o riachense

Quinta,
22 de Junho de 2017
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 Setembro 2010

Desta vez escrevo porque não posso estar presente. De facto, o que eu queria era participar no jantar do dia 25 de Setembro. Por três razões: para estar em alegre convívio com os amigos do nosso jornal, para poder comer um óptimo jantar acompanhado pelo melhor vinho que eu conheço (é muito bom no paladar e, bebido com moderação, não faz mal à saúde – porque não é produzido com veneno), e porque gostaria muito de ouvir a orquestra da nossa Velha Filarmónica. Há uma quarta razão que me levaria a estar presente no jantar, mas essa vou cumpri-la mesmo sem poder estar em Riachos no dia 25. É ajudar o jornal pagando o meu jantar. Não posso comer nem beber mas, felizmente, posso pagar. Desejo a todos os presentes um óptimo “jantar – convívio” e, todos juntos, seremos capazes de salvar o nosso jornal.

Não tenho escrito nos últimos meses porque, para mim, é difícil escrever sobre uma sociedade onde a grande maioria das pessoas vive na miséria. Aqui, porque têm medo de empregar esta palavra, dizem que é “pobreza extrema”. Escrever sobre uma sociedade onde se vive na miséria e ser lido numa sociedade onde tudo está orientado para que as pessoas consumam cada vez mais, é quase impossível para mim. Uma sociedade onde as pessoas são educadas a gastar o mais possível, mesmo que as dívidas que se fazem agora tenham de ser pagas pelos nossos filhos e netos, é uma sociedade sem futuro. Viver agora muito acima daquilo que somos capazes de produzir, é obrigar os nossos filhos e netos a viver com muito menos do que aquilo que eles produzirão. E o pior é que aqueles que agora vivem acima das suas posses são aqueles que têm crédito. Os que vivem com menos do que o salário mínimo não fazem dívidas, pela simples razão de não terem quem lhes fie. Um país só é independente se não for dependente. E ninguém pode ser independente quando está crivado de dívidas. Mas o pior é que os sucessivos governos do meu país querem que sejam os pobres a pagar as dívidas que os ricos fizeram, e continuarão a fazer, se tudo continuar como até aqui.
Governar quando tudo corre sem grandes problemas, é fácil. Difícil, é governar na actual situação mundial. E não me parece que os governantes, a nível mundial, estejam interessados em mudar grande coisa. É nas alturas de crise que se dão as grandes transformações. Mas para isso é preciso dirigentes com capacidade de visão e sem medo de perderem o poder. Doutra forma, não se mobilizam as pessoas para as transformações que são necessárias. Tenho pena, mas creio que vamos perder mais esta óptima oportunidade de transformar a sociedade em que vivemos. Mais uma vez vou escrever uma coisa que parece evidente mas que não o é: - “um país só é independente quando não é dependente”. Quando somos dependentes, temos de fazer aquilo que os outros querem que façamos. Só há uma forma de sairmos disto: - é não gastarmos mais do que aquilo que produzimos. E, quando tivermos que pedir dinheiro, que seja para aumentar a nossa produção e não para aumentar o nosso consumo. Não há mais nenhuma maneira de sermos verdadeiramente independentes. Se formos melhores, talvez possamos vir a ter mais, mas se quisermos ter mais sem sermos melhores, estamos no caminho da dependência e não seremos nunca independentes.
O governo que temos não presta, mas o meu problema é a alternativa possível: é muito pior. Porque as desigualdades ainda aumentariam mais. E uma sociedade em que as desigualdades estão sempre a aumentar, é uma sociedade sem futuro, é uma sociedade do ter mais e não do ser melhor.
Moçambique começou a ter manifestações. Com mortos e feridos graves. Casa onde não há pão…Desta vez, as manifestações não saíram da zona de Maputo e duraram só dois dias e meio. Mas, se houver uma próxima vez, como será?

Não quero terminar estas notas sem dizer a pena que senti quando tomei conhecimento da morte do Pedro Cunha. Conheci-o quando ele ainda era menino, e já nessa altura se via o Homem em que ele haveria de transformar-se. Mais uma vez a nossa terra ficou mais pobre. Homens como ele fazem sempre muita falta. E quando se morre assim tão novo, a falta sente-se mais. Entre ele e eu a conversa ficou interrompida, mas espero retomá-la um dia, porque ficou muita coisa por dizer. Até um dia destes, Pedro. E obrigado pelo tempo que viveste entre nós.

Actualizado em ( Quinta, 23 Dezembro 2010 10:26 )  

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