o riachense

SŠbado,
30 de Setembro de 2023
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Célia Barroca

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O casamento das cores e as cores do casamento

 


Somos seres simb√≥licos, e parece ser essa a grande diferen√ßa entre n√≥s e os outros seres vivos. Le√Ķes n√£o colocam bandeiras a marcar o seu territ√≥rio, castores n√£o oferecem flores √† sua f√™mea eleita nem esta usa alian√ßa de comprometida. Sabemos cada vez mais que a intelig√™ncia e o afecto n√£o s√£o um exclusivo da humanidade. Mas o s√≠mbolo, esse, parece ser por enquanto, s√≥ nosso. Sem s√≠mbolo n√£o h√° cultura. Por isso somos seres culturais. Quando olhamos para o passado da humanidade, percebemos que as culturas n√£o s√£o est√°ticas. Por isso as sociedades mudam. E os s√≠mbolos n√£o s√£o eternos, transformam-se ou d√£o lugar a novos s√≠mbolos.
Nos √ļltimos tempos, o casamento e a sua simbologia, t√™m levantado acesas pol√©micas gra√ßas √† proposta de lei que legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
H√° muito que o casamento deixou de ser o passaporte para a reprodu√ß√£o consentida, e quer queiramos quer n√£o, est√° como muitas outras coisas do mundo contempor√Ęneo, a viver nova mudan√ßa de paradigma (como antes, a mudan√ßa do casamento decidido pelos pais sem por vezes os noivos se conhecerem minimamente, para o casamento rom√Ęntico realizado de livre vontade e iniciativa, e por vezes contra ventos e mar√©s).
A ideia de casamento que vigorava em Portugal quando muitos de nós nascemos, era a de que se tratava da união entre um homem e uma mulher, que se enamoravam, pretendiam viver juntos, e ter ou não ter filhos consoante a natureza ou a sua vontade própria o decidisse. Quem ficava fora do casamento, não sendo sacerdote ou freira, não era bem visto, e havia sempre alguém a querer arranjar-lhe casamento. Quanto às pessoas que se sentiam atraídas por pessoas do mesmo sexo, essas eram silenciadas e ignoradas, e muitas vezes ridicularizadas e humilhadas.
Algumas teorias que n√£o cabe aqui resumir, t√™m tentado explicar as raz√Ķes que levaram, ao longo da hist√≥ria da humanidade, ao rep√ļdio da homossexualidade pelas sociedades. Uma coisa parece certa, a homossexualidade masculina tem sido mais violentamente repudiada ainda do que o lesbianismo. Talvez porque os homens t√™m uma dificuldade maior em se confrontarem com o seu lado feminino do que as mulheres com o seu lado masculino, e da√≠ o terror de alguma poss√≠vel tend√™ncia homossexual. Alguns especialistas aventam mesmo que vestindo-se de mulher no Carnaval, os homens exorcizam desse modo um medo inconsciente colectivo. E talvez seja esse grande medo inconsciente de poder ser homossexual, que leva, em especial nas sociedades muito machistas e autorit√°rias, √† viol√™ncia sobre os homossexuais.
As democracias ocidentais e as mudanças de mentalidade, criaram sociedades que têm vindo a reconhecer o direito de todas as pessoas à sua individualidade, e consequentemente à sua orientação sexual, que deixou de ser vista como uma aberração da natureza ou como uma doença, como alguns ainda pretendem que seja.
√Ä luz das novas constitui√ß√Ķes incluindo a portuguesa, que estabelecem que todos os cidad√£os s√£o iguais em direitos, n√£o faria sentido continuar a ignorar a pretens√£o dos homossexuais do direito a casar e a usufruir dos mesmos direitos dos casais heterossexuais. Da√≠ a proposta de lei que dividiu o pa√≠s entre pr√≥s e contra.
Alguma exuber√Ęncia, nas manifesta√ß√Ķes em prol desta lei, √© apontada por alguns que se mostram indignados. Mas a luta dos homossexuais pelo direito ao casamento, parece responder muito mais √† procura da legitima√ß√£o de uma vida sexual a dois, assumida, sem discrimina√ß√Ķes, persegui√ß√Ķes, assassinatos, do que a outra coisa qualquer, muito menos √† apet√™ncia por um ‚Äúfolclore‚ÄĚ provocat√≥rio como alguns querem acreditar.
A dificuldade que um casal homossexual ainda tem, em por exemplo, alugar casa para viver, prende-se com o tabu e o preconceito, dif√≠ceis de ultrapassar por muitos. Saber que dois homens ou duas mulheres t√™m uma rela√ß√£o amorosa debaixo do mesmo tecto, que ainda por cima √© seu, √© que ‚Äúassusta‚ÄĚ alguns senhorios. Como sempre, ali√°s, assustou muita gente, incluindo celebridades como Hitler e os seus sequazes, que enviavam para as c√Ęmaras de g√°s, os judeus homossexuais, com uma estrela de David cor-de-rosa pregada nas roupas que cobriam os seus corpos condenados. Por serem al√©m de judeus, homossexuais, os nazis entendiam que o ‚Äúcastigo‚ÄĚ tinha que ser ainda maior. Esses homens n√£o levaram para a morte bon√©s cor-de-rosa ou outras roupas exc√™ntricas, antes eram obrigados a levar um dos seus s√≠mbolos sagrados, mas humilhantemente pintado de cor-de-rosa, cor s√≠mbolo do ‚Äúfeminino‚ÄĚ, numa alus√£o torpe √† sua orienta√ß√£o sexual.
Para al√©m destes homens, homossexuais, do tempo do nazismo, muitos outros homens e mulheres viveram e vivem vidas de sofrimento e humilha√ß√£o, desde o assassinato, √† ‚Äúsimples‚ÄĚ condena√ß√£o de viver silenciosamente na mentira de um casamento heterossexual, para satisfa√ß√£o hip√≥crita da sociedade.
O direito à sexualidade e ao afecto, de muitas pessoas, tem afinal sido decidido, muitas vezes, por outras pessoas que não elas próprias. Tal como o destino e a sexualidade de muitas espécies animais têm estado nas mãos dos humanos.
No filme ‚ÄúO Segredo de Brokeback Mountain‚ÄĚ (um bel√≠ssimo filme que fala sobretudo de afectos), americanos de barba rija, habituados a marcar a ferro em brasa, e a capar, animais, n√£o hesitam em fazer o mesmo a um outro cowboy como eles, por ser homossexual. Trag√©dia que n√£o tem sido in√©dita em muitos outros lugares do planeta, e que no filme surge como pretexto para uma li√ß√£o dada por um pai aos seus dois filhos rapazes, ainda crian√ßas, aterrorizados, como √© bom de ver.
A revolta dos equídeos talvez tenha que esperar ainda uns largos milénios, mas o direito dos seres humanos à felicidade, é urgente, já que cada um vive apenas a sua própria vida.
Quando se v√™m filmes como ‚ÄúO Segredo de Brokeback Mountain‚ÄĚ ou ‚ÄúMilk‚ÄĚ, compreende-se melhor algum apontado ‚Äúfolclore‚ÄĚ gay e l√©sbico contempor√Ęneo. Nos tempos que correm o que n√£o √© excessivo n√£o √© vis√≠vel, os media n√£o se interessam. E o que n√£o √© vis√≠vel n√£o se resolve.
Todos se recordam que algumas feministas queimaram soutiens em pra√ßa p√ļblica. Mas j√° poucos se recordam que os homens j√° tiveram direito de morte sobre as suas mulheres se estas fossem infi√©is, enquanto eles podiam s√™-lo sem qualquer tipo de penaliza√ß√£o.
Alguém já afirmou que o século XX tinha sido o século das mulheres, e que o século XXI seria o século das minorias. A nova lei é um passo importante na luta da humanidade pelo direito à individualidade e à igualdade. Nova simbologia representa novas vivências.
Existem no país, actualmente, muitas coisas importantes para decidir, certamente. Não percamos de vista que a felicidade das pessoas está no cerne de todas elas quer sejam do foro económico, político, cultural, ou qualquer outro.
N√£o percamos de vista a liberdade, a igualdade e os afectos, envolvidos numa quest√£o que se resolve com uma lei que apenas ‚Äúmexe‚ÄĚ com preconceitos, algumas vezes disfar√ßados de convic√ß√Ķes.
Pelos mais jovens que começam a descobrir que a sua orientação sexual não corresponde ao que é esperado pela maioria, pelos mais velhos que alguma vez sentiram a humilhação e a violência, pelos amigos, pelos conhecidos, pelos desconhecidos, pelos notáveis que com riscos para a sua imagem e para a sua carreira, têm assumido a sua orientação sexual, conscientes de que isso pode auxiliar muitas outras pessoas a serem aceites como são, por todos os homofóbicos que ainda não questionaram a sua homofobia, pelo fim da indignidade, e para satisfação da minha indignação, este artigo tornou-se-me absolutamente necessário.

Actualizado em ( Quarta, 17 Mar√ßo 2010 16:06 )  
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