o riachense

TerÁa,
26 de Setembro de 2017
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 Setembro 2010

Desta vez escrevo porque n√£o posso estar presente. De facto, o que eu queria era participar no jantar do dia 25 de Setembro. Por tr√™s raz√Ķes: para estar em alegre conv√≠vio com os amigos do nosso jornal, para poder comer um √≥ptimo jantar acompanhado pelo melhor vinho que eu conhe√ßo (√© muito bom no paladar e, bebido com modera√ß√£o, n√£o faz mal √† sa√ļde ‚Äď porque n√£o √© produzido com veneno), e porque gostaria muito de ouvir a orquestra da nossa Velha Filarm√≥nica. H√° uma quarta raz√£o que me levaria a estar presente no jantar, mas essa vou cumpri-la mesmo sem poder estar em Riachos no dia 25. √Č ajudar o jornal pagando o meu jantar. N√£o posso comer nem beber mas, felizmente, posso pagar. Desejo a todos os presentes um √≥ptimo ‚Äújantar ‚Äď conv√≠vio‚ÄĚ e, todos juntos, seremos capazes de salvar o nosso jornal.

N√£o tenho escrito nos √ļltimos meses porque, para mim, √© dif√≠cil escrever sobre uma sociedade onde a grande maioria das pessoas vive na mis√©ria. Aqui, porque t√™m medo de empregar esta palavra, dizem que √© ‚Äúpobreza extrema‚ÄĚ. Escrever sobre uma sociedade onde se vive na mis√©ria e ser lido numa sociedade onde tudo est√° orientado para que as pessoas consumam cada vez mais, √© quase imposs√≠vel para mim. Uma sociedade onde as pessoas s√£o educadas a gastar o mais poss√≠vel, mesmo que as d√≠vidas que se fazem agora tenham de ser pagas pelos nossos filhos e netos, √© uma sociedade sem futuro. Viver agora muito acima daquilo que somos capazes de produzir, √© obrigar os nossos filhos e netos a viver com muito menos do que aquilo que eles produzir√£o. E o pior √© que aqueles que agora vivem acima das suas posses s√£o aqueles que t√™m cr√©dito. Os que vivem com menos do que o sal√°rio m√≠nimo n√£o fazem d√≠vidas, pela simples raz√£o de n√£o terem quem lhes fie. Um pa√≠s s√≥ √© independente se n√£o for dependente. E ningu√©m pode ser independente quando est√° crivado de d√≠vidas. Mas o pior √© que os sucessivos governos do meu pa√≠s querem que sejam os pobres a pagar as d√≠vidas que os ricos fizeram, e continuar√£o a fazer, se tudo continuar como at√© aqui.
Governar quando tudo corre sem grandes problemas, √© f√°cil. Dif√≠cil, √© governar na actual situa√ß√£o mundial. E n√£o me parece que os governantes, a n√≠vel mundial, estejam interessados em mudar grande coisa. √Č nas alturas de crise que se d√£o as grandes transforma√ß√Ķes. Mas para isso √© preciso dirigentes com capacidade de vis√£o e sem medo de perderem o poder. Doutra forma, n√£o se mobilizam as pessoas para as transforma√ß√Ķes que s√£o necess√°rias. Tenho pena, mas creio que vamos perder mais esta √≥ptima oportunidade de transformar a sociedade em que vivemos. Mais uma vez vou escrever uma coisa que parece evidente mas que n√£o o √©: - ‚Äúum pa√≠s s√≥ √© independente quando n√£o √© dependente‚ÄĚ. Quando somos dependentes, temos de fazer aquilo que os outros querem que fa√ßamos. S√≥ h√° uma forma de sairmos disto: - √© n√£o gastarmos mais do que aquilo que produzimos. E, quando tivermos que pedir dinheiro, que seja para aumentar a nossa produ√ß√£o e n√£o para aumentar o nosso consumo. N√£o h√° mais nenhuma maneira de sermos verdadeiramente independentes. Se formos melhores, talvez possamos vir a ter mais, mas se quisermos ter mais sem sermos melhores, estamos no caminho da depend√™ncia e n√£o seremos nunca independentes.
O governo que temos não presta, mas o meu problema é a alternativa possível: é muito pior. Porque as desigualdades ainda aumentariam mais. E uma sociedade em que as desigualdades estão sempre a aumentar, é uma sociedade sem futuro, é uma sociedade do ter mais e não do ser melhor.
Mo√ßambique come√ßou a ter manifesta√ß√Ķes. Com mortos e feridos graves. Casa onde n√£o h√° p√£o‚ĶDesta vez, as manifesta√ß√Ķes n√£o sa√≠ram da zona de Maputo e duraram s√≥ dois dias e meio. Mas, se houver uma pr√≥xima vez, como ser√°?

Não quero terminar estas notas sem dizer a pena que senti quando tomei conhecimento da morte do Pedro Cunha. Conheci-o quando ele ainda era menino, e já nessa altura se via o Homem em que ele haveria de transformar-se. Mais uma vez a nossa terra ficou mais pobre. Homens como ele fazem sempre muita falta. E quando se morre assim tão novo, a falta sente-se mais. Entre ele e eu a conversa ficou interrompida, mas espero retomá-la um dia, porque ficou muita coisa por dizer. Até um dia destes, Pedro. E obrigado pelo tempo que viveste entre nós.

Actualizado em ( Quinta, 23 Dezembro 2010 10:26 )  

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