o riachense

Quarta,
30 de Novembro de 2022
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Canção Grata

"Por tudo o que me deste
Inquietação, cuidado
Um pouco de ternura
É certo mas tão pouco
(…) Obrigada, obrigada
Por aquela tão doce
E tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
(…) Que bem me faz agora
O mal que me fizeste
Mais forte, mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia (…)
Obrigada (…)"
(Carlos Queiroz.)

Os versos acima transcritos (da Canção Grata que recordo na belíssima voz de Teresa Silva Carvalho), bem poderiam ser, num contexto anedótico e anacrónico, endereçados pelas mulheres republicanas portuguesas de princípios do século XX, aos seus companheiros de muitas jornadas, os homens republicanos que tomaram o poder em 1910.
Neste ano, de 2010, em que se comemoram os 100 anos da implantação da República, e no dia 8 deste mês de Março deste mesmo ano, quando mais uma vez, por todo o mundo, mulheres e homens celebraram o Dia Internacional da Mulher, difícil seria não lembrar a histórica ingratidão masculina, que após o 5 de Outubro de 1910, recusou o direito de voto às mulheres, que ao seu lado, anos a fio, lutaram pela divulgação dos ideais republicanos, por uma sociedade mais justa, sem privilégios, com progresso e instrução para todos e todas.
Mas, como sabemos, nem sempre a gratidão acontece quando o poder acontece.
Uma vez instaurada a República, os progressistas homens republicanos que assumiram o poder, retiraram sem cerimónia o tapete às suas companheiras de muitas lutas, alegadamente, segundo alguns, por recearem a enorme influência da Igreja Católica sobre as mulheres, que não estariam preparadas para participarem na vida política da República.
O poder tem por vezes destas coisas, seduz para as suas causas quem as pode servir bem, e neutraliza quem já não serve.
Em 1911, nas primeiras eleições para a Assembleia Constituinte, depois de muito lutar, a médica e sufragista Carolina Beatriz Ângelo, com 32 anos, conseguiu ver o seu nome nas listas de voto, tendo sido a primeira mulher portuguesa a votar, e a única, até mais de 60 anos depois. O seu atrevimento foi sustentado no facto de reunir todas as condições estabelecidas na lei republicana, incluindo a de chefe de família (era viúva e mãe), e no facto de a palavra cidadão ser aplicada tanto a homens como a mulheres. O seu acto foi enaltecido por uns e criticado por outros. Mas logo a seguir, para que não servisse de exemplo, à lei foi dada nova redacção, ficando claro que apenas os cidadãos do sexo masculino podiam votar. O salazarismo alargou o voto a algumas mulheres, mas só depois do 25 de Abril de 74 o voto foi alargado a todos e todas sem discriminação de género portanto.
Mas as mulheres que lutaram pela República não desistiram dos seus ideais, mantiveram-se nas suas lutas, e foram exemplo para as gerações seguintes.
Neste ano e neste mês, apetece-me mesmo agradecer a estas mulheres e a muitas outras mais. A todas as que acreditaram ser possível um mundo melhor. A todas as que se rebelaram contra a irracionalidade dos preconceitos contra as mulheres. A todas as que directa ou indirectamente contribuíram de algum modo para a minha felicidade. Às que desbravaram caminhos para que eu pudesse ser incomparavelmente mais livre do que elas. Às que fizeram teatro e cantaram antes de mim, que dançaram num rancho folclórico, antes de mim, que andaram de bicicleta, vestiram calças compridas e calções, se maquilharam e vestiram fato de banho, cortaram o cabelo e tomaram a palavra em lugares públicos. As que escolheram os livros que leram e os filmes a que assistiram. As que lutaram contra a autoridade paternal para conseguirem estudar. A todas as que têm arregaçado as mangas e dedicado algum ou muito do seu tempo a causas sociais, políticas, culturais. Às que têm ocupado lugares de liderança que durante milénios lhes foram interditos. A todas as que têm trabalhado para bem das suas comunidades e que realizando-se ajudam outros a realizar-se. Às anónimas que fazem duas e três jornadas de trabalho por dia, e mantêm limpo e tranquilo o mundo que as suas mãos toca.
Não podendo nomeá-las a todas neste espaço de jornal, neste ano e neste mês em que a Banda Filarmónica de Riachos comemora os seus 126 anos, banda que como todas as bandas filarmónicas da sua idade deverá ter, em 1911, entusiasticamente, tocada a “Portuguesa”, neste mês e neste ano celebrando todas, evoco o nome de uma só, o da Dulce Sá, que tal como Carolina Beatriz Ângelo, também foi primeira, a primeira mulher que assumiu a direcção da banda riachense. Direcção que abandonou este ano, mas que assumiu durante quase uma década.
Certamente que os muitos e muitas jovens a quem a Dulce carinhosamente entregou velhas e novas fardas, lhe ficarão para sempre agradecidos, tal como os pais destes jovens. Certamente que a Banda Filarmónica, e a comunidade riachense, lhe prestarão a homenagem devida, não por ser mulher, mas pela dedicação (sem sequer o grato prazer directo do palco e dos aplausos) com que durante tantos anos se entregou a esta causa. Certamente que o seu retrato, o primeiro de uma mulher, figurará ao lado dos outros directores, para que a Dulce não seja mais uma das muitas mulheres esquecidas pelos homens e pela História.
Para não ser ingrata nem o meu agradecimento extemporâneo, deixo aqui à Dulce o meu agradecimento pessoal, por ter assegurado a continuidade duma banda que desde a infância me faz correr para a janela para a ver passar. Obrigada por poder tê-la como exemplo da dedicação, preocupação e carinho de uma dirigente a um tão grande número de jovens.
Quando estamos gratos há que verbalizar a nossa gratidão sem demoras, porque depois pode já não ter o mesmo sabor. Por isso, neste mês de Março, obrigada.
Antes de finalizar, quero expressar ainda a minha gratidão aos muitos outros homens que juntamente com os republicanos (atenuada a ingratidão destes pelo contexto histórico, pela falta de coragem política, ou pelo medo do poder encantatório da voz das mulheres), têm lutado por uma sociedade melhor e mais justa. Aos que ao lado das mulheres, seja na intimidade dos seus lares ou no mais alargado espaço público, têm dado passos mais largos, permitindo à humanidade caminhar mais depressa no caminho da sua humanização.
Por vezes somos ingratos. Outras vezes parecemos ingratos porque não expressamos a nossa gratidão. Outras vezes ainda, a expressão da nossa gratidão é frouxa, ou então não tem o efeito que deveria ter porque acontece já fora de tempo.
Para não ser ingrata nem a minha gratidão extemporânea, a todos e a todas OBRIGADA!
Actualizado em ( Quinta, 27 Janeiro 2011 15:29 )  
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