o riachense

Domingo,
30 de Abril de 2017
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

António Mário Lopes dos Santos

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

Cada cavadela, uma asneira

A Guerra dos Tronos é, actualmente, a minha série televisiva favorita. Passa-se num mundo alternativo, onde vivem seres humanos distribuídos, e divididos, por vários reinos. Mata-se, ama-se, corrompe-se, tortura-se, morre-se. Mente-se também muito, sem consequências. Como o fazem, neste nosso pobre e complicado mundo, a Comunidade Europeia, os EUA, a Rússia, a China, o mundo islâmico, os países sul-americanos, de África, Ásia, Oceania. Num planeta que, se tivesse inteligência e juízo, acabava com a vermina que, no fundo, em nome da ambição, só o destrói. 

Como, a um nível mais pequenino e medíocre, o nosso Portugal, o fazem despudoradamente Passos Coelho e Paulo Portas, transformando o défice de mais de 7% numa prova de que o número é só estatístico e tudo está a correr mesmo muito bem. O desemprego, uma ficção. A emigração, um proveito. A privatização do ar, terra, mar e fogo, um alívio. O pagamento dos juros da dívida, um bom negócio.

Mas este nosso mundo, como este nosso Portugal, não são um mundo de ficção, o que irrita.

As nossas televisões generalistas e do cabo conseguem dar tempo de antena a um descredibilizado Paulo Portas e a um antigo formador Passos Coelho em sessões contínuas nos noticiários, transformando-os em cavaleiros andantes duma mística Távola Redonda e não pícaras personagens das sátiras de Gil Vicente ou dos sermões do Padre António Vieira. Convenço-me mesmo que, se o papa Francisco vivesse em Portugal, seria acusado de mau português, porque os seus discursos são a antítese dos dos governantes portugueses. Se isto não tem consequências para o Governo, a igreja portuguesa continua a ter pouco a ver com a visão franciscana do actual papa.

Como em três canais generalistas e quatro do cabo o monólogo governamental se repete, hora a hora, como uma reza de quebranto ou um sabbath das bruxas medievais, as opções possíveis são as séries policiais ou de ficção americanas ou a octagéssima segunda vez da projecção do mesmo filme com que os senhores do cabo correspondem aos nossos pagamentos mensais do contrato, não vá a mente ganhar asas e pensar que os consumidores em que nos tornámos são algo mais que os anónimos animais dum jardim zoológico, a quem se vai, se macaco, levar amendoins, se elefante, uma moeda, para tocar a sineta com a tromba, se crocodilos, um pouco da sandes guardada para o efeito. 

Muitas vezes, ao sofrer a desvergonha com que as televisões tratam os cidadãos que as pagam e o mau jornalismo com que nos impingem vigaristas comendadores e diplomados tipo Miguel Relvas em séries múltiplas de entrevistas de mão estendida, apetece esfregar a lamparina da Aladino e pedir ao génio que, ou nos mude de pátria, ou lhes mude a pátria. 

Infelizmente, o PS ainda não saiu do jardim-escola da parvoíce, onde o enfiaram desde o 25 de Novembro, Mário Soares e, neste século, José Sócrates. Arrisca-se a perder as eleições para quem optou por, durante três anos, transformar Portugal numa quinta Patiño, como outrora o fizeram Santos Costa, o almirante Tenreiro, Teotónio Pereira, entre outros, a mando de Salazar e do seu conselheiro espiritual, Cerejeira. 

Não sei se é falta de jeito, se de coerência ideológica. A campanha eleitoral deste partido lembra o combate de D. Quixote contra os moinhos de vento. Transformaram a ideologia social-democrata numa ementa de restaurante de luxo e o estado social numa esquizofrenia internada em qualquer hospital psiquiátrico. Têm um projecto que não são capazes de defender. Um baralho de cartas viciado pelo respeito ao mando comunitário. Quem acredita em quem?

A Europa também não está para graças. Cada vez mais a Comunidade se está a transformar numa feira de vaidades. Como a Wolskswagen (a vigarice é só desta marca?) é só ética germânica e a venda dos submarinos alemães a Portugal uma historieta dum romance do import-export, similares à troca do volfrâmio no tempo de Salazar e Hitler pelo ouro roubado aos judeus, que levou o mestre Aquilino a romances como o Volfrâmio ou Quando os Lobos Uivam. 

Os refugiados, por sua vez, provenientes do Médio Oriente e de África, ressuscitam a demanda de Moisés, fugindo do Egipto com o povo judeu em busca da Terra Prometida, que hoje, em seu poder, continua tão sangrenta, desigual e feroz, como nos tempos bíblicos. Percorrem os caminhos em busca do El-Dorado do norte da Europa, a Alemanha como o Paraíso terrestre, mas as democracias só o são, enquanto os seus bancos e sistemas financeiros criam as Bildebergues dos manda-chuvas do planeta e os direitos humanos são o ideal para os romances e os filmes. 

O certo é que, ao contrário do que se sonhou, com a revolução de Abril, no nosso Portugal os lobos continuam a uivar e o regresso ao medo, à subserviência, à resignação, transformou-se numa espécie de vacina de estupidez congénita, que levou, noutras épocas conturbadas, o almirante bardamerda Pinheiro de Azevedo, com o apoio dos partidos do dito arco do poder, a gritar alto e bom som, no Terreiro do Paço, o povo é sereno, o povo é sereno, ou como nas manifestações da União Nacional se vitoriava o Salazar do orgulhosamente sós e dos crimes da PIDE/DGS. 

Mais do que isso, ao vê-lo a ser usado em sondagens eleitorais que não passam de consultas de quiromancia ou da astrologia das revistas da socialite fina dos eventos publicitários, que singram em mares turvos para levarem ao pódio da vitória quem tem como lema o recheio da tua carteira é meu e caladinho, porque senão ficas sem a própria carteira, e mesmo assim se ajoelha, persigna e agradece, sinto que a canga da servidão do antigo regime o marcou a ferro em brasa na mente. Gostava de me enganar, ser obrigado a pedir desculpa da minha má interpretação, mas deixei de acreditar nas opções políticas dum povo que nem sequer o quer ser, ou só quer ser do Benfica, do Porto e do Sporting.

Como dizia uma das personagens da Guerra dos Tronos, a corrupção é como o remédio milagroso duma doença maligna - tudo se ajoelha ante o título, a cargo, a comenda, a toga, os galões, a conta bancária num local reservado e desconhecido, que abre a porta dum mundo onde poucos entram e de que se não fala para que nem sequer se saiba que existe.

Na Guerra dos Tronos não há salvação. Bons e maus, todos sucumbem à força do passado lendário. Em Portugal continuaremos, a partir de Outubro, com uma grande vitória do abstencionismo, mais uma derrota das esquerdas, ainda que com uma maioria conjunta mais ampla do que a ilógica (im)possível maioria relativa da coligação PSD/CDS. 

A Europa da Comunidade Europeia, segundo se diz por aí, já tem os cheques prontos para os seus serventuários. No PS também há quem receba.

24 de Setembro de 2015
Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar

António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Os outros artigos de António Mário Santos 

Actualizado em ( Quinta, 29 Outubro 2015 12:04 )  

Opinião

 

João Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?

 

João Triguinho Lopes

A grande feira de todas as contradições