o riachense

Quarta,
30 de Novembro de 2022
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Gustavo Faria

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Coisas que mudam a vida das pessoas

Há certas situações, normalmente inesperadas, que abalam o modo muito pessoal que cada um foi encontrando para confortavelmente olhar para o mundo. Não tem de ser algo grave e irreversível que tenhamos que carregar até ao fim da vida, podem ser coisas simples que nos marcam para sempre. Para todos os efeitos estamos confinados ao aqui e ao agora, por isso hoje é sempre um bom dia para olhar para trás e perceber em que é que a minha vida mudou.
Por exemplo, vindo eu a chegar a Riachos, noite escura, sentado no banco de trás de um carro cheio de amigos felizes, disse que já não queria ir para a Escola Naval, mas ser professor de EMRC. Nesse momento de profunda liberdade, as palavras saíam da minha boca como se fossem portas que se abriam para um campo cheio de flores num dia cheio de sol. Um dos meus amigos ficou um bocado aparvalhado comigo e perguntou: “Isso vem a propósito de quê?”. Só vinha a propósito de toda a minha concepção da vida, daquilo que eu queria para mim e para o mundo. Tentaram demover-me mais tarde, mas o campo e as flores e o sol é que davam sentido à minha nova vida.
Outro momento que olho com especial apreço foi passado na maternidade do Hospital de Santarém. Durante todo aquele dia de Inverno fui conhecido como “o marido da D. Marta” e depois daquelas horas todas de um lado para o outro na sala de espera, oiço chamar por mim mas de um modo totalmente novo. Com voz alta, firme e antes de um sorriso, a enfermeira diz: “pai do Simão”. Dei um passo em frente e depois outro e outro até chegar ao local onde abracei o meu filho pela primeira vez. Nessa pequena caminhada a minha vida mudou; eu cresci.
O Luís Gonçalves foi o meu mestre de judo. Apesar de nunca lhe ter chamado mestre, de facto, foi isso que foi para mim. Eu devia ter uns treze anos e ele envolvia-se imenso nas nossas brincadeiras anteriores ao treino. Era um porreiro! Numa conversa de balneário, muito descontraído, eu disse aos meus amigos que tinha tido negativa num teste. A sua expressão, naquele momento, mudou e as suas palavras mudaram a minha vida: “Se não achas mal ter negativa, não te deixo fazer o treino”. Não era o facto de eu ter tido negativa, mas o não ver que isso era errado. O Luís passou a ser mais mestre naquele dia, porque eu, o seu discípulo, reconheci que as suas palavras eram sábias e meti-as na minha vida.
Na escola primária, lembro-me de ter sido privado do meu intervalo para escrever palavras que tinha errado no ditado. Eu e alguns colegas aproveitámos para esconder a famosa régua da professora para protegermos a nossa turma. Ora, uma colega encontrou na nossa atitude uma oportunidade de ficar bem na fotografia e denunciou-nos. A mesma régua que nos uniu num acto de companheirismo estudantil foi ao caminho das nossas mãos com violência. Se doeu… A colega que nos denunciou também foi chamada para a frente da turma e todos vimos a sua mão provar a amargo sabor da régua. No fim, a professora disse à minha colega: “Isto é para não seres queixinhas!”. Percebi que eu estava do lado certo, dos que lutaram pelo bem comum. A professora também percebeu isso, porque, mesmo escolhendo a pior maneira, ensinou-nos o que era o companheirismo.
Recentemente morreu um aluno de uma das escolas onde trabalho. Não era meu aluno, lembro-me vagamente dele. Em que é que eu mudei com isto? Sinto-me profundamente próximo dos meus alunos amigos do jovem que partiu e dos outros que não conheceram. O valor das suas vidas para mim aumentou exponencialmente. Não podemos controlar tudo sobre o nascimento nem contornar eternamente a morte. O jovem, mesmo com um fim para nós prematuro e totalmente imprevisível, ensinou-me que nestas coisas da vida só posso controlar o modo como me relaciono com os outros.
Podia escolher muitos outros episódios da minha vida, referir muitas pessoas que por isto ou aquilo são especiais para mim. A nossa vida está a mudar constantemente e somos responsáveis por perceber isso, pois mais ninguém vai fazê-lo por nós.
 

 
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