O pastor das ovelhas da Quinta de Carvalhais, como todos os outros, não tinha domingos, nem feriados, nem sesta, nem férias.
Andava à chuva, ao frio e ao vento, ao pó e ao calor. Ora andava na Quinta de Carvalhais, ora no Casal Peru, ora no Bonflorido, ou, no Bem Talhado, quando não tinha de se deslocar para o campo, quase para a Azinhaga por onde ficavam de noite na carrêta e por lá cozinhavam, vindo a casa quando era preciso para levar farnel para cozinhar. Ora vinha o pastor, ora vinha o ajudante para o rebanho não ficar só.
Andava o rebanho numa pastagem difícil, com uma seara de cada lado e o moço com os seus 11 anitos, tinha pouca habilidade e pouca resistência. A ovelha gulosa e manhosa, ia sempre para o lado do rapazito. O pastor ralhava com ele para que não deixasse as ovelhas roerem a seara do vizinho. Mas, o puto já cansado, não sabia o que fazer. Vai o pastor, para o lado do rapaz e vem o rapaz para o lado do pastor. À primeira que a ovelha gulosa escuta o pastor a ralhar daquele lado, começa a meter-se pelo meio das outras e pouco depois, estava do lado do rapaz (era pouco esperta!). O rapazito quase chorava de raiva e vai a correr para lhe dar com o pau.
O pastor, ao ver a ovelha já do outro lado, diz: "À ovelha dum cabrão..". Mas por um canto do olho vê o feitor que se aproximava e pensou: "Se calhar ainda ouviu, e acrescenta: "Que te vendeu...". O feitor chega e diz: "Olha lá Maneeeel... que o que te vendeu já chegou tarde de mais…"
Manuel Carvalho Simões






