o riachense

Quinta,
22 de Junho de 2017
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João Moreira

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Medicina à la carte

De médico e de louco

A D. Amélia vem à consulta pedir uma TC à cabeça porque tem dores e a vizinha do 3º esquerdo lhe disse que podia ser um tumor. Quando sugiro um tratamento indigna-se, não é isso que quer, é o exame. A D. Isabel vem pedir uma credencial para ir de ambulância à consulta a Lisboa apesar de não cumprir critérios clínicos, porque o comboio e o metropolitano são complicados. A D. Nádia traz uma lista infindável de exames sugeridos por um colega de uma clínica privada por razões pouco claras e não está sequer interessada em ser observada para avaliar a situação e concluir o que é realmente necessário. O Sr. Pedro vem pedir uma baixazita porque o trabalho está complicado e o patrão pede horas a mais, enquanto o Sr. João que até está desempregado e nem recebe grande coisa, pede uma baixa para não ter que andar a pôr carimbos nos papéis do subsídio, que são uma chatice. Todos estes pedidos são contra as regras, muitos imorais, alguns ilegais. 

Consultas como as que descrevi decorrem sempre da mesma forma: passado pouco tempo ouve-se o inevitável “descontei, tenho direito” ou o igualmente célebre ”sr. Dr., dê lá um jeitinho”; a minha reacção também não costuma variar. Sonhei? Não. Haveria tantos outros exemplos... Não representam a maioria dos doentes mas ainda são demasiado frequentes. Regras são regras, mesmo que nalguns casos até possa não se concordar com elas. Dura Lex, Sed Lex. Após cada uma destas consultas tenho uma vontade quase incontrolável de correr até uma repartição de Finanças e pedir, se faz favor, para me fazerem o jeitinho de não pagar os impostos. 

É inacreditável que a Medicina Familiar do século XXI ainda tenha de lidar com estas abordagens à la carte. São doentes que não querem um médico, querem um menu. Esquecem-se que nem o Centro de Saúde é um restaurante, nem o médico é um garçon

A formação de um especialista em Medicina Geral e Familiar demora pelo menos 11 anos entre faculdade, ano comum e formação específica. São 11 anos em que não se sua, sangra-se. O resultado é um profissional que começa a tratar de si ainda antes de você existir, enquanto os seus pais se limitam a imaginar uma gravidez. Depois de os ajudar a planear essa gravidez de forma segura, o seu Médico de Família acompanha-o dentro do útero da sua mãe e, uma vez cá fora, durante toda a sua infância, adolescência e idade adulta até ao dia em que morra bem velhinho mas cheio de saúde, como diria o Raúl Solnado. Tentar reduzir alguém com esta formação ao “médico dos papelinhos” é o mesmo que comprar um Ferrari para lhe atrelar uma charrua e ir lavrar o campo. É possível, mas pouco lógico.

Existem questões culturais por trás deste problema, agravadas pelo facto de muito do trabalho do Médico de Família ser pouco visível e por isso pouco valorizado. Consiste em salvar-lhe a vida um bocadinho todos os dias, ao ajudá-lo a controlar a sua hipertensão, o seu colesterol ou a sua diabetes. Só mais raramente há lugar a diagnósticos brilhantes e doenças com nomes impronunciáveis. Leva tempo, dá trabalho a médico e doente, necessita de empatia mútua e sobretudo confiança que nestas medicinas à la carte não se desenvolvem. 

Discuta o que lhe for proposto, informe-se, participe nas decisões que lhe digam respeito, mas confie no seu médico. Se as vossas diferenças forem irreconciliáveis, explique porquê e mude de médico. Não pode é limitar-se a ir ao “médico dos papelinhos”. Além de lhe fazer mal à saúde terá como principal resultado um doente frustrado e 5 euros mais pobre. E um médico a sonhar com outras paragens.

Actualizado em ( Quinta, 30 Julho 2015 11:54 )  

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