o riachense

Quinta,
22 de Junho de 2017
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João Moreira

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... pode ser tentado a repeti-la.

De médico e de louco

No último número do jornal partilhei aqui algumas histórias do Dr. José Moreira. Hoje gostava de partilhar algumas do avô Moreira.

Enquanto “herdeiro” mais novo da família já não acompanhei directamente a actividade clínica do meu avô. O AVC que o afectou aconteceu ainda antes do meu nascimento, pelo que as histórias que aqui partilhei me foram chegando por terceiros.

O avô Moreira que conheci era diferente da figura que Riachos conheceu. Já com os seus estetoscópios e as suas espingardas bem arrumados no armário, dedicava os dias às suas plantas e em especial às suas flores, uma paixão que nem todos lhe conheciam. Orgulhava-se do carinho que as pessoas lhe tinham e que tentava retribuir na mesma medida. Dependendo da época do ano mas muito especialmente por altura do Natal, lembro-me de se acumularem lá em casa ofertas de todo o tipo - azeite, vinho, legumes, perus, bolos-rei - na sua maioria oferecidos por quem os produziu e que não quis deixar de levar um mimo ao senhor doutor.

Naqueles tempos, quando passeávamos pela nossa vila ou simplesmente numa ida à escola, não havia o João, o Zé, a Fernanda ou a Berta. Éramos os netos, os filhos ou a esposa do Dr. Moreira. Não havia homem ou mulher acima dos 40 anos que não aproveitasse a primeira oportunidade para contar a história de como um dia o doutor teve de dar uma ajuda num momento de maior aflição. Mais raro era ouvir os casos que não correram bem, mas mesmo isso acontecia ocasionalmente, já que muitas pessoas compreendiam as limitações e a falta de recursos que marcaram os tempos em que o meu avô exerceu a profissão e não culpavam o homem pelos problemas do sistema.

Crescer com esta herança deixa uma marca. Pode até ser discutido se é boa ou má, mas deixa um grande espaço por preencher. Dizer que a minha opção profissional foi influenciada por tudo isto parece-me fútil.

Hoje posso dizer que já tive o privilégio de partilhar vários locais de trabalho com o meu avô, trabalhei com quem ainda trabalhou com ele. Mais interessante ainda, observei doentes que ele acompanhou, alguns durante décadas. 

Os doentes que me dizem numa conversa casual e sem saberem quem sou “eu já cá vinha no tempo do Dr. Moreira” deixam-me sempre com um sorriso na cara. Nunca resisto: “Então e dava-se bem com ele?”. Normalmente recebo um “sim” como resposta, às vezes um “sim, mas…”. A bem da transparência lá me apresento e inevitavelmente sou brindado como uma história “à Moreira”.

Há algumas semanas consultei uma mulher rija dos seus 80 anos, daquelas que só vão ao médico quando já não dá para fugir. Tinha sido trabalhadora do campo, era analfabeta e morava numa aldeia pequenina que nem eu sabia onde ficava. Pouco depois de entrar disse-me que ainda era do tempo do “velhote Moreira”. Lá fiz o meu jogo… Quando lhe disse quem era quase chorou enquanto descrevia o bolo que fazia para o Dr. Moreira quando ele lá ia ver o marido, que era um homem “muito doente”. E o Dr. Moreira gostava muito, era um bocadinho guloso! Pois, minha senhora, bem sei…

Estas histórias fazem-me sentir bem, nem sei porquê. Será simplesmente por me lembrar o meu avô? Ou talvez por significar que a marca que deixamos não é esquecida à primeira oportunidade? Não interessa, não é importante. Certo é que quem aprende a sua história, pode bem sentir-se tentado a repeti-la.

Actualizado em ( Quinta, 22 Outubro 2015 11:15 )  

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