o riachense

Quinta,
29 de Junho de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Todos somos culpados do país que temos

Como os debates eleitorais prometem transformar-se, previsivelmente, numa palhaçada. Como o PS e a maioria laranja/azul não me parecem querer ganhar as eleições. Como se promete uma crise, haja uma vitória eleitoral da coligação PSD/CDS, sem maioria necessária na Assembleia da República, ou dum governo minoritário do PS, sem compromissos com outros partidos. Não conseguirão ver, quer no campo neo-liberal, quer no social-democrata, aprovado qualquer programa de governo, adivinhando-se que tudo ficará por resolver para depois das eleições presidenciais, com a formação, por volta do fim do ano, dum governo de gestão da confiança de Cavaco Silva para esse intervalo de tempo.

Não estou a minimizar, neste Portugal dos pequeninos, que acaba em Badajoz, o que os partidos pensam de como se desenvencilhar duma coisa que a democracia, por enquanto, lhes coloca como obstáculo - o voto eleitoral.

Nem estou a desresponsabilizar um povo, que tem a memória dum cágado e a irresponsabilidade da sua indiferença. O que passou nestes últimos anos de governo PSD/CDS, o que perdeu em direitos sociais, económicos, políticos, o que viu acontecer aos seus filhos ,sobrinhos,netos,sempre mão d’obra barata duma Europa antidemocrática e hierarquicamente desigual no comportamento, solidariedade, visão do mundo, o que lhe aconteceu nos domínios da saúde, da educação, do desemprego, da desigualdade fiscal em relação aos grupos privilegiados, parece que se lhe varreu da memória, ou segundo as opiniões dos comentadores laranjas, a maioria dos que têm tempo de antena monocórdico e sem contraditório, nas televisões nacionais, está na disposição de perdoar, dar como Cristo a outra face, entregar-se à continuidade da miséria e indignidade futuras com a mesma resignação com que assumiu a perda dos filhos na guerra colonial em nome de minorias fascistas que dominaram durante cinquenta anos, a economia, as forças armadas, a igreja católica, a justiça, a imprensa, a censura, a polícia política, a Legião Portuguesa, a GNR, a PSP, os juízes do tribunal da Boa Hora.

Não consigo perceber o que pretendem por sua vez os partidos à esquerda do PS. Uma alternativa para a Europa antidemocrática e neocapitalista, construída sob o espírito do pangermanismo alemão? Muito bem, aplaudo. Mas qual o programa? Regressando ao escudo? Ficando orgulhosamente sós, contra o mundo? Com que economia, com que tipo de sociedade, com que aliados, com que planeta? Ou ficam-se, como há cerca de quarenta anos, desde o 25 de Novembro, pelo protesto, que os partidos do dito arco da governação aceitam e aplaudem como tampão e torneira de segurança a movimentos sociais não controlados?

Critica-se a falta de democracia que se revela nas instituições europeias e nos países que integram a Comunidade Europeia. Mas não se olha para o rosto que espreita do espelho, muito mais preocupado com o desenrasca diário e egoísta da sua sobrevivência, do que com os conceitos de democracia que o obrigariam a aperceber-se de que participar não é apenas aquela chatice de ter de aturar aqueles políticos, todos iguais, nenhum se safa, só querem é tacho, ou escrever frase de protesto no facebook, ou discordar de qualquer greve, porque esta o prejudica, ou ter medo que qualquer palavra sua menos ponderada lhe arranje forma de perder o emprego.

Este é o povo que somos. 

Que foi ressubjugado, depois de Novembro de 1975, pelos partidos do arco da governação e seus aliados na finança, pelas maçonarias, a opus dei, a opus gay, os órgãos de informação, o FMI, a CIA, a NATO, a Europa. 

Que, pela desunião, pela velhas e bolorentas questões de divisionismo ideológico - as ideologias são importantes, como a liberdade, como o espírito crítico, como a mudança que o tempo cria nos seres e no mundo - colocaram sempre as esquerdas à esquerda do PS na minoria dos votos que o povo lhes concede.

Ficou-me na mente uma frase reveladora de profundo desespero, dum jornalista português que muito considero, ao questionar-se se o mundo que os cidadãos sonham para os seus filhos é feito apenas de telenovelas e de centros comerciais?

Creio que não. Creio que os cidadãos querem outra coisa para os seus filhos. Querem um mundo onde as crianças possam nascer e crescer saudáveis e protegidas, os adolescentes se descubram como futuro, os cidadãos saibam que o que conquistam é uma vitória colectiva. Não querem os filhos emigrantes, em busca do direito a uma vida digna, que a pátria lhe recusa. Faltam-lhe - esse tem sido o drama - forças sociais e políticas que lhe inspirem confiança e capacidade de intervenção. Faltam-lhe as alavancas para perceber que as mudanças não existem sem a sua determinação. Falta-lhe acreditar que as forças do progresso contam com eles e sabem que o seu voto cai no que antecipadamente decidiram.

Não creio que as esquerdas à esquerda do PS estejam, hoje, em condições de aglutinar o que deve ser aglutinado, separar as águas do essencial do lodo do acessório, deixar na prateleira dos objectos caídos em desuso os manuais do nosso desconforto. Não creio que se esteja com sinceridade dispostos a unir esforços.

Lisboa é demasiado monopolista, para perceber que a consciência do país é outra coisa, que não resolveu, desde a revolução liberal de 1820, durante mais de dois séculos, os seus problemas estruturais.

O que se vai passar nas próximas eleições pouco ou nada muda na nossa qualidade de cidadãos dum país continuadamente adiado.

Por nossa culpa.

27 de Agosto de 2015
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Quinta, 27 Agosto 2015 10:33 )  

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