o riachense

SŠbado,
30 de Setembro de 2023
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Gustavo Faria

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Coisas que mudam a vida das pessoas

H√° certas situa√ß√Ķes, normalmente inesperadas, que abalam o modo muito pessoal que cada um foi encontrando para confortavelmente olhar para o mundo. N√£o tem de ser algo grave e irrevers√≠vel que tenhamos que carregar at√© ao fim da vida, podem ser coisas simples que nos marcam para sempre. Para todos os efeitos estamos confinados ao aqui e ao agora, por isso hoje √© sempre um bom dia para olhar para tr√°s e perceber em que √© que a minha vida mudou.
Por exemplo, vindo eu a chegar a Riachos, noite escura, sentado no banco de tr√°s de um carro cheio de amigos felizes, disse que j√° n√£o queria ir para a Escola Naval, mas ser professor de EMRC. Nesse momento de profunda liberdade, as palavras sa√≠am da minha boca como se fossem portas que se abriam para um campo cheio de flores num dia cheio de sol. Um dos meus amigos ficou um bocado aparvalhado comigo e perguntou: ‚ÄúIsso vem a prop√≥sito de qu√™?‚ÄĚ. S√≥ vinha a prop√≥sito de toda a minha concep√ß√£o da vida, daquilo que eu queria para mim e para o mundo. Tentaram demover-me mais tarde, mas o campo e as flores e o sol √© que davam sentido √† minha nova vida.
Outro momento que olho com especial apre√ßo foi passado na maternidade do Hospital de Santar√©m. Durante todo aquele dia de Inverno fui conhecido como ‚Äúo marido da D. Marta‚ÄĚ e depois daquelas horas todas de um lado para o outro na sala de espera, oi√ßo chamar por mim mas de um modo totalmente novo. Com voz alta, firme e antes de um sorriso, a enfermeira diz: ‚Äúpai do Sim√£o‚ÄĚ. Dei um passo em frente e depois outro e outro at√© chegar ao local onde abracei o meu filho pela primeira vez. Nessa pequena caminhada a minha vida mudou; eu cresci.
O Lu√≠s Gon√ßalves foi o meu mestre de judo. Apesar de nunca lhe ter chamado mestre, de facto, foi isso que foi para mim. Eu devia ter uns treze anos e ele envolvia-se imenso nas nossas brincadeiras anteriores ao treino. Era um porreiro! Numa conversa de balne√°rio, muito descontra√≠do, eu disse aos meus amigos que tinha tido negativa num teste. A sua express√£o, naquele momento, mudou e as suas palavras mudaram a minha vida: ‚ÄúSe n√£o achas mal ter negativa, n√£o te deixo fazer o treino‚ÄĚ. N√£o era o facto de eu ter tido negativa, mas o n√£o ver que isso era errado. O Lu√≠s passou a ser mais mestre naquele dia, porque eu, o seu disc√≠pulo, reconheci que as suas palavras eram s√°bias e meti-as na minha vida.
Na escola prim√°ria, lembro-me de ter sido privado do meu intervalo para escrever palavras que tinha errado no ditado. Eu e alguns colegas aproveit√°mos para esconder a famosa r√©gua da professora para protegermos a nossa turma. Ora, uma colega encontrou na nossa atitude uma oportunidade de ficar bem na fotografia e denunciou-nos. A mesma r√©gua que nos uniu num acto de companheirismo estudantil foi ao caminho das nossas m√£os com viol√™ncia. Se doeu‚Ķ A colega que nos denunciou tamb√©m foi chamada para a frente da turma e todos vimos a sua m√£o provar a amargo sabor da r√©gua. No fim, a professora disse √† minha colega: ‚ÄúIsto √© para n√£o seres queixinhas!‚ÄĚ. Percebi que eu estava do lado certo, dos que lutaram pelo bem comum. A professora tamb√©m percebeu isso, porque, mesmo escolhendo a pior maneira, ensinou-nos o que era o companheirismo.
Recentemente morreu um aluno de uma das escolas onde trabalho. Não era meu aluno, lembro-me vagamente dele. Em que é que eu mudei com isto? Sinto-me profundamente próximo dos meus alunos amigos do jovem que partiu e dos outros que não conheceram. O valor das suas vidas para mim aumentou exponencialmente. Não podemos controlar tudo sobre o nascimento nem contornar eternamente a morte. O jovem, mesmo com um fim para nós prematuro e totalmente imprevisível, ensinou-me que nestas coisas da vida só posso controlar o modo como me relaciono com os outros.
Podia escolher muitos outros episódios da minha vida, referir muitas pessoas que por isto ou aquilo são especiais para mim. A nossa vida está a mudar constantemente e somos responsáveis por perceber isso, pois mais ninguém vai fazê-lo por nós.
 

 
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