o riachense

Sexta,
21 de Julho de 2017
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João Moreira

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Quem aprende com a história...

De médico e de louco

Há coisas na vida inevitáveis. Podemos fugir-lhes mas nunca escondermo-nos. Desde que comecei a colaborar com “O Riachense”, escrever a crónica que se segue tornou-se uma delas.

Todos os que têm uma ligação à Medicina estão acostumados a responder repetidamente à pergunta “porque escolheste essa área?”. Eu não sou certamente uma excepção. Vamos a isso…

A minha fonte de inspiração nasceu na Beira Baixa em 1911. O Dr. Moreira chegou a Riachos em 1941, acompanhado pela D. Berta, sua esposa de sempre, membro valioso da equipa, o Robin deste Batman. Durante a primeira semana em Riachos receberam duas visitas institucionais: o farmacêutico que veio dar as boas vindas e o coveiro que veio avisar “que precisava de dois por semana para se governar”.

Os tempos que se seguiram foram difíceis, sem férias nem folgas, com batidas à porta às 4 da manhã, porque o Serviço de Urgência era a sala de visitas. Apesar de tudo a família florescia e a década de 40 trouxe dois filhos: ela - elegantíssima - foi estudar para um colégio de freiras, não fosse o diabo tecê-las; ele, não fosse o diabo tecê-las, nunca aceitou pôr um pé num colégio de padres do qual não conseguisse fugir.

Durante os 40 e picos anos seguintes, o Dr. Moreira foi Médico de Família, director de Centros de Saúde, médico do trabalho, presidente de Junta de Freguesia, dirigente desportivo, avicultor, caçador ávido. Foi também meu avô, mas sobre isso falaremos noutra altura. Foi um exército de um homem só na luta contra epidemias de febre tifóide e mais tarde de gripe asiática.

Era homem rijo mas leal, amigo do seu amigo, tão capaz de prometer uns safanões a quem fizesse por os merecer quanto de “despir a camisa” para a oferecer a quem dela precisasse. Não o quereria diferente. O “politicamente correcto” nunca foi coisa grandemente valorizada lá por casa.

Quatro décadas permitiram muitas histórias que me foram chegando pela família, por conterrâneos, por colegas. Algumas talvez exageradas pelo tempo, mas não falta quem jure serem verdade. Há muito quem jure que quando assistiu um determinado doente antes seguido pelo Dr. Moreira, ainda todos os processos clínicos eram em papel, podia ler-se uma entrada escrita pelo punho do bom doutor: “o doente refere sentir-se muito em baixo desde há vários meses”, para logo acrescentar uma segunda nota com a explicação da situação “pudera, é anão”. Os processos clínicos eram e são confidenciais pelo que não existe qualquer tentativa de troça, apenas um (suponho) merecido momento de descompressão. Houve ainda quem garantisse que noutros tempos, num dia em que um indivíduo terá tido a imprudência de se dirigir à minha avó em termos impróprios (desconheço o contexto), o meu avô terá manifestado a sua indignação sob a forma cinco dedos na cara do senhor. O problema foi que este ficou aparentemente mais maltratado do que o esperado, tendo os primeiros socorros sido prestados imediatamente e pelo único médico presente, ou seja, o meu avô.

Em 1983, já para lá dos 70 anos, um AVC roubou-lhe a ligeireza na fala mas não no pensamento. Obrigou-o a abrandar e mais tarde a pendurar as chuteiras em definitivo. Foi algo que nunca conseguiu ultrapassar completamente. A Medicina não era uma profissão, era uma forma de estar na vida.

A 25 de Maio de 1986 o Casal das Flores foi pequeno para receber uma vila que saiu em peso à rua acompanhada pela Sociedade Filarmónica, pelo Rancho Folclórico e por bandas locais, para festejar com o seu médico o final de um ciclo. Algures por entre as mesas, com menos de ano e meio de vida, já por ali andava o mais recente herdeiro do Dr.

A 14 de Junho de 2001, pouco depois no seu 90º aniversário, o meu avô morreu. O corpo cedeu, algo que a mente nunca fez.

Algumas pessoas são maiores que a vida, imortalizam-se pelas suas acções e vivem para sempre connosco. O avô Moreira foi uma delas. Haveria tanto mais a dizer mas por hoje falta-me o papel. Falamos dentro de 15 dias? 

Actualizado em ( Quinta, 22 Outubro 2015 11:13 )  

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