o riachense

Segunda,
22 de Julho de 2019
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João Luz

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E porque não...?

O lugar em que vivemos é o nosso primeiro elo de ligação ao resto do mundo. Saímos de casa, percorremos as ruas, olhamos à volta e queremos ver e ouvir e cheirar coisas que nos emocionem, que nos enalteçam, que nos tragam algum sentido de belo.
Mas aqui não é isso que acontece. Perguntamos “o que me faz ficar aqui?” Não gostamos da primeira possibilidade de resposta e continuamos. Sabemos que o mundo é pequeno e que há muito lugares onde gostamos do que vemos quando caminhamos pela rua. Perguntamos “porque é que o lugar onde nasci e cresci deixou de ser o lugar onde quero estar?”
Aqui, olhamos à volta e percebemos porquê. São muito poucos os motivos de comoção, de alegria e de beleza. Pior do que deixar de acreditar que as coisas podem ser melhores, é acreditar que o normal é as coisas estarem assim-assim. Diz-se “se uma casa está a cair é porque é velha e não dura para sempre”. Os velhos vão ficando até cairem, os novos vão saindo sem saber quando vêm, os que ficam habituaram-se a ouvir mentiras tantas vezes repetidas que as tomam como normalidade. Repetimos a pergunta “o que me faz ficar aqui?”
Os dias empurram-nos para frente, a resposta vai sendo adiada e o que queremos é descansar ao fim do dia, quando chegamos a casa. A vida segue assim, um dia de cada vez, e quando nos apercebemos passaram quinze anos e meio depois do fim do mundo. Dizia-se que o mundo ia acabar no fim do século passado mas alguma coisa nos fez continuar, não sabemos exactamente o quê. Provavelmente, o mundo já acabou e nós estamos num limbo onde as coisas definham devagar.
A nossa primeira esfera de ligação ao mundo está a definhar e nós estamos sentados no sofá a descansar. Lá fora, as casas estão a cair, as pessoas não querem ficar e até as ervas daninhas estão a secar. Acaba-se o trabalho, acaba-se a água, acaba-se a vida e é assim que o lugar onde crescemos já não nos comove. Pelo contrário, entristece-nos.
Se a tristeza não nos tolhesse o discernimento e fôssemos capazes de a transformar em raiva, então daríamos um murro na mesa do poder e aí gritávamos “vou dizer o que me trouxe aqui!” Daríamos mais um murro na mesa e gritávamos “bebi água daquele rio, corri naqueles pinhais, foi naquela casa que vivi!” Do outro lado da mesa, há-de estar alguém que já não sabe o que isso é. Esqueceu-se de quem é. Não consegue ollhar-nos nos olhos e perceber que estamos a gritar de raiva. É alguém que já não ouve, já não vê, não sente, não consegue dizer mais além do mesmo que se continua a dizer depois do fim do mundo, é alguém que vai ficar velho como as casas, vai cair, ficar em pó, ficar para trás. O que fica para trás são duas ou três folhas escritas onde tudo fica resumido e arrumado numa gaveta. Quem se senta atrás da mesa do poder esqueceu-se de fazer a mesma pergunta todos os dias, ao acordar, “o que vou deixar para trás?” Quem se senta atrás da mesa do poder, esqueceu-se de caminhar a pé pelas ruas, de se sentar à beira rio e de ficar a ver quem passa.
Devíamos dar um murro de raiva na mesa do poder e gritar “lembra-te do que foste quando eras criança!” A fragilidade continua desde o berço. Crescemos e ficámos presos entre dois mundos. Na verdade, houve um mundo que acabou no século passado.
Caminhamos agora entre o que resta. Este novo mundo já não será feito por quem está no limbo, mas sim por quem conseguir reconstruir sobre as pedras do outro século. O limbo é um lugar de esquecimento e silêncio. O novo mundo é um lugar de memória, de troca e de reconstrução. Chamemos de volta as mentes utópicas para desenhar linhas renovadas e devolver alegria ao olhar. Só encontraremos serenidade no lugar que habitamos se nele pulsar a mesma vida que nos traz a caminhar pela rua. Perguntamos “o que me faz ler isto até ao fim?”

Actualizado em ( Quinta, 27 Agosto 2015 10:42 )  
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