o riachense

TerÁa,
25 de Abril de 2017
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O cavaleiro das artes

Acabava de te enviar um e-mail, meu amigo, quando entrei no Facebook. √Č uma daquelas modernices onde todos diariamente nos conferimos e podemos falar e dar recados uns aos outros.
E descubro que morreste. Assim de repente, com tudo a acontecer.
J√° e nunca. J√° n√£o valia a pena ter escrito o mail pois nunca o poder√°s responder.
A morte ao que parece é isso mesmo. Já e nunca.
Num momento estamos, no outro surpreendemos toda a gente e já não somos mais do que a memória do que fomos.
Seremos, ao que dizem, numa outra dimens√£o, de onde, sorrindo, nos vingamos das humanas dores e afli√ß√Ķes. Eu desconfiado, sei que fico, para j√°, com a mem√≥ria imensa que em mim perdura. Essa, ningu√©m me rouba.
Dizem que partir assim é a melhor morte para quem parte. Mas é a pior para nós, amigos, que ficamos de boca aberta, sem saber o que dizer.
N√£o se faz, Carlos!
Quantos dias e quantas noites bonitas vivemos por esse pa√≠s fora! Terras de Bouro, Figueir√≥ dos Vinhos, Leiria,‚Ķ lembras-te? O pa√≠s real que redescobriste, encantado, sobretudo depois do ‚ÄúAcontece‚ÄĚ. Como irm√£os, c√ļmplices e companheiros desta guerra imensa da cultura.
Foste um cavaleiro. Um homem que estabeleceu pontes entre esquerda e direita; sempre em nome do sonho e da cultura.
Agora que tudo estava a relançar-se bem e entusiasmante, o corpo disse não. Ainda não acredito.
Como vou ter coragem de apagar o teu telem√≥vel? Como vamos deixar de trocar as brejeirices de eternos Epicuros sem maldade? Onde encontrar ouvidos para te enviar as piadas que eu escolhia como mais inteligentes? Como vamos assim, outra vez, por essa estrada fora, fazer aquelas ‚Äúpalestras-concerto-galeria fotogr√°fica‚ÄĚ que tanto gozo nos dava fazer?
Passavas a vida a dar-me est√≠mulo e apre√ßo. E eras genu√≠no no teu viver demais. Nos √ļltimos 20 anos estiveste em quase todos os momentos maiores da minha vida.
E agora que, tudo indica, ias come√ßar outra vez com a Tele-cinco e j√° pensaras outro ‚ÄúAcontece‚ÄĚ, em maior, mais livre e mais abrangente. Agora, que andavas com tanto entusiasmo entre a RTP Mem√≥ria e o teu ‚ÄúAcontece‚ÄĚ r√°dio. Que inundava Portugal das not√≠cias de cultura que nunca mais as r√°dios locais poder√£o de outro modo noticiar.
E agora?
Se pelas ilhas distantes ou serranias frias de um interior abandonado à sua sorte ainda se ia sabendo da estreia de uma peça, uma ópera, ou do lançamento de um disco de qualidade ou de um livro, eras graças a ti.
Agora, n√£o sei como vai ser. Fica um vazio imenso.
Pois homens como tu n√£o nascem todos os dias. E atingir o conhecimento maior das coisas demora muito tempo.
Partir assim, n√£o se faz, Carlos. Fazes-nos falta!
Já somos tão poucos a pugnar por um país mais culto, mais sério e mais além...
Procuro as palavras da despedida.
J√° e agora, pensando bem, s√£o coisas que passam.
Nunca …é triste demais para ser verdade.
Prefiro sempre. √Č isso.
Tu ficas para sempre.

Actualizado em ( Quinta, 23 Dezembro 2010 10:24 )  

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