o riachense

TerÁa,
25 de Abril de 2017
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Jo√£o Moreira

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Quem aprende com a história...

De médico e de louco

H√° coisas na vida inevit√°veis. Podemos fugir-lhes mas nunca escondermo-nos. Desde que comecei a colaborar com ‚ÄúO Riachense‚ÄĚ, escrever a cr√≥nica que se segue tornou-se uma delas.

Todos os que t√™m uma liga√ß√£o √† Medicina est√£o acostumados a responder repetidamente √† pergunta ‚Äúporque escolheste essa √°rea?‚ÄĚ. Eu n√£o sou certamente uma excep√ß√£o. Vamos a isso‚Ķ

A minha fonte de inspira√ß√£o nasceu na Beira Baixa em 1911. O Dr. Moreira chegou a Riachos em 1941, acompanhado pela D. Berta, sua esposa de sempre, membro valioso da equipa, o Robin deste Batman. Durante a primeira semana em Riachos receberam duas visitas institucionais: o farmac√™utico que veio dar as boas vindas e o coveiro que veio avisar ‚Äúque precisava de dois por semana para se governar‚ÄĚ.

Os tempos que se seguiram foram dif√≠ceis, sem f√©rias nem folgas, com batidas √† porta √†s 4 da manh√£, porque o Servi√ßo de Urg√™ncia era a sala de visitas. Apesar de tudo a fam√≠lia florescia e a d√©cada de 40 trouxe dois filhos: ela - elegant√≠ssima - foi estudar para um col√©gio de freiras, n√£o fosse o diabo tec√™-las; ele, n√£o fosse o diabo tec√™-las, nunca aceitou p√īr um p√© num col√©gio de padres do qual n√£o conseguisse fugir.

Durante os 40 e picos anos seguintes, o Dr. Moreira foi M√©dico de Fam√≠lia, director de Centros de Sa√ļde, m√©dico do trabalho, presidente de Junta de Freguesia, dirigente desportivo, avicultor, ca√ßador √°vido. Foi tamb√©m meu av√ī, mas sobre isso falaremos noutra altura. Foi um ex√©rcito de um homem s√≥ na luta contra epidemias de febre tif√≥ide e mais tarde de gripe asi√°tica.

Era homem rijo mas leal, amigo do seu amigo, t√£o capaz de prometer uns safan√Ķes a quem fizesse por os merecer quanto de ‚Äúdespir a camisa‚ÄĚ para a oferecer a quem dela precisasse. N√£o o quereria diferente. O ‚Äúpoliticamente correcto‚ÄĚ nunca foi coisa grandemente valorizada l√° por casa.

Quatro d√©cadas permitiram muitas hist√≥rias que me foram chegando pela fam√≠lia, por conterr√Ęneos, por colegas. Algumas talvez exageradas pelo tempo, mas n√£o falta quem jure serem verdade. H√° muito quem jure que quando assistiu um determinado doente antes seguido pelo Dr. Moreira, ainda todos os processos cl√≠nicos eram em papel, podia ler-se uma entrada escrita pelo punho do bom doutor: ‚Äúo doente refere sentir-se muito em baixo desde h√° v√°rios meses‚ÄĚ, para logo acrescentar uma segunda nota com a explica√ß√£o da situa√ß√£o ‚Äúpudera, √© an√£o‚ÄĚ. Os processos cl√≠nicos eram e s√£o confidenciais pelo que n√£o existe qualquer tentativa de tro√ßa, apenas um (suponho) merecido momento de descompress√£o. Houve ainda quem garantisse que noutros tempos, num dia em que um indiv√≠duo ter√° tido a imprud√™ncia de se dirigir √† minha av√≥ em termos impr√≥prios (desconhe√ßo o contexto), o meu av√ī ter√° manifestado a sua indigna√ß√£o sob a forma cinco dedos na cara do senhor. O problema foi que este ficou aparentemente mais maltratado do que o esperado, tendo os primeiros socorros sido prestados imediatamente e pelo √ļnico m√©dico presente, ou seja, o meu av√ī.

Em 1983, j√° para l√° dos 70 anos, um AVC roubou-lhe a ligeireza na fala mas n√£o no pensamento. Obrigou-o a abrandar e mais tarde a pendurar as chuteiras em definitivo. Foi algo que nunca conseguiu ultrapassar completamente. A Medicina n√£o era uma profiss√£o, era uma forma de estar na vida.

A 25 de Maio de 1986 o Casal das Flores foi pequeno para receber uma vila que saiu em peso à rua acompanhada pela Sociedade Filarmónica, pelo Rancho Folclórico e por bandas locais, para festejar com o seu médico o final de um ciclo. Algures por entre as mesas, com menos de ano e meio de vida, já por ali andava o mais recente herdeiro do Dr.

A 14 de Junho de 2001, pouco depois no seu 90¬ļ anivers√°rio, o meu av√ī morreu. O corpo cedeu, algo que a mente nunca fez.

Algumas pessoas s√£o maiores que a vida, imortalizam-se pelas suas ac√ß√Ķes e vivem para sempre connosco. O av√ī Moreira foi uma delas. Haveria tanto mais a dizer mas por hoje falta-me o papel. Falamos dentro de 15 dias?¬†

Actualizado em ( Quinta, 22 Outubro 2015 11:13 )  

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