o riachense

Domingo,
31 de Maio de 2020
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

Carlos Simões Nuno

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

Boletim Meteorológico

 

Como é linda a natureza

Andava um lacrau a deambular pelos campos, quando chegou junto a um ribeiro que logo lhe apeteceu atravessar. Não sabendo nadar, procurou o lacrau quem o carregasse para a outra margem e encontrou uma rã, prestes a entrar na água.
- Ó rã, rogou ele, não me levas às cavalitas até ao outro lado?
Desconfiada de tal personagem, logo a rã deu dois saltinhos atrás e respondeu: o que o senhor lacrau quer é ferrar-me o aguilhão nos costados...
- Ó rã, francamente, que patetice é essa? O que é que eu ganhava com isso? Não vês que, assim, logo eu me afogava? - cantou-lhe o lacrau em resposta.
Pouco convencida mas não encontrando falhas naquela lógica, a rã lá acedeu a servir de transporte ao peçonhento bicho. Ainda nem tinham chegado a meio da corrente, contudo, quando a rã sentiu a fatal ferroada do lacrau bem no meio das costas.
- Para que fizeste tu essa estupidez? ainda teve tempo de se indignar, já meio morta pelo veneno.
- O que é que tu queres, ó rã? - justificou-se o lacrau antes de se afundar - é esta a minha natureza...
Não sei se o preclaro leitor já recuperou do desastre anunciado a semana passada pela dupla de porta-vozes da banca internacional Sócrates & Santos, mas se ainda estiver como eu um bocado estupefacto, pasmo e atónito, não com o défice público, que esse era mais que conhecido e via-se a olho nú, mas com as receitas que aqueles empregados bancários dizem que o vai resolver, então talvez valha a pena ler, entre centenas de exemplos que todos podíamos invocar, a história contada por Ferreira Fernandes no Diário de Notícias de 30 de Setembro, a do vogal de uma das várias dezenas de empresas públicas que para uma reunião no Porto, não gostando de fazer a viagem de carro desde Lisboa, pela auto-estrada fora, foi de avião até Pedras Rubras... onde o esperava o motorista da empresa, a quem o senhor mandou ir de carro pela tal auto-estrada enquanto ele voava sobre ela, para ter quem o levasse do aeroporto à baixa da cidade e, após a reunião, o transportar de novo ao aeroporto para o regresso a Lisboa, voltando o homem outra vez de carrinho às costas auto-estrada fora, até à capital.
Se ainda se sente meio espantado, aturdido e pasmado com a facilidade com que se chegou a este estado das coisas, recorde-se do cerca de um milhar de processos de classificação
de monumentos, de pontes a igrejas, de castros a palacetes por todo o país, muitos destes processos aos repelões ou a ganhar pó há vinte anos ou mais e que irão prescrever e ser encerrados no final deste ano, sem glória nem proveito, enquanto o ministério da cultura, inchado de novo riquismo, se entretinha a classificar edifícios “em risco” e a “precisar de valorização”... como o Centro Cultural de Belém! Basta que alguém, no IPPC/IPPAR/IGESPAR tenha perdido apenas quatro dias com cada um daqueles processos para daqui a pouco cerca de 12 anos de trabalho irem para o lixo...
No caso de ainda lhe custar a encaixar quer o diagnóstico quer a terapêutica, que muito provavelmente irá matar o doente, e por isso estiver assim a modos que azamboado,
admirado e entontecido com tudo isto, leia outra vez a notícia, para ver se desta vez acredita, de que a PSP vai comprar (sem concurso
público, naturalmente) cinco - milhões de euros – cinco em material como blindados urbanos e outros brinquedos do género, a pretexto da protecção de suas excelências na próxima cimeira da NATO, a realizar em Lisboa em Novembro.
Enfim, para não maçar mais e deixar matéria para muitas outras conversas, que se vão justificar quando, antes da Páscoa, vier o anúncio do próximo apertão – é mais que garantido, Sócrates já disse que isso não acontecerá! – caso ainda esteja, como eu estou, surpreendido, atordoado e assarapantado, tem sempre os submarinos (goste-se ou não, para quem quiser pensar Portas disse a semana passada a frase política do ano, quando Sócrates lhe atirava à cara a responsabilidade por esta aberração e ele respondeu que Teixeira dos Santos e o próprio Sócrates eram membros do governo que assinou o contrato de compra), as centenas de fundações públicas e semi-públicas, os Coelhos, os Varas, os Dias Loureiros, as entidades reguladoras, incluindo as cómicas como a da Concorrência, as frotas automóveis, os subsídios de reinserção profissional (olha, estes não acham eles despropositados!), as reformas dos deputados, os dias da defesa nacional e demais entreténs de boca e exemplos de criatividade.
Se estiver, apenas, indignado e envergonhado por viver nestes tempos e ter de partilhar o oxigénio com personagens como Almeida Santos, autor da frase mais salazarista pós-25 de Abril (“o povo tem de sofrer as crises como o governo as sofre”), saiba que já somos dois.
Se eles podiam fazer as coisas de outra maneira, ó garbosos leitor? Então não podiam?! Só que não era apenas isso assim não ser a mesma coisa, é que, pura e simplesmente, é esta a sua natureza.
O que eu ainda não compreendi bem, o que ainda não consegui responder, é outra coisa: e nós? Afinal, qual é a nossa natureza?

Actualizado em ( Quinta, 21 Outubro 2010 09:11 )  
{highslide type="img" height="200" width="300" event="click" class="" captionText="" positions="top, left" display="show" src="http://www.oriachense.pt/images/capa/capa801.jpg"}Click here {/highslide}

Opinião

 

António Mário Lopes dos Santos

Agarrem-me, senão concorro!

 

João Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária