incapacitado para tomar decis√Ķes acerca da sua sa√ļde. N√£o √© leg√≠timo roubar a algu√©m a possibilidade de resolver esses assuntos sob o pretexto de lhe poupar sofrimento.

Mesmo quando a doença não tem cura há muito a oferecer para aliviar  sofrimento e promover um fim de vida digno. Diz-se que os cuidados ao doente terminal vão para além da sua morte, pela ajuda à família enlutada. Assim foi. Passei a ter visitas regulares da D. Marlene, compreensivelmente abatida. Sentia naquelas consultas uma certa cumplicidade difícil de explicar. E, acima de tudo, uma sensação de respeito e dever para com o doente que não se apaga. Mesmo que a morte nos separe.


Actualizado em ( Quarta, 08 Julho 2015 11:49 )  

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