o riachense

Quinta,
21 de MarÁo de 2019
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A Arca do Senhor Castello-Lopes

H√° uns dias, enquanto passava os olhos pela televis√£o, vi no ecr√£ uma fotografia em tom s√©pia, tirada em 1957 por G√©rard Castello-Lopes, numa das eiras que havia em Riachos. Como tudo na televis√£o aparece e desaparece rapidamente, fiquei a pensar naquela imagem, enquanto a emiss√£o prosseguia e deixava para tr√°s a not√≠cia que assinalava a morte do fot√≥grafo, que residia em Paris. Procurei saber um pouco mais sobre a sua vida, e no pouco que encontrei percebi que teve uma vida plena e boa. N√£o consigo imaginar por que dificuldades tenha passado. Parece ser uma daquelas pessoas a quem tudo correu bem; uma daquelas vidas afortunadas, em que nada foi desperdi√ßado, pelo contr√°rio. Continuou o neg√≥cio do seu pai, Jos√© Castello-Lopes, envolveu-se em in√ļmeros projectos art√≠sticos, dedicou-se √† fotografia, sendo um dos hist√≥ricos nessa √°rea, em Portugal. Ele viveu um tempo que eu n√£o pude viver, mas que me deixa estranhamente nost√°lgico. N√£o sei como √© poss√≠vel sentir-se saudade de um tempo que n√£o se viveu, mas no meu caso talvez deva a uma inconsequente vontade de ter estado ali, naquele instante em que a c√Ęmera de G√©rard decalcou o tempo, numa das eiras que havia em Riachos, h√° pouco mais de meio s√©culo. Eu podia ter sido aprendiz dele; podia ter sido um dos trabalhadores que ele fotografou; podia at√© ter sido uma enxada ou uma √°rvore, n√£o me interessa. Mas gostaria de l√° ter estado, naquele tempo. Gostaria de ter sido um dos pedreiros que construiu o cinema que o seu pai lhe deixou, gostaria de ter sido o projeccionista que encheu aquela sala de sorrisos e espanto, gostaria de ter sido a lente por onde passou a luz dum lado para o outro, gostaria de ter sido aquele min√ļsculo t√ļnel de luz que fixou um tempo na pel√≠cula da c√Ęmera de G√©rard, ou que foi projectado na tela do cinema Ol√≠mpia. N√£o me interessa o que pudesse ter sido, desde que pudesse ter l√° estado. N√£o tenho essa mem√≥ria que alguns riachenses com certeza t√™m, por isso invento-a, falseio-a apenas para me enganar e me levar a esse tempo t√£o diferente de hoje. Ter√° sido melhor? Pior? N√£o sei. Por isso gostaria de ter sentido na pele o que era viver aquele tempo; sentir aquilo que hoje me parece ser uma f√°bula: era uma vez uma aldeia no campo ribatejano, onde um homem construiu uma sala de cinema para que a gente pudesse sonhar... Ao contr√°rio do seu pai, G√©rard n√£o acreditava que uma imagem pudesse valer por mil palavras, e √© verdade, n√£o vale, creio. Uma imagem vale por si mesma, descreve-se em poucas palavras; √© o que se v√™, simplesmente. Aquilo que est√° antes, depois e atr√°s dessa imagem √© que vale por muito mais que mil palavras. Da√≠ a import√Ęncia de obtermos essas imagens, cuidarmos delas, falarmos sobre elas, n√£o como culto ao passado, mas como entedimento do que somos. O que seria de n√≥s sem as fotografias do Largo de Riachos, no in√≠cio do s√©culo passado? Decerto que G√©rard Castello-Lopes n√£o tinha uma no√ß√£o precisa do valor hist√≥rico das suas fotografias. Designava-se a si mesmo como fot√≥grafo amador, motivado por um certo √≠mpeto criativo, mas impedido pela sua mod√©stia em ir al√©m disso. Esteve na nossa terra e n√≥s sabemos porqu√™. Basta passear pelo campo para perceber que ainda √© poss√≠vel vislumbrar o encanto deste s√≠tio. E tudo isto √© nossa heran√ßa: a terra, o rio, as pedras, as ruas, as paredes. Fica a rua com o nome de Jos√© Castello-Lopes; fica a casa onde viveu a sua fam√≠lia, que parece ser uma casa destinada a ser habitada por fam√≠lias de talentos.
Pergunto-me se naquele s√≥t√£o n√£o haver√° uma arca com segredos e tesouros, √† espera que um destes dias seja aberta pelos seus justos guardi√Ķes.

Actualizado em ( Quarta, 09 Mar√ßo 2011 17:30 )  
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