o riachense

Quinta,
22 de Junho de 2017
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Enrascados

“Se cada um dos 10 milhões de portugueses entregasse hoje ao Estado 20.000 euros, a dívida pública estava integralmente paga, e ainda sobrava qualquer coisita para governar durante 2 ou 3 dias. Depois disso, se nesses 2 ou 3 dias nada fosse feito para reduzir a despesa pública, o país começaria a entrar imediatamente em falência técnica. Não me parece, portanto, que haja uma solução fácil.”

Há pouco tempo, talvez 4 ou 5 anos, insisti em deixar nestas páginas alertas sobre aquilo que estava prestes a acontecer-nos, e que agora nos está a cair em cima. Pensei ingenuamente que através de palavras pudesse contribuir para que houvesse aqui entre nós, nesta nossa comunidade, uma tomada de consciência perante a irresponsabilidade de quem governa. Apenas para relembrar, o assunto que mais debati era a incompetência política dos nossos autarcas e do governo central, cuja desastrosa actuação nos trouxe à presente situação. Face àquilo que escrevi, o que na realidade aconteceu foi precisamente o oposto da minha intenção: as pessoas de Riachos cederam totalmente ao demagógico palavreado eleitoral e deram ao actual autarca uma confortável maioria, além de darem ao actual governo mais um mandato. Pensava eu que actuando localmente, podemos mudar as coisas globalmente, mas pelos vistos não resulta. Resta-me o consolo de ter feito o possível, que foi igual a nada, embora fique de consciência (muito) tranquila: por mim, ninguém estaria sentado na Assembleia da República, nem na Câmara Municipal. Quem lhes confiou os lugares que se aguente e assuma o voto que fez. Subiram taxas municipais? Subiram impostos? Subiram preços? Subiu desemprego? Subiu o défice? Tenham paciência, mas aguentem-se. Ou então façam como eu: vendam o automóvel ou peçam um emprestado a alguém, andem de transportes públicos, de bicicleta ou a pé, habitem num quartinho alugado, contem com a caridade das vossas famílias (os que puderem), e não gastem mais de 19 € por dia, que é aquilo que o Estado me dá por estar desempregado há quase 2 anos. Como não surge nenhuma oportunidade de emprego, aproveito para melhorar as minhas qualificações e estou a meio duma segunda licenciatura, porque pelos vistos a primeira que tirei não foi suficiente. Nos empregos que tive, em nenhum deles os meus superiores hierárquicos era mais qualificados que eu, o que é um problema grave na maioria das empresas portuguesas, já que estar mais qualificado parece ser uma ameaça para quem "manda".
Por tudo isto, acho que reúno os requisitos necessários para ser um dos muitos que faz parte da chamada "Geração à rasca". Só não pude ir à manifestação por três razões: a) tinha o orçamento semanal esgotado, ou seja, estava sem guito; b) não acho que a expressão "à rasca" seja interessante; c) não sei muito bem a que geração devo pertencer. Afinal, o que é uma geração? Sem pensar muito, posso dizer que se trata de um grupo de pessoas que nasceu num certo intervalo de tempo, por exemplo na década de 50, ou 60, ou de 60 a 80, como é o caso da designada "Geração X". Isto, no entanto, pode ser insuficiente, porque uma geração pode também ser um grupo de pessoas com certos tipos de afinidades, sejam políticas, artísticas ou outras. A questão complica-se se misturarmos ambos os critérios, por isso há que mantê-la simples. Nasci em 1971, logo sou um X, mas como a Geração X se adequa à realidade dos E.U.A. e muito pouco à realidade portuguesa, serei então um "à rasca", mas como não gosto de discursos de vitimização, logo, também não sou "à rasca". Se a isto juntar o facto de não sentir qualquer tipo de afinidade com qualquer quadrante político português então isso faz de mim um caso "não quantificável", ou seja, estou fora da estatística. Confesso que ainda bem, porque estatísticas são coisas fantasmagóricas.
Em suma, Portugal tem aquilo que merece porque foi essa a escolha que a maioria das pessoas tomou. Os que dizem estar à rasca foram os mesmos que votaram e elegeram os políticos que agora dizem não prestar. Tarde demais. Deviam ter percebido isso antes, e não foi por falta de aviso nem de sintomas. A única coisa que me deixa um pouco enrascado é o facto de o meu subsídio de desemprego terminar daqui a 2 semanas, o que me impede de terminar os meus estudos e fazer o que melhor sei e mais gosto. Talvez faça como muitos portugueses e abandone o país. Gosto do que se está a passar na Bélgica. Talvez seja um local interessante, apesar de chuvoso e cinzento. Os belgas estão sem Governo há meses e ainda não repararam que a vida continua, e continua sem políticos. É o melhor e mais evidente exemplo de que não precisamos de políticos para absolutamente nada. Já nos basta ter baratas e outras pragas. Existem soluções alternativas a este sistema partidário, mas ninguém tem coragem suficiente para mudar. Estamos em queda livre: a cada dia que passa este país afunda-se em milhões de euros em dívida. Se cada um dos 10 milhões de portugueses entregasse hoje ao Estado 20.000 euros, a dívida pública estava integralmente paga, e ainda sobrava qualquer coisita para governar durante 2 ou 3 dias. Depois disso, se nesses 2 ou 3 dias nada fosse feito para reduzir a despesa pública, o país começaria a entrar imediatamente em falência técnica. Não me parece, portanto, que haja uma solução fácil. Não sei qual é a proposta dos promotores do movimento "Geração à rasca" como solução para o problema. Apenas sei que propõem a demissão da classe política, mas isso é muito pouco. Aconteceu em Abril de 74 e o que ganhámos com isso? Cada um que pense na resposta e no que possa fazer. Quanto ao meu papel, estou tranquilo com as decisões que tenho vindo a tomar, com a minha responsabilidade social, e com o meu empenho na comunidade. Gostaria que todos se sentissem assim, mas não creio que isso seja possível a menos que sacudam a água do capote. Começo a sentir pena de estarmos a desperdiçar um país e um território que tem tudo para ser um dos melhores sítios do mundo para se viver. Enfim, cada um que se cuide como puder, esteja ou não à rasca.

Actualizado em ( Quinta, 24 Março 2011 11:17 )  

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