o riachense

Quarta,
30 de Novembro de 2022
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Célia Barroca

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O casamento das cores e as cores do casamento

 


Somos seres simbólicos, e parece ser essa a grande diferença entre nós e os outros seres vivos. Leões não colocam bandeiras a marcar o seu território, castores não oferecem flores à sua fêmea eleita nem esta usa aliança de comprometida. Sabemos cada vez mais que a inteligência e o afecto não são um exclusivo da humanidade. Mas o símbolo, esse, parece ser por enquanto, só nosso. Sem símbolo não há cultura. Por isso somos seres culturais. Quando olhamos para o passado da humanidade, percebemos que as culturas não são estáticas. Por isso as sociedades mudam. E os símbolos não são eternos, transformam-se ou dão lugar a novos símbolos.
Nos últimos tempos, o casamento e a sua simbologia, têm levantado acesas polémicas graças à proposta de lei que legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Há muito que o casamento deixou de ser o passaporte para a reprodução consentida, e quer queiramos quer não, está como muitas outras coisas do mundo contemporâneo, a viver nova mudança de paradigma (como antes, a mudança do casamento decidido pelos pais sem por vezes os noivos se conhecerem minimamente, para o casamento romântico realizado de livre vontade e iniciativa, e por vezes contra ventos e marés).
A ideia de casamento que vigorava em Portugal quando muitos de nós nascemos, era a de que se tratava da união entre um homem e uma mulher, que se enamoravam, pretendiam viver juntos, e ter ou não ter filhos consoante a natureza ou a sua vontade própria o decidisse. Quem ficava fora do casamento, não sendo sacerdote ou freira, não era bem visto, e havia sempre alguém a querer arranjar-lhe casamento. Quanto às pessoas que se sentiam atraídas por pessoas do mesmo sexo, essas eram silenciadas e ignoradas, e muitas vezes ridicularizadas e humilhadas.
Algumas teorias que não cabe aqui resumir, têm tentado explicar as razões que levaram, ao longo da história da humanidade, ao repúdio da homossexualidade pelas sociedades. Uma coisa parece certa, a homossexualidade masculina tem sido mais violentamente repudiada ainda do que o lesbianismo. Talvez porque os homens têm uma dificuldade maior em se confrontarem com o seu lado feminino do que as mulheres com o seu lado masculino, e daí o terror de alguma possível tendência homossexual. Alguns especialistas aventam mesmo que vestindo-se de mulher no Carnaval, os homens exorcizam desse modo um medo inconsciente colectivo. E talvez seja esse grande medo inconsciente de poder ser homossexual, que leva, em especial nas sociedades muito machistas e autoritárias, à violência sobre os homossexuais.
As democracias ocidentais e as mudanças de mentalidade, criaram sociedades que têm vindo a reconhecer o direito de todas as pessoas à sua individualidade, e consequentemente à sua orientação sexual, que deixou de ser vista como uma aberração da natureza ou como uma doença, como alguns ainda pretendem que seja.
À luz das novas constituições incluindo a portuguesa, que estabelecem que todos os cidadãos são iguais em direitos, não faria sentido continuar a ignorar a pretensão dos homossexuais do direito a casar e a usufruir dos mesmos direitos dos casais heterossexuais. Daí a proposta de lei que dividiu o país entre prós e contra.
Alguma exuberância, nas manifestações em prol desta lei, é apontada por alguns que se mostram indignados. Mas a luta dos homossexuais pelo direito ao casamento, parece responder muito mais à procura da legitimação de uma vida sexual a dois, assumida, sem discriminações, perseguições, assassinatos, do que a outra coisa qualquer, muito menos à apetência por um “folclore” provocatório como alguns querem acreditar.
A dificuldade que um casal homossexual ainda tem, em por exemplo, alugar casa para viver, prende-se com o tabu e o preconceito, difíceis de ultrapassar por muitos. Saber que dois homens ou duas mulheres têm uma relação amorosa debaixo do mesmo tecto, que ainda por cima é seu, é que “assusta” alguns senhorios. Como sempre, aliás, assustou muita gente, incluindo celebridades como Hitler e os seus sequazes, que enviavam para as câmaras de gás, os judeus homossexuais, com uma estrela de David cor-de-rosa pregada nas roupas que cobriam os seus corpos condenados. Por serem além de judeus, homossexuais, os nazis entendiam que o “castigo” tinha que ser ainda maior. Esses homens não levaram para a morte bonés cor-de-rosa ou outras roupas excêntricas, antes eram obrigados a levar um dos seus símbolos sagrados, mas humilhantemente pintado de cor-de-rosa, cor símbolo do “feminino”, numa alusão torpe à sua orientação sexual.
Para além destes homens, homossexuais, do tempo do nazismo, muitos outros homens e mulheres viveram e vivem vidas de sofrimento e humilhação, desde o assassinato, à “simples” condenação de viver silenciosamente na mentira de um casamento heterossexual, para satisfação hipócrita da sociedade.
O direito à sexualidade e ao afecto, de muitas pessoas, tem afinal sido decidido, muitas vezes, por outras pessoas que não elas próprias. Tal como o destino e a sexualidade de muitas espécies animais têm estado nas mãos dos humanos.
No filme “O Segredo de Brokeback Mountain” (um belíssimo filme que fala sobretudo de afectos), americanos de barba rija, habituados a marcar a ferro em brasa, e a capar, animais, não hesitam em fazer o mesmo a um outro cowboy como eles, por ser homossexual. Tragédia que não tem sido inédita em muitos outros lugares do planeta, e que no filme surge como pretexto para uma lição dada por um pai aos seus dois filhos rapazes, ainda crianças, aterrorizados, como é bom de ver.
A revolta dos equídeos talvez tenha que esperar ainda uns largos milénios, mas o direito dos seres humanos à felicidade, é urgente, já que cada um vive apenas a sua própria vida.
Quando se vêm filmes como “O Segredo de Brokeback Mountain” ou “Milk”, compreende-se melhor algum apontado “folclore” gay e lésbico contemporâneo. Nos tempos que correm o que não é excessivo não é visível, os media não se interessam. E o que não é visível não se resolve.
Todos se recordam que algumas feministas queimaram soutiens em praça pública. Mas já poucos se recordam que os homens já tiveram direito de morte sobre as suas mulheres se estas fossem infiéis, enquanto eles podiam sê-lo sem qualquer tipo de penalização.
Alguém já afirmou que o século XX tinha sido o século das mulheres, e que o século XXI seria o século das minorias. A nova lei é um passo importante na luta da humanidade pelo direito à individualidade e à igualdade. Nova simbologia representa novas vivências.
Existem no país, actualmente, muitas coisas importantes para decidir, certamente. Não percamos de vista que a felicidade das pessoas está no cerne de todas elas quer sejam do foro económico, político, cultural, ou qualquer outro.
Não percamos de vista a liberdade, a igualdade e os afectos, envolvidos numa questão que se resolve com uma lei que apenas “mexe” com preconceitos, algumas vezes disfarçados de convicções.
Pelos mais jovens que começam a descobrir que a sua orientação sexual não corresponde ao que é esperado pela maioria, pelos mais velhos que alguma vez sentiram a humilhação e a violência, pelos amigos, pelos conhecidos, pelos desconhecidos, pelos notáveis que com riscos para a sua imagem e para a sua carreira, têm assumido a sua orientação sexual, conscientes de que isso pode auxiliar muitas outras pessoas a serem aceites como são, por todos os homofóbicos que ainda não questionaram a sua homofobia, pelo fim da indignidade, e para satisfação da minha indignação, este artigo tornou-se-me absolutamente necessário.

Actualizado em ( Quarta, 17 Março 2010 16:06 )  
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