o riachense

TerÁa,
23 de Maio de 2017
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Jo√£o Moreira

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... pode ser tentado a repeti-la.

De médico e de louco

No √ļltimo n√ļmero do jornal partilhei aqui algumas hist√≥rias do Dr. Jos√© Moreira. Hoje gostava de partilhar algumas do av√ī Moreira.

Enquanto ‚Äúherdeiro‚ÄĚ mais novo da fam√≠lia j√° n√£o acompanhei directamente a actividade cl√≠nica do meu av√ī. O AVC que o afectou aconteceu ainda antes do meu nascimento, pelo que as hist√≥rias que aqui partilhei me foram chegando por terceiros.

O av√ī Moreira que conheci era diferente da figura que Riachos conheceu. J√° com os seus estetosc√≥pios e as suas espingardas bem arrumados no arm√°rio, dedicava os dias √†s suas plantas e em especial √†s suas flores, uma paix√£o que nem todos lhe conheciam. Orgulhava-se do carinho que as pessoas lhe tinham e que tentava retribuir na mesma medida. Dependendo da √©poca do ano mas muito especialmente por altura do Natal, lembro-me de se acumularem l√° em casa ofertas de todo o tipo - azeite, vinho, legumes, perus, bolos-rei - na sua maioria oferecidos por quem os produziu e que n√£o quis deixar de levar um mimo ao senhor doutor.

Naqueles tempos, quando passe√°vamos pela nossa vila ou simplesmente numa ida √† escola, n√£o havia o Jo√£o, o Z√©, a Fernanda ou a Berta. √Čramos os netos, os filhos ou a esposa do Dr. Moreira. N√£o havia homem ou mulher acima dos 40 anos que n√£o aproveitasse a primeira oportunidade para contar a hist√≥ria de como um dia o doutor teve de dar uma ajuda num momento de maior afli√ß√£o. Mais raro era ouvir os casos que n√£o correram bem, mas mesmo isso acontecia ocasionalmente, j√° que muitas pessoas compreendiam as limita√ß√Ķes e a falta de recursos que marcaram os tempos em que o meu av√ī exerceu a profiss√£o e n√£o culpavam o homem pelos problemas do sistema.

Crescer com esta heran√ßa deixa uma marca. Pode at√© ser discutido se √© boa ou m√°, mas deixa um grande espa√ßo por preencher. Dizer que a minha op√ß√£o profissional foi influenciada por tudo isto parece-me f√ļtil.

Hoje posso dizer que j√° tive o privil√©gio de partilhar v√°rios locais de trabalho com o meu av√ī, trabalhei com quem ainda trabalhou com ele. Mais interessante ainda, observei doentes que ele acompanhou, alguns durante d√©cadas.¬†

Os doentes que me dizem numa conversa casual e sem saberem quem sou ‚Äúeu j√° c√° vinha no tempo do Dr. Moreira‚ÄĚ deixam-me sempre com um sorriso na cara. Nunca resisto: ‚ÄúEnt√£o e dava-se bem com ele?‚ÄĚ. Normalmente recebo um ‚Äúsim‚ÄĚ como resposta, √†s vezes um ‚Äúsim, mas‚Ķ‚ÄĚ. A bem da transpar√™ncia l√° me apresento e inevitavelmente sou brindado como uma hist√≥ria ‚Äú√† Moreira‚ÄĚ.

H√° algumas semanas consultei uma mulher rija dos seus 80 anos, daquelas que s√≥ v√£o ao m√©dico quando j√° n√£o d√° para fugir. Tinha sido trabalhadora do campo, era analfabeta e morava numa aldeia pequenina que nem eu sabia onde ficava. Pouco depois de entrar disse-me que ainda era do tempo do ‚Äúvelhote Moreira‚ÄĚ. L√° fiz o meu jogo‚Ķ Quando lhe disse quem era quase chorou enquanto descrevia o bolo que fazia para o Dr. Moreira quando ele l√° ia ver o marido, que era um homem ‚Äúmuito doente‚ÄĚ. E o Dr. Moreira gostava muito, era um bocadinho guloso! Pois, minha senhora, bem sei‚Ķ

Estas hist√≥rias fazem-me sentir bem, nem sei porqu√™. Ser√° simplesmente por me lembrar o meu av√ī? Ou talvez por significar que a marca que deixamos n√£o √© esquecida √† primeira oportunidade? N√£o interessa, n√£o √© importante. Certo √© que quem aprende a sua hist√≥ria, pode bem sentir-se tentado a repeti-la.

Actualizado em ( Quinta, 22 Outubro 2015 11:15 )  

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