o riachense

TerÁa,
25 de Abril de 2017
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Farpadas - Setembro 2009

"Algumas pessoas marcam mais a vida de uma povoação do que outras. Quando essas pessoas morrem, nota-se mais a diferença"

Uma povoação é composta por muita coisa. Ruas, edifícios, paisagens, … e pessoas.
Assim como a peça mais importante de um automóvel é o motorista, assim também, numa povoação, o mais importante são as pessoas que nela habitam.
Quando algumas morrem, nada, nem ninguém, as pode substituir. A povoação fica diferente, nunca mais é como era. Algumas pessoas marcam mais a vida de uma povoação do que outras. Quando essas pessoas morrem, nota-se mais a diferença.
Ainda não há muito tempo morreu o Veríssimo e Riachos ficou diferente. Agora morreram o Joaquim Torrado e o Joaquim Manha.
O Joaquim Manha era 15 dias mais velho do que eu. Nasceu onde acaba a minha rua. O pai dele morreu quando ele era menino. Talvez por isso ele não vinha brincar muito com as outras crianças. Poucas vezes o vi brincar, mesmo em adulto. Levava sempre tudo muito a sério, mesmo as brincadeiras. Depois do 25 de Abril de 1974, fez parte da primeira equipa que assumiu a responsabilidade da Junta de Freguesia, em conjunto com o Mário Duarte (Pilricho) e com o Senhor Francisco Plexa Marques. Aqui deixo a minha homenagem e o meu agradecimento a quem foi capaz de dar muito do seu tempo ao trabalho gratuito em favor de todos.

O Joaquim Torrado, apesar de ser mais velho do que eu, era como se fosse meu irmão. A primeira imagem que tenho dele foi no Largo de Riachos. Naquele tempo, o coreto para a banda tocar era montado em frente da loja da Thieres, ao lado da igreja velha. O Joaquim Torrado tocava na banda filarmónica e eu parece que o estou a ver em cima do coreto a refilar. Já naquele tempo assim era.
Porque n√£o era capaz de estar parado, passou toda a vida sempre a fazer alguma coisa. Homem dos sete of√≠cios, sabia fazer de tudo na agricultura, mas tamb√©m na adega, na destilaria ou no lagar de azeite. Quando o visitei na √ļltima vez que passei em Riachos e vi que j√° n√£o podia mexer-se, pensei que n√£o voltaria a v√™-lo. Porque ele n√£o era capaz de estar parado, para ele, estar parado, era como morrer.
Muito daquilo que eu sei sobre a minha terra, foi dele que o aprendi.

H√° sete anos que n√£o vinha a Mo√ßambique. Agora, h√° muito mais tr√Ęnsito, de cami√Ķes, de carros, e principalmente de motorizadas. Significa que h√° mais pessoas com algum poder de compra. Mas parece-me que as diferen√ßas s√£o maiores: os ricos s√£o mais ricos e os pobres s√£o mais pobres. Aumentaram muito os roubos feitos com viol√™ncia. A esperan√ßa numa vida melhor cada vez est√° mais longe das pessoas e assim cada vez √© mais dif√≠cil construir uma na√ß√£o. Mas talvez seja um bom sinal o n√ļmero de estudantes continuar a aumentar, bem como os edif√≠cios universit√°rios. Talvez assim, dentro de algumas gera√ß√Ķes, seja poss√≠vel o retorno da esperan√ßa e uma vida melhor venha a acontecer. O problema √© que todos gost√°vamos de ver, agora, as coisas a melhorarem. J√°.
Mas agora, o que h√° s√£o queimadas sem controlo. At√© as √°rvores como os cajueiros e as mangueiras, que agora est√£o em flor, s√£o queimadas. Claro que, assim, as produ√ß√Ķes t√™m que diminuir, tanto em quantidade como em qualidade. E isto tamb√©m torna dif√≠cil que a vida dos mais pobres seja melhor.
Quando sa√≠ h√° sete anos de Nampula, ficaram aqui dois portugueses, ainda novos, a tentar organizar uma empresa de constru√ß√£o. Com muita compet√™ncia, trabalho e dedica√ß√£o, conseguiram criar um grupo de empresas com uma vitalidade enorme. Inclusivamente, estando a triunfar onde outros, com melhores condi√ß√Ķes, tiveram que desistir. T√™m agora quase tr√™s mil trabalhadores em todas as empresas, e s√£o os que mais impostos pagam em toda a prov√≠ncia de Nampula. Porque o seu programa n√£o √© fugir aos impostos, mas sim desenvolver as suas empresas.
Neste momento só tenho uma certeza: se deixarmos de lutar para que as coisas melhorem, então tudo será muito mais difícil no futuro.

Até um dia destes. Joaquim Alberto

Actualizado em ( Quinta, 27 Janeiro 2011 15:03 )  

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