o riachense

Quarta,
30 de Novembro de 2022
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Farinha Marques

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Prodígios do Entroncamento

 

 

Na terra onde as couves sobrepujam os telhados e as abóboras atingem proporções ciclópicas, sobrenaturais; na terra onde as rotundas medram como cogumelos no bosque - sem menoscabo para a cidade de Viseu - não poderia deixar de ocorrer outro "fenómeno", aliás, deplorável que é imperioso trazer à luz do dia: a degradação do Bairro Camões, no limiar da ruína.
O Bairro Camões, no Entroncamento, será, porventura, um dos exemplos mais marcantes da inspiração e talento de Cottinelli Telmo na execução de projectos destinados à ferrovia.
Seguindo o exemplo de companhias ferroviárias francesas que, de resto, já frutificara em outros países europeus, designadamente em Inglaterra, a CP prom

 

oveu, na década de 20, a construção de casas de habitação e de equipamentos sociais de apoio aos seus empregados e familiares.
Sobressaem, no primeiro quartel do século XX, os bairros do Boneco, destinado a ferroviários reformados, e a Vila Verde, no  alinhamento do Bairro Camões, este último edificado em 1926, sob o risco de Cottinelli Telmo e Luís da Cunha.
O bairro compunha-se de 42 habitações, compreendendo 14 vivendas geminadas e 4 edifícios isolados. Integrada no conjunto do bairro foi edificada uma escola do ensIno primário.
O modelo era o das chamadas cidades-jardim, construídas pelas companhias ferroviárias francesas e inglesas e por outras grandes empresas de ramos de actividade diversos, nomeadamente da família Krupp, da CUF, em Portugal e, mais tarde, de algumas empresas do sector hidroeléctrico.
As habitações eram providas de um pequeno jardim e de um lote de terreno apto para horticultura.
A escola primária, edifício emblemático do bairro, sobressai pela sua traça, de rara harmonia, sem desprimor para a sua funcionalidade.
A funcionalidade e a beleza casavam-se, desta sorte, à perfeição. E cumpria-se o objectivo primário que era o de garantir aos trabalhadores ferroviários, enquanto tais, habitação condigna, mediante o pagamento de uma contra partida, necessariamente módica e à proporção do salário de cada um.
O ensino primário era ministrado na escola anexa ao bairro, provida de corpo docente privativo.
Com licença do leitor, segue uma breve nota biográfica sobre Cottinelli Telmo.
Filho de um casal de músicos, Cottinelli Telmo nasceu em Lisboa, em Novembro de 1897.
Dotado de prodigiosa intuição e espírito criativo no domínio da música, do desenho, da escrita e da fotografia, deu os seus primeiros passos nestas disciplinas no Liceu de Pedro Nunes, após o que cursou Belas Artes e se fez arquitecto.
Colaborou nos bailados de Almada Negreiros e em trabalhos de cinema dirigidos por Leitão de Barros.
Foi pioneiro da banda desenhada em Portugal.
Em 1933 realizou o filme A Canção de Lisboa, a primeira longa-metragem Inteiramente realizada em Portugal, um marco do  cinema sonoro entre nós.
A Canção de Lisboa, uma comédia ligeira de costumes, tem vindo, desde há algumas décadas, e recorrentemente, a ser exibida na televisão portuguesa, perante várias gerações de espectadores que rejubilam em vista das hilariantes representações de António Silva e Vasco Santana.
Cottinelli Telmo projectou o pavilhão português da Exposição de Sevilha (1929), bem como, anteriormente, o da Exposição do Rio de Janeiro (1922).
Foi ainda do seu risco o projecto do Sanatório da Covilhã destinado a acolher os ferroviários tuberculosos.
Foi Cottinelli Telmo quem traçou o plano da Praça do Império, em Lisboa, com a Fonte Monumental e o Padrão dos Descobrimentos.
Foi designado arquitecto-chefe da Exposição do Mundo Português, em 1940, para a qual projectou o Pavilhão dos Caminhos de Ferro e Portos.
Na década de 40, e até ao seu decesso, obrou planos de grande relevo na história da arquitectura e do urbanismo em Portugal, como sejam a urbanização de Fátima, o plano da zona marginal de Belém e o da Cidade Universitária de Lisboa.
Não haverá ferroviário que não conheça, ao menos, uma das suas múltiplas realizações: O Bairro Camões, no Entroncamento, os edifícios de passageiros das estações de Tomar, Alcântara-Mar, Terreiro do Paço, Curia e Carregado, o Sanatório da Covilhã, os armazéns de víveres, as torres de sinalização de Ermezinde e de Pinhal Novo, a Colónia de Férias da Praia das Maçãs.
Versátil, irreverente, de espírito aberto a todas as manifestações de vanguarda, nas mais diversas disciplinas, v. g. na arquitectura, cinema, literatura, banda desenhada, ilustração, bailado, design (que ainda assim se não chamava).
Faleceu em 1948, precocemente, de um acidente no mar.
O vasto espólio de Cottinelli Telmo, arquitecto ao serviço dos caminhos de ferro, jaz por aí, ao abandono, sem dono conhecido ou depredado.
É o caso do Bairro Camões, no Entroncamento.
O Bairro Camões integra o património imobiliário da Refer que lhe ficou adstrito com o desmantelamento da CP, operado na década de 90.
O abandono a que foram votadas as linhas do Tâmega, do Corgo, do Tua e do Sabor, o troço final da Linha do Minho, a partir de Monção, o Ramal de Espinho, a Linha do Vale do Vouga, a Linha do Dão, as linhas da denominada Estrela de Évora dirá da indiferença com que, ao longo dos anos, tem vindo a ser encarada a exploração ferroviária e a conservação do património do Estado que lhe está adstrito.
Saberá, porventura, a Refer identificar no terreno a linha que ligava o Vale de Santarém a Rio Maior, afecta ao transporte de carvão das hulheiras desta última localidade? E a plataforma construída no seguimento da Linha da Lousã, a partir de Serpins, no sentido de Góis e Arganil?
A Refer, empresa subsidiária do Orçamento Geral do Estado, acumula um défice que o comum dos cidadãos está longe de imaginar. E não lhe sobra talento nem diligência para curar do seu património edificado da forma mais prudente e criteriosa.
A sua associada Invesfer, vocacionada, à luz dos estatutos que a regem, para a promoção e desenvolvimento daquele património, não dá sinais que apontem nesse sentido. Ademais, o último relatório conhecido, referente à sua actividade, apresenta um resultado negativo de 4.718.480,00 €. Duas empresas no fio da navalha.

Não se enxerga, por isso, outra solução que não seja o recurso à Câmara Municipal do Entroncamento que terá classificado a Escola Camões como património de interesse municipal.
Não será, pois, demais, por respeito à memória de Camões e de Cottinelli Telmo, apelar para a consabida destreza dos seus autarcas na gestão das finanças municipais. Na verdade,a edilidade do Entroncamento é o exemplo vivo da inspiração no patrocínio da construção civil: urbanizações, rotundas em profusão, jardins desfeitos e refeitos, repuxos, pistas para tudo e para nada, piscinas, adereços vários no equipamento urbano. Tudo muito pífio, mas enfim!
Seria, pois, injusto não reconhecer que, nessa matéria, a Câmara do Entroncamento é um prodígio de imaginação. A Câmara do Entroncamento é o exemplo vivo do desafogo e da suficiência financeira. Um verdadeiro "fenómeno" de prosperidade, no contexto da penúria lusitana.
Assim, porque a Refer padece de graves limitações, sendo certo que está longe de ser um modelo de eficiência e gestão, não resta outro recurso que não seja apelar à Câmara Municipal do Entroncamento para que promova, depressa e bem, a recuperação do Bairro Camões.
Com o respeito devido à memória do Sr. Eduardo O. P. Brito, grande pioneiro, este seria um "fenómeno" de que eu me atreveria a dar imediato registo público.

Actualizado em ( Quinta, 27 Janeiro 2011 15:23 )  
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