o riachense

Terça,
23 de Maio de 2017
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size
Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

FARPADAS 24-11-2010


Quando eu era pequeno não havia pré-escola. Mas havia a senhora Júlia Gata. Era para casa da senhora Júlia que algumas crianças iam no ano anterior à entrada na escola primária. O que aprendíamos com a senhora Júlia era a mesma coisa que se aprendia na primeira classe, mas com um ano de avanço. Até aprendíamos a levar reguadas. E depois fazíamos figura de mais inteligentes do que aqueles que não tinham podido aprender nada antes de entrarem na escola.
Tudo isto, para dizer que eu aprendi em casa da senhora Júlia que, quando há dez galinhas (naquele tempo não se falava de frangos) e há dez pessoas para comer as galinhas, calha uma galinha a cada pessoa.
Mais tarde, já na escola, aprendi que, em média, calhava uma galinha a cada pessoa. Mesmo quando duas pessoas comiam oito galinhas e as outras oito pessoas só comiam as duas que restavam. Em média, calhava sempre uma galinha a cada pessoa.
Com as nações e os governos acontece uma coisa semelhante. É por isso que há tanta discussão quando se faz o orçamento para o ano seguinte.
Quando as galinhas, em vez de 10 passam a ser 11, é relativamente fácil fazer a distribuição: aqueles 2 que estavam habituados a comer 8 galinhas, ficam com 8 galinhas e meia e por isso não discutem; aqueles 8 que estavam habituados a comer 2 galinhas, ficam todos contentes porque passam a comer 2 galinhas e meia. O problema é quando as galinhas voltam a ser só 10. Ninguém aceita ver a sua ração diminuída. Por isso a discussão é grande. Uns dizem que os 8 mais pobres devem continuar a comer 2 galinhas e meia e, por isso, os 2 mais ricos que comiam 8 galinhas e meia têm de começar a comer apenas 7 galinhas e meia. E continuariam a ser muito ricos na mesma. O problema é que esses 2 não aceitam. Dizem que assim não haverá mais galinhas para ninguém. E, pelo menos até agora, esses 2 têm mais força que os outros 8.
Mas, com a crise, agora nem sequer há 10 galinhas para distribuir. E como todos querem continuar a comer, ao menos, a mesma quantidade…que não existe, há barulho.
Nos anos normais, os governos ditos democráticos pedem uma galinha emprestada e assim aumentam sempre a ração de toda a gente. Não há produção suficiente, pede-se emprestado. E todos os anos aumentam a dívida. Mas agora os outros também não têm galinhas para emprestar. Por outro lado, nos anos normais, aqueles que emprestam uma galinha, querem uma e meia de volta. Mas com a crise, só emprestam uma galinha a quem lhes der duas de volta. Quem não tiver condições para devolver duas, não terá nenhuma emprestada.
Claro que, num regime de ditadura, estes problemas são mais fáceis de resolver.
No tempo de Salazar ninguém discutia o orçamento. Quando não havia 10 galinhas para distribuir, aqueles 8 que deviam comer 2 galinhas, comiam só uma e calavam o bico.
Agora, felizmente, não estamos em ditadura. E por isso podemos discutir. Mas, diz um velho ditado, “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Por isso comportamo-nos como os jogadores de futebol nos últimos 10 minutos de jogo: jogam mais com o coração do que com a cabeça. Muitas vezes discutem-se coisas que pouco ou nada têm a ver com o essencial, e daquilo que seria importante discutir ninguém fala. Isto é, como é que a média de facto pode aproximar-se cada vez mais da média teórica, ou seja uma galinha para cada um, e não quase tudo para poucos e quase nada para a grande maioria.
O governo de um país pobre, aonde só há galinhas magras, não pode distribuir galinhas gordas porque não as tem. Mas pode, se for justo, distribuir uma galinha a cada um e não deixar que 2 pessoas se abanquem com 8 galinhas (e sempre as mais gordas), e as outras 8 pessoas fiquem apenas com as 2 galinhas magras que sobram.
Mais uma vez volto a afirmar que um país só é independente quando não é dependente. Por isso, todos os países com dívidas dependem da boa vontade dos credores, isto é: não são independentes.
Quando um partido está no governo e deixa distribuir mais do que aquilo que se produz, aumenta sempre a dívida. Por isso não é um governo nem justo nem democrata, porque aumenta a dependência do país e aumenta os problemas para as gerações que hão-de vir. Um governo só pode fazer dívidas se for para aumentar a produção, nunca para aumentar o consumo. Por outro lado, “quem não tem dinheiro não tem vícios”. Se dizem que não há dinheiro, como podem continuar a gastar dinheiro mal gasto? A falta de dinheiro seria uma boa ocasião para ganhar bons hábitos. Gastar bem o dinheiro que é de todos. Se aqueles que recebem salários enormes soubessem mais do que os burros, teriam visto a crise com algum avanço. Mas nem agora a conseguem ver. Ou então, se a vêem e não baixam os seus salários e outras benesses, são de facto ladrões e, por isso, deveriam estar na cadeia.
Volto a dizer mais uma vez: a alternativa de governo que existe neste momento em Portugal é pior do que esta que lá está. Este governo de socialistas envergonhados é mau, mas a alternativa que existe é pior. Porque os governos do PSD/CDS sempre aumentaram as desigualdades e isso é ir contra a história da humanidade, é andar de cavalo para burro.

Joaquim Alberto
Actualizado em ( Quinta, 23 Dezembro 2010 10:25 )  

Opinião

 

João Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?

 

João Triguinho Lopes

A grande feira de todas as contradições