o riachense

Quarta,
24 de Julho de 2019
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João Luz

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O resgate da esquerda

Li recentemente a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, publicada em 1776. Os seus subscritores expressaram que as pessoas nascem sendo iguais e que possuem direitos inalienáveis, como a Vida, a Liberdade e a Felicidade. Pouco depois surge a lei fundamental, a Constituição, que começa com a expressão “Nós, o Povo”. O mundo foi invadido por esta ideia nova e absolutamente revolucionária: sendo iguais seremos governados por aqueles que nos representam. Estes princípios democráticos provocaram alterações sociais profundas nas décadas seguintes: os ideais republicanos, os direitos das mulheres, o voto universal, os manifestos políticos, a disseminação ideológica, enfim, as diferenças entre quem está à esquerda e quem está à direita.
Amedrontada pelas guilhotinas francesas, a velha Europa aristocrática e conservadora resistiu como pôde, cedendo o mínimo que pôde. Mesmo quando se deu uma segunda vaga revolucionária, em 1848, designada por “Primavera das Nações”, o panorama político manteve-se inalterado, tendo, no entanto, permanecido uma oposição latente entre forças democráticas, ou populares, e aristocráticas, ou reaccionárias. Uma terceira vaga revolucionária que percorreu a Europa, instaurou um regime republicano em Portugal, provocou uma primeira guerra mundial e deu a conhecer ao mundo a eclosão de um estado socialista, na URSS. Em muito pouco tempo, a geopolítica global altera-se drasticamente, deixando o eixo central da velha Europa entre dois blocos emergentes, opostos e beligerantes.
A aristocracia europeia nunca perdeu influência e poder, mesmo num continente devastado por uma segunda guerra mundial. Manteve-se nas posições-chave da esfera política, forjou alianças com o poder económico, criou grupos privilegiados e manteve-se discretamente sossegada. Continuou a resistir a uma quarta vaga revolucionária que iniciou os processos de descolonização de vários países europeus, culminando, em Portugal, com a revolução de 25 de Abril de 1974, cujo maior contributo foi a actual Constituição por que nos regemos. Num mundo em tensão bipolar, marcada pela escalada no armamento nuclear, as dinastias europeias restabeleceram-se ao mesmo tempo que os E.U.A. financiavam a reconstrução dos países destruídos pela guerra. Esta aliança, aliás, manteve-se até hoje e foi recentemente reforçada pelo (muito) dúbio Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento.
Resumir os últimos dois séculos e meio como fiz acima é um exercício arriscado, mas o objectivo é perceber o que é defendido por quem se situa à direita do prumo político, ou seja, por quem assume uma posição reaccionária. Seguindo a estratégia das dinastias da Europa central, os partidos da direita portuguesa serviram para albergar e dar expressão à linhagem nobiliárquica. O exemplo mais evidente é Pinto Balsemão, membro do Grupo Bilderberg e actual presidente do grupo Impresa, detentor da SIC, que assumiu o cargo de primeiro-ministro entre 1981 e 1983. Em seu torno gravitam várias famílias de ascendência aristocrática com ligações directas a altos cargos políticos e económicos. Outro exemplo é Pais do Amaral, Conde de Alferrarede, sócio maioritário do grupo Media Capital, detentor da TVI, e accionista de diversos grupos económicos com ligações à esfera política. Não podia deixar de mencionar António Borges, nomeado por Passos Coelho em 2012 para liderar uma equipa governamental que funcionou no âmbito da Parpública para acompanhar as privatizações. Tendo falecido em 2013, Borges foi director do Fundo Monetário Internacional para a Europa e colaborador da Goldman Sachs.
Quando hoje alguém defende “a direita” em geral, deverá compreender a totalidade da sua posição. Assumir uma posição reaccionária é continuar a alimentar uma ordem conservadora, elitista e falsamente democrática. Não interessa à direita que a saúde, a educação e a cultura sejam universais. Pelo contrário, interessa somente que seja favorecida uma cultura tradicionalista, que o ensino privado sirva as castas sociais e que a saúde leve os mais pobres para uma morte lenta. Quando hoje alguém defende “a direita”, deverá compreender que está, em última análise, a defender aqueles que só querem proteger a sua própria linhagem, manter a sua cadeira de poder e passar esse legado para os seus descendentes, perpetuando um círculo fechado, que é aquele em que temos vivido nos últimos cem anos, desde a implantação da República. Na direita reacionária, não existe qualquer ponta de ética que promova igualdade social, porque é desde o berço que se adquire a noção de que uns nascem para exercer o poder, outros nascem para o sustentar.
Em Portugal, e na Europa, apesar de todas as “bastilhas”, a direita tem conseguido manter o seu status quo, adoptando um discurso em que a palavra “democracia” serve sobretudo como máscara. Veja-se, como exemplo, a coligação pela qual Pinto Balsemão exerceu o cargo de primeiro-ministro, entre 1981 e 1983: Aliança Democrática, constituída pelo Partido Popular Democrático, o Centro Democrático Social e o Partido Popular Monárquico. Há aqui um jogo de palavras que subverte qualquer tentativa de definição ideológica. Continua, hoje, assim. As instituições políticas europeias estão nas mãos de uma elite reaccionária apoiada por grupos económicos cujo poder é suficientemente forte para se sobrepor ao dos governos eleitos democraticamente. O caso mais evidente e recente foram as negociações com o governo grego, esmagado por um “eurogrupo” que na sua génese é inconstitucional, mas que impõe decisões soberanas.
Precisamos, de facto, de um novo socialismo. Pelas contas que fiz, será a quinta vaga revolucionária, após o texto que deu origem ao Novo Mundo. A História, porém, tendo aparência de se repetir, mostra-nos que os factos são irrepetíveis. Hoje, uma revolução pode ser feita dentro de um gabinete. A esquerda tem falhado sucessivamente os seu propósitos, devido sobretudo à própria falibilidade do ser humano, à sua fragilidade enquanto promotor de convicções. Há, no entanto, uma diferença ética abissal que deve ser considerada entre a esquerda e a direita. Os fins são opostos. Para a direita, os meios são sempre justificação; para a esquerda, os meios são sempre uma teorização. Talvez por isso, muita gente se refugie num centro que significa rigorosamente nada, é vazio, carece de implicação, não inscreve, nem sequer chega a ser neutro. Diz-se que “esquerda e direita é tudo a mesma coisa”. Nada mais errado. Diz-se que “o que interessa são as pessoas”. As pessoas são falíveis.
As esquerdas portuguesa e europeia estão prestes a ter uma oportunidade de resgate. Tem tudo contra, porque não existe um discurso único, como na direita, mas sim uma multiplicidade de sub-discursos que por vezes se contrapõem ou anulam. Por outro lado, nunca o poder económico foi tão avalassador, tão predador e tão reaccionário. Em Portugal, a força política que pode desencadear esse processo, o Partido Socialista, está, ele próprio, dilacerado no seu interior por facções conservadoras – para não dizer anti-socialistas –, como se pode depreender pelas palavras de um ex-primeiro ministro e presidiário ao ter afirmado que era “o líder que a direita gostaria de ter”. A isto acrescem as várias tomadas de posição no interior do partido que procuram afastar o actual líder, num autêntico fratricídio político protagonizado por posições aberrantes como a de Francisco Assis, uma pessoa que claramente é uma nulidade na política portuguesa.
Há bastante tempo que não se trazia ao espaço público uma clivagem tão marcada entre convicções de esquerda e de direita. O que mais sobressai é a incapacidade da direita em perceber o alcance daquilo que está a defender, ficando sempre por um inconsequente anti-esquerdismo que remonta, claro, às repetidas ameaças de perda de poder e influência ao longo do tempo. Temos, portanto, uma direita desesperada por deitar a perder, mais uma vez, aquilo que tem meticulosamente conseguido, em oposição a uma esquerda receosa por eventualmente não conseguir afirmar, mais uma vez, os princípios éticos que a sustentam. Ainda assim, é preferível haver uma esquerda em contínua tentativa e erro do que uma direita em contínua destruição de uma sociedade mais igualitária, mais justa, mais solidária.

Actualizado em ( Segunda, 19 Outubro 2015 23:34 )  
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