o riachense

Quarta,
30 de Novembro de 2022
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Carlos Tomé

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É pena que assim seja

Esta visão aceita, sem pestanejar, a construção de espaços acanhados, entalados no centro da vila, sem possibilidade de serem criados espaços exteriores que deviam ser fundamentais em qualquer casa de uma terra rural e aos quais as pessoas estão intimamente ligadas.
O projecto de crescimento do Centro Social e Paroquial de Riachos, com a edificação de casas de residência e de lar para idosos merece ser devidamente analisado, com especial destaque para algumas das suas vertentes.
Em primeiro lugar, o trabalho ao nível do apoio social, levado a cabo por esta instituição e por todos quantos com ela colaboram, prestado aos mais carenciados é indiscutivelmente meritório e deve ser salientado.
Com efeito, esta instituição, como outras de solidariedade social no nosso concelho, reflecte o empenhamento da comunidade no trabalho de diminuição dos graves e profundos problemas sociais e desempenha um papel absolutamente insubstituível neste sector.  
O problema da crescente necessidade deste tipo de instituições reside no empobrecimento acelerado de camadas cada vez maiores da nossa população, no lavar de mãos do Estado quanto a esta matéria e no modo como a nossa sociedade se quer pura e simplesmente livrar dos velhos. Aumenta assustadoramente a tendência para ver os velhos como gente inútil e imbecil, que deve ser arrumada num quarto ou plantada numa sala durante todo o dia a ver televisão à espera da morte.
Não queremos manter connosco os nossos pais ou avós, pelo trabalho que dão e porque não temos tempo nem condições para os mantermos na sua própria casa, onde sempre viveram. Por isso, os velhos são asilados num qualquer lar para irem morrendo aos poucos. Para muitos lares este é um negócio florescente com preços escandalosos e sem mais condições do que as mínimas necessárias para se manter a sua sobrevivência por mais algum tempo.
Existe agora também a tendência para estas instituições criarem casas de residência que os mais endinheirados podem alugar ou comprar, passando a viver nelas. Trata-se de uma solução de luxo a que só algumas bolsas mais recheadas poderão ter acesso.
A perspectiva de criação deste tipo de casas foi também adoptada pelo Centro Paroquial de Riachos que está a construir algumas habitações no espaço onde outrora existia o Supermercado Carlena. Duvido que esta solução se possa enquadrar no objectivo prioritário que deve nortear esta instituição e que deve ser a sua razão de ser: apoiar os mais carenciados.
Por outro lado, é perceptível a ideia de se concentrar, no espaço circundante à igreja de St. António, uma série de elementos próprios – igreja, catequese, escuteiros, lar, centro de dia - numa lógica de concentração dos espaços e de potenciação da difusão da fé católica
No entanto, essa intenção não deve ser limitadora da acção social do Centro. Com efeito, os princípios religiosos - embora não se coloque em causa  a sua legitimidade - não devem ser impeditivos da generalização do apoio social, nem devem limitar o acesso aos mesmos de todos os que deles necessitem, independentemente da sua fé ou da falta dela. A não ser assim, serão completamente desvirtuados os seus propósitos de apoio aos mais necessitados.
Acresce que a concentração dos edifícios num mesmo local - o centro da vila - não é aceitável no plano da correcta organização do território. Com efeito, aquele espaço é central na vila, onde assume papel de destaque o Parque 25 de Abril como zona pública de lazer, aberta e acessível a toda a população.
São legítimas as preocupações de quem anteveja estar daqui a algum tempo a discutir a perspectiva de aproveitamento ou reutilização daquele espaço, numa repetição indesejável do que sucedeu há cerca de 20 anos com a tentativa de destruição do ringue.
Aliás, quanto a esta matéria, a abertura de uma porta e janela para o terreno do Parque 25 de Abril, no edifício paroquial e num local onde nunca existiu qualquer abertura, legitima o pensamento de que algo não está bem e pode colocar em causa a mais-valia de todo o projecto.
No plano do correcto ordenamento do território de Riachos, era fundamental que a autarquia riachense tivesse uma palavra a dizer sobre esta matéria, o que infelizmente não acontece. Com efeito, a Junta de Freguesia devia preocupar-se com a organização do território em Riachos e definir a forma como esta terra deve crescer e em que locais devem ser implantados equipamentos desta natureza. Claro que esta tarefa devia também ser assumida pela Câmara Municipal, mas devido ao seu completo alheamento a tudo o que diga respeito a esta matéria nas freguesias, essa omissão já é de esperar.
Mas a responsabilidade primeira nesta matéria é da Junta que, infelizmente, não apresenta uma única ideia ou perspectiva sobre o caminho que esta terra deve trilhar no futuro próximo. Vai-se construindo um pouco por todo o lado, sem critérios nem perspectivas de futuro, sempre com o aplauso de quem entende que o progresso é isto: construção de coisas em qualquer sítio.
Esta visão aceita, sem pestanejar, a construção de espaços acanhados, entalados no centro da vila, sem possibilidade de serem criados espaços exteriores que deviam ser fundamentais em qualquer casa de uma terra rural e aos quais as pessoas estão intimamente ligadas.
É muito mais correcto que este tipo de equipamento seja instalado em áreas mais desafogadas, com muito mais espaço, que possibilite uma maior liberdade de acção e garanta futuras expansões, que disponha de grandes espaços exteriores onde se possa estar, passear, cultivar uma horta, tratar de um quintal, amanhar uma pequena porção de terra ou simplesmente jogar chinquilho. Numa terra rural, estes aspectos são fundamentais para a vida dos seus habitantes, em qualquer fase da sua vida.
Os futuros residentes das casas ou do lar vão sentir saudades imensas de pisar terra. E vão passar o resto dos seus dias com a inultrapassável mágoa de só verem paredes e televisão à sua frente. Vão ser desalojadas do seu meio. É pena que assim seja. Como também é pena que o trabalho altamente meritório e os valiosos propósitos que animam os voluntários que arregaçaram as mangas e lutam por este projecto não possam dar os frutos que eles merecem.

Carlos Tomé

 
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