o riachense

Quarta,
30 de Novembro de 2022
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A Vila à nossa medida

"É o costume. Oculta-se o projecto (se ele existe) não vá algum dos maldizentes dos Riachos pronunciar-se."

Costumo dizer que moro na Vila mais desprezada do Ribatejo e, por isso, já me têm perguntado por que é que continuo a morar lá. Começo, então, com aquelas justificações da treta que nasci lá, tenho lá a família, os amigos, as minhas coisas, enfim, gosto das pessoas, é a verdade. Esta ligação à terra onde nascemos é qualquer coisa de irracional mas tem os seus efeitos. Nos anos que residi fora não passava sem vir cá regularmente e assim que pude voltei, o que me obriga a correr diariamente para a Capital, coisa que não mata mas mói.
Por gostarmos da terra, tentamos envolver-nos nas coisas, contribuindo para que a mesma evolua para o bem comum. Mas esse envolvimento esmorece quando os anos vão passando e nada se vê a melhorar. Ficamos eufóricos quando o Riachense é campeão. Ficamos orgulhosos quando o rancho, a banda ou alguém individualmente aparece numa posição de destaque. Ficamos garbosos depois de trabalharmos meses a fio como escravos e chegamos ao final de mais uma Bênção do Gado e gostamos do que fizemos. Mas esta alma riachense que nos faz engrandecer e dizer que somos bairristas não tem paralelo quando se trata de pensarmos a nossa terra, de a planearmos e zelarmos por ela. Para reivindicarmos  junto do poder local melhores condições a que temos direito, somos moles, frouxos até, e continuamos a acreditar nas promessas dos políticos que já provaram em sucessivos mandatos que nos tratam como munícipes de segunda.
Na nossa terra não temos monumentos, não temos infra-estrutura que marque, que a identifique. Somos uma terra simples, de gente simples de trabalho. Temos pouco. Mas nem o pouco que temos é minimamente cuidado.
No passado dia 25 de Abril vi, com muito agrado, centenas de crianças e jovens escuteiros que, provavelmente, conheceram Riachos pela primeira vez. No entanto, incomodou-me vê-los pela hora de almoço nos nossos poucos espaços verdes, a pularem pelo meio da erva ou da espécie de relva altíssima. Era assim na 2.ª fase da cooperativa. No campo a que chamam parque das merendas ainda lá foi alguém cortar o pasto. A enfardadeira é que deve ter avariado e a erva ficou lá, mais ou menos emaranhada. Sabendo destas visitas, não houve uma alminha caridosa que desse uma aparadela naquela relva. Isto é o mesmo que convidar alguém para jantar em nossa casa e servir em pratos sujos. Podemos não ter louça de porcelana, mas lavada é o mínimo que se exige. Neste caso, a Câmara, a Junta ou lá a quem lhe compete, não teve esse zelo.
Este episódio leva-nos para questões antigas: zelo pelo que é nosso é qualquer coisa de desconhecido para quem gere os destinos da freguesia. Basta olhar à nossa volta e constatar a realidade.
O nosso centro, o largo, onde toda a história de Riachos está ligada, sofreu já dois atentados: o primeiro quando lhe demoliram a igreja velha, o segundo quando construíram o edifício onde está a caixa agrícola. Com arquitectos, engenheiros e doutores da defesa do património e constrói-se um mamarracho que não tem enquadramento possível no restante edificado. Feito esse atentado arquitectónico, não se desenha, ainda assim, qualquer requalificação para o largo que o torne mais aprazível. Continua aquele desleixo e mais que isso, o abuso como é exemplo a violação continuada do troço de rua, oficialmente fechado. É o nosso berço mas já ninguém quer saber dele.
Outro exemplo junto ao largo é o mercado. A ideia para a sua requalificação deve ser a de deixar andar até que os vendedores, pela ordem natural das coisas, vão desaparecendo. Pouco mais abaixo, a escola Adães Bermudes, um dos símbolos desta terra, que uns quantos pacóvios como eu, reclamam, daqui a pouco há gerações, para que seja recuperada, vai cair. Dizem-nos agora com toda a desfaçatez, como se a responsabilidade não fosse deles, que o edifício não tem recuperação. É para deitar abaixo e fazer, provavelmente, mais um mamarracho. O pavilhão desportivo lá está por acabar com o terreno a servir de lixeira. Um pouco melhor desde que o movimento Limpar Portugal limpou o que pôde.
O parque de merendas, com direito a placas a indicar o caminho, tem três bobinas de cabos eléctricos a improvisar mesas (algum incauto que lá vá só pode merendar de pé pois não há bancos e, se os levar de casa, fica com a dita mesa a bater-lhe na testa). Não admira que na 5.ª Feira da Ascensão não houvesse vivalma naquele “parque”. Visitamos Concelhos logo aqui ao lado como Golegã e Chamusca que se dizem muito mais pobres que o de Torres Novas que, mesmo em pequenas aldeias, têm espaços públicos aprazíveis e cuidados, com mobiliário adequado. Mas nós não. Somos o Concelho marcado pela ostentação circunscrita à cidade. O Concelho das grandes obras de todas as rotundas de todos os formatos possíveis e imaginários.
Por vezes, não são necessários grandes investimentos mas pelo menos que sejam devidamente integrados e adequados aos fins. Riachos, não tem coisa que se diga com princípio e fim. Parece que o que nasce é tudo mais ou menos atamancado. Lutámos durante anos e anos por melhores condições de circulação pedonal na estrada nacional. A muito custo, fizeram-se, parcialmente, uns passeios com mais lombas que o carrossel da feira. Lá vamos andando a contornar obstáculos. A boa vontade é que se acabou a meio e as ruas de St.º António e Bênção do Gado continuam com muita valeta por onde andar.
Agora, andam a fazer uns jardins de pedra no Tocha. Dizia-se que era uma zona verde e que estava pronta antes da Bênção do Gado de 2008. Depois que se faziam as infra-estruturas antes da festa e a relva era colocada só depois. Já se gastaram por lá umas boas sacas de cimento a fazer umas coisas que parecem uns heliportos. O que sairá de lá, não se sabe, mas sabe-se que o que foi prometido não é o que está a ser feito. É o costume. Oculta-se o projecto (se ele existe) não vá algum dos maldizentes dos Riachos pronunciar-se.
Perante tudo isto e muito mais que se podia citar, estamos, insistentemente, calados.
Na cerimónia das comemorações do aniversário da elevação de Riachos a vila as entidades políticas falaram para uma sala praticamente vazia. Pudera, temos razões para comemorar? Parece que não. Mas porque é que continuamos indiferentes? Este nosso alheamento no que à política diz respeito só vem provar que consentimos que usem o poder como lhes aprouver e é isso que lhes interessa. Em tempos, um Presidente da República disse que tínhamos direito à indignação. Pois indignem-se!
Para não acabar só a dizer mal, o que gosto mesmo é do carro de bois na rotunda à Rua do Ribeiro com uma chavelha cor-de-rosa. O que é que querem? Faz-me sorrir, ou vociferar impropérios, depende da ocasião. É a nossa cereja em cima do bolo.

João Triguinho Lopes    
Actualizado em ( Quinta, 27 Janeiro 2011 15:48 )  
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