o riachense

TerÁa,
19 de Setembro de 2017
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Jo√£o Moreira

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Medicina à la carte

De médico e de louco

A D. Am√©lia vem √† consulta pedir uma TC √† cabe√ßa porque tem dores e a vizinha do 3¬ļ esquerdo lhe disse que podia ser um tumor. Quando sugiro um tratamento indigna-se, n√£o √© isso que quer, √© o exame. A D. Isabel vem pedir uma credencial para ir de ambul√Ęncia √† consulta a Lisboa apesar de n√£o cumprir crit√©rios cl√≠nicos, porque o comboio e o metropolitano s√£o complicados. A D. N√°dia traz uma lista infind√°vel de exames sugeridos por um colega de uma cl√≠nica privada por raz√Ķes pouco claras e n√£o est√° sequer interessada em ser observada para avaliar a situa√ß√£o e concluir o que √© realmente necess√°rio. O Sr. Pedro vem pedir uma baixazita porque o trabalho est√° complicado e o patr√£o pede horas a mais, enquanto o Sr. Jo√£o que at√© est√° desempregado e nem recebe grande coisa, pede uma baixa para n√£o ter que andar a p√īr carimbos nos pap√©is do subs√≠dio, que s√£o uma chatice. Todos estes pedidos s√£o contra as regras, muitos imorais, alguns ilegais.¬†

Consultas como as que descrevi decorrem sempre da mesma forma: passado pouco tempo ouve-se o inevit√°vel ‚Äúdescontei, tenho direito‚ÄĚ ou o igualmente c√©lebre ‚ÄĚsr. Dr., d√™ l√° um jeitinho‚ÄĚ; a minha reac√ß√£o tamb√©m n√£o costuma variar. Sonhei? N√£o. Haveria tantos outros exemplos... N√£o representam a maioria dos doentes mas ainda s√£o demasiado frequentes. Regras s√£o regras, mesmo que nalguns casos at√© possa n√£o se concordar com elas. Dura Lex, Sed Lex. Ap√≥s cada uma destas consultas tenho uma vontade quase incontrol√°vel de correr at√© uma reparti√ß√£o de Finan√ßas e pedir, se faz favor, para me fazerem o jeitinho de n√£o pagar os impostos.¬†

√Č inacredit√°vel que a Medicina Familiar do s√©culo XXI ainda tenha de lidar com estas abordagens √† la carte. S√£o doentes que n√£o querem um m√©dico, querem um menu. Esquecem-se que nem o Centro de Sa√ļde √© um restaurante, nem o m√©dico √© um gar√ßon.¬†

A forma√ß√£o de um especialista em Medicina Geral e Familiar demora pelo menos 11 anos entre faculdade, ano comum e forma√ß√£o espec√≠fica. S√£o 11 anos em que n√£o se sua, sangra-se. O resultado √© um profissional que come√ßa a tratar de si ainda antes de voc√™ existir, enquanto os seus pais se limitam a imaginar uma gravidez. Depois de os ajudar a planear essa gravidez de forma segura, o seu M√©dico de Fam√≠lia acompanha-o dentro do √ļtero da sua m√£e e, uma vez c√° fora, durante toda a sua inf√Ęncia, adolesc√™ncia e idade adulta at√© ao dia em que morra bem velhinho mas cheio de sa√ļde, como diria o Ra√ļl Solnado. Tentar reduzir algu√©m com esta forma√ß√£o ao ‚Äúm√©dico dos papelinhos‚ÄĚ √© o mesmo que comprar um Ferrari para lhe atrelar uma charrua e ir lavrar o campo. √Č poss√≠vel, mas pouco l√≥gico.

Existem quest√Ķes culturais por tr√°s deste problema, agravadas pelo facto de muito do trabalho do M√©dico de Fam√≠lia ser pouco vis√≠vel e por isso pouco valorizado. Consiste em salvar-lhe a vida um bocadinho todos os dias, ao ajud√°-lo a controlar a sua hipertens√£o, o seu colesterol ou a sua diabetes. S√≥ mais raramente h√° lugar a diagn√≥sticos brilhantes e doen√ßas com nomes impronunci√°veis. Leva tempo, d√° trabalho a m√©dico e doente, necessita de empatia m√ļtua e sobretudo confian√ßa que nestas medicinas √† la carte n√£o se desenvolvem.¬†

Discuta o que lhe for proposto, informe-se, participe nas decis√Ķes que lhe digam respeito, mas confie no seu m√©dico. Se as vossas diferen√ßas forem irreconcili√°veis, explique porqu√™ e mude de m√©dico. N√£o pode √© limitar-se a ir ao ‚Äúm√©dico dos papelinhos‚ÄĚ. Al√©m de lhe fazer mal √† sa√ļde ter√° como principal resultado um doente frustrado e 5 euros mais pobre. E um m√©dico a sonhar com outras paragens.

Actualizado em ( Quinta, 30 Julho 2015 11:54 )  

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