o riachense

Quinta,
21 de Novembro de 2019
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António Mário Lopes dos Santos

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Depois do Fandango o Vira

A primeira coisa que me chama a atenção nos resultados eleitorais é a percentagem das abstenções, depois a dos brancos e nulos das urnas. São duas formas de reacção à partidarite em que se vive, talvez por isso dos partidos com assento na assembleia da república nem uma palavra. A maioria silenciosa, que tantos glosaram como arma de arremesso contra a ameaça do radicalismo, continua impávida e serena, como se viver em Portugal, nas Berlengas, em Marrocos, no Brasil, tanto se lhe dê. Vive a sua vidinha, do nascimento à morte. Representa quase 50% da população do país. Os partidos, os cargos políticos, os apelos dos legisladores, são-lhe como um falajar dum extraterrestre caído por acaso no seu mundo. As causas deste desinteresse devem ser muitas e, se queremos um país a sério, há que estudar o fenómeno social e combatê-lo na origem. Demonstra o profundo divórcio entre eleitor e eleito, é a prova mais que provada que o actual sistema eleitoral ruiu.

Se os partidos políticos fingem que não vêem, é porque são os seus interesses partidocráticos, não os da representatividade populacional, que estão em jogo. A avestruz enfia a cabeça na areia, e só nestes momentos, a soergue para gritar que o rei vai nu na praça pública. Como provou Copérnico, queiram-no ou não, o mundo move-se.

Primeira constatação: Mantém-se, ao contrário das previsões, o aumento da abstenção em 2015, com um menor número de votantes. A emigração crescente destes últimos anos, que atingiu as camadas jovens, com estudos e capacidades técnicas para viverem em qualquer país (menos no nosso) apontava para uma quebra maior. Mas não estão ainda contados os votos da emigração, mesmo que estes se encontrassem inscritos em Portugal, e dos que tentaram mudar e votar no estrangeiro, a maioria não o conseguiu.
Passemos agora, já dentro da votação, aos votos de abstenção e nulos, entrados nas urnas:


A diferença, O,38%, não é significativa. Mas, no global, são à volta de 200.000 os votantes que, dum ou doutro modo, apresentam contra o actual sistema eleitoral e os partidos concorrentes, uma forma de voto de protesto.
Se os juntarmos aos 4.065.288 da abstenção, estes 198.864, obtém-se um nº de  recusa de 4.264.152, o que eleva a percentagem de não votantes em partidos para 45,17%., o que daria  uma percentagem de votantes, na realidade, naqueles, 
de 54,83 %.


Se olharmos este último quadro, verifica-se que a coligação perdeu 753.883 votos, mais do que a votação do CDS-PP em 2011. Seria interessante saber qual o resultado eleitoral, se o CDS-PP concorresse sozinho. Para já, dá a impressão que o PSD só perde com a companhia, porque lhe cedeu votos, que lhe vão, nos tempos que aí vêm, fazer falta. A contar com a estrondosa derrota nos Açores e a perda do deputado na Madeira, o CDS arriscava-se a ser uma quinta força extremamente minoritária na Assembleia, perdendo Paulo Portas a verborreia seminarista, cuja credibilidade se verifica na aceitação das regiões onde concorreu sozinho. Creio que o CDS não passa dum partido em implosão a nível nacional, que só complica a vida a quem está ligado. A sua identidade com a democracia cristã, na prática governativa, excluiu ambas, contribuindo para uma maior miséria, maior sacrifício, maior abandono dos mais desfavorecidos.
 
Todos os outros partidos, mesmo o PS, sobem de votação e de número de deputados.

O PS perde a eleição, ficando a segunda força política, por várias ordens de razões, entre elas o ter passado o tempo eleitoral a defender o seu programa, em vez de acusar a coligação do mal que fez ao país. Jogou com um pau de dois bicos, namorando o centro e a esquerda. Conclusão, viu parte do seu eleitorado e dos indecisos fugiram para a esquerda, recebendo menos apoios da classe média do que esperaria. Regressa a meu ver, ao dilema da sua identidade hermafrodita: tem um corpo, duas caras, duas sexualidades, duas formas de agir,, duas mentalidades contraditórias, para além dum passado político (e não só) pouco recomendável. Pulido Valente, de quem discordo a maioria das vezes, retratou o actual PS, na sua análise eleitoral de O Público de 5 de Outubro, ainda que com acinte, duma forma compreensível: «A derrota de António Costa foi a derrota de uma época. Corrupto, irresponsável, envelhecido e caótico, O PS teve o fim que merecia». Contraditoriamente, se os ouvirmos no dia a dia, os militantes, simpatizantes e mesmo os indecisos que votam PS, estão mais à esquerda que os seus dirigentes.

Quanto à esquerda, surpreendeu-me a vitória do Bloco, embora se sentisse ao longo da campanha a emotividade dos médias criada pelas intervenções de Catarina Martins. Linguagem simples, posições claras, projecto definido. Gente nova, linguagem nova, com uma intervenção notável - estamos aqui para governar. E o repto ao PS sobre a governação, se foi o empurrão que levou a juventude a uma opção indiscutível, foi acompanhada por grande parte dos que, querendo votar útil, esperaram até ao último dia. 
Foi nesse silêncio do PS ante o repto da esquerda que mudou o voto útil e os dirigentes socialistas, habituados às poltronas, restaurantes da gama média da capital e reuniões da sua loja maçónica, ignoraram que o país, mesmo domesticado e medroso, se encontrava magoado, explorado, humilhado e exigia mudança.

O PS não percebeu nada disso e perdeu. Como perderá muito mais se optar por uma política do sempre em pé, abana para a direita e para a esquerda e nunca cai, porque o ciclo histórico da partidarite iniciada em 1974,e grandemente por sua culpa, acabou.
 
PCP é, também, disso um exemplo. Ao manter, ao longo de décadas, o mesmo discurso, as mesmas elites nos órgãos que realmente mandam, ainda que exteriormente pareça ter aberto à juventude, ignora que o comunismo soviético, albanês, chinês ou cubano, deram provas de impossibilidade real de se manterem num mundo democrático. A Coreia do Norte não é um exemplo a seguir, e o capitalismo de estado chinês coloniza-nos pouco a pouco, como ponte de entrada para a concorrência capitalista na Europa. Sair ou não sair do mundo europeu e do euro são batalhas dos países na estratégia política europeia, sem nenhum efeito e contraproducente num partido da classe operária que indiscutivelmente já não tem as mesmas raízes , nem as mesmas bandeiras , nem os mesmos símbolos internacionalistas. Mas, ao reconhecer a sua estabilidade, também se encostou uma vez mais à mitologia da vitória. Reconheça-se que é com ele que a esquerda nacional, onde incluo o PS, ou pode vir a governar, ou pode ficar a chuchar no dedo e a ver que o protesto é muito bonito, mas não resolve pão na mesa, a educação na escola, a saúde no centro de saúde e no hospital, a reforma como um direito. 
 
Chegámos em Portugal a uma encruzilhada. Ou se consegue, com compromissos sérios e responsáveis, um governo de centro-esquerda, que se estruture em pouco mais de meia dúzias de pontos essenciais, que passam pela segurança social, educação, reformas, cultura, saúde pública, criação de emprego, desenvolvimento do interior, ultrapassando fantasmas boloridos de séculos, que apenas entregaram o poder mundial à direita conservadora, ou se vai entrar num pesadelo, com o saco de gatos assanhados dos socialistas a distribuir os rebuçados do poder com os Passos e os Portas da nossa triste sina, sob o controlo mefistofélico do pior presidente que Portugal, desde o almirante Américo Tomás, conheceu.
 
Os tempos conturbados que se adivinham para a Europa irão fazer surgir novas formas de intervenção social e política, que ultrapassarão em definitivo a herança do mundo bipolar e da guerra fria, para um mundo em que se não se contiver a ambição desenfreada do lucro e do economicismo empreendorista, em breve o planeta se cansará desta espécie humana, que em vez de o amar, só o devastou.
 
Daí que o meu voto tenha caído no partido em que disse publicamente defender para a junta de freguesia de Riachos: o do João Luz, onde ganhou uma vez mais um socialista. E aqui, comento: é mais um que vai alinhar com a política centrista e elitista do PS camarário, votando a favor do partido contra os interesses da freguesia. Se o não fizer, só tem uma solução digna: demitir-se, como fez o seu antecessor.
 
As próximas semanas serão nacionalmente decisivas. De contrário, daqui a uns meses, volta tudo a novas eleições legislativas, sem contar com o vira que, à esquerda, se está a preparar para as presidenciais. A direita, como o fez agora, nem precisa de programa É só esperar uma vez mais pela esquizofrenia patológica da esquerda.

9 de Outubro de 2015
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Domingo, 11 Outubro 2015 18:19 )  
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