o riachense

Segunda,
22 de Julho de 2019
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António Mário Lopes dos Santos

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Uma derrota evidente de toda a esquerda, uma vitória da abstenção

Começo pelo fim, com um preâmbulo. 

Respeito bastante o Partido Comunista Português, para não sentir e me preocupar com o baixo resultado eleitoral do seu candidato nas presidenciais. O texto que se segue não deve ser entendido como uma crítica, mas como uma reflexão pessoal sobre os seus resultados práticos.

Primeiro, não me espantou a sua descida eleitoral, só nunca pensei que fosse tamanha.

A explicação do Comité Central lembra-me um velho ditado popular - é pior a emenda que o soneto. A conclusão de que foi um combate desigual e Marcelo Rebelo de Sousa partiu dum local privilegiado - numa crónica antes das eleições neste periódico referi 80%, o que significa que nos 100 metros de corrida, a vencedor só correu vinte - já se previa. Como já se sabia que o candidato do centro - esquerda era Sampaio da Nóvoa, e nele iriam votar muitos democratas e independentes de esquerda, mesmo quem optara, em determinadas alturas, pelo PCP/CDU. Só que a descida nas legislativas, seguida da nas presidenciais, revela que a explicação transmitida pelo Secretário-Geral tem apenas efeito interno. 

Os resultados são visíveis, e assentam em algo que opõe o PCP ao eleitorado de esquerda, seja de parte do seu partido, seja do BE, da Renovação Comunista, do Livre, doutras correntes com mais ou menos influência: todos defendem o apoio à esquerda ao governo socialista, com posições mais construtivas e menos críticas. Coisa que, diga o PCP o que disser, não o está a fazer , colocando-se com um pé na oposição, outra no poder. A manutenção da greve geral , pela CGTP, por causa das 35 horas, como forma de pressão, quando as outras forças sindicais optam pela discussão na mesa própria, já que a Assembleia da República já aprovou a reversão do horário de trabalho, apenas discutindo o tempo de concretização, é um exemplo de que se pretende uma mostra -na minha opinião inútil - de força pública para manter a diferença . A realidade vem demonstrando que, de greve em greve, a CGTP( cuja relação directa com o PCP é indesmentível) já não consegue manifestações significativas fora de Lisboa e os distritos vão ficando à margem, com os resultados eleitorais legislativos e presidenciais conhecidos. Porque, tendo tanta certeza na sua luta pelos interesses do povo, este, em quarenta anos de democracia, nunca lhe garantiu uma votação que o levasse ao poder. O que estará errado? O povo? Ou as orientações do partido que directamente se diz representá-lo, mas que nunca atinge a sua ambição: o seu voto? 

Fica no ar uma questão, sempre escamoteada: se havia e há a necessidade de puxar o governo para a esquerda, porque não houve, da parte dos partidos de esquerda, o compromisso dum candidato presidencial dessa mesma área?

 Pode-se-me contrapor: se tivesse razão, porque sobe o BE? Talvez por ter aprendido que o Siriza grego não era a solução, e mediaticamente, ter desafiado o PS a um contrato para as legislativas, a que o PCP aderiu, mas de forma pouco clara. 

Acrescente-se o tipo de linguagem usada pelo PCP, a nível nacional, distrital, municipal: unívoca, dogmática, sem alternativa credível. 

O que choca, primeiro, com uma realidade cheia de pluralidades e de alternativas. Segundo, com o descrédito internacional que sofreram, nas últimas décadas do século XX, os países comunistas. 

A esquerda teve de se reflectir, de reflectir a ideologia, a sua prática, os caminhos. Os partidos comunistas, na actualidade, foram obrigados a substituir as suas características revolucionárias pela alternativa democrática do jogo eleitoral. Mas as contradições são muitas, a democracia exige espírito crítico, a luta pela igualdade tem de ser conciliável com o direito à diferença. Cada ser humano é único, desigual. Só a democracia, só o reconhecimento do desigual que a igualdade contem em si, pode levar as esquerdas a uma política social futura comum. 

É esta a ambiguidade em que, a meu ver, navega o PCP. Portugal não é o mundo. A defesa do nacionalismo, como forma ideológica de continuidade da defesa dos interesses do povo português, não ganha apoiantes, porque as jovens gerações e os desempregados, obrigados à emigração, por razões de sobrevivência, contrariam essa valoração patriótica. Os nacionalismos, como fim, nunca foram senão pretexto de formas ditatoriais, quer de direita, quer de esquerda. Os exemplos são tão inúmeros neste princípio de século, como o foram no século XX, que não merecem discussão.

O PCP sabe bem as linhas com que se cose. Não pode é ter uma cara antes e outra depois dos actos eleitorais Assumir a derrota e as causas dela só pode contribuir para a sua necessária recuperação.

Toda a esquerda foi derrotada. Partidos, apoiantes, independentes. Marcelo ganhou, promovido, anos a fio, por alguma comunicação social. Como escrevi no último artigo, infelizmente ri-se. Porque quem ganhou, com perigo evidente para a democracia, foi a abstenção.

Se não se procurar mudar este estado de coisas, será que somos um país a sério?

28 de Janeiro de 2016
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

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Actualizado em ( Quinta, 28 Janeiro 2016 10:48 )  
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