o riachense

TerÁa,
07 de Fevereiro de 2023
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Luís Pereira

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Capítulo Final

 


Um riachense no Mali

Chegou a fim a minha aventura africana. Amanhã cedo parto sem regresso de volta a casa. Com a consciência do dever cumprido. Feliz pelo regresso para junto dos meus. Com um aperto no coração, pelos amigos novos. Provavelmente não nos voltaremos a cruzar. O livro da vida é feito de capítulos vários. Uns inesquecíveis, outros nem tanto.

Quando cheguei a √Āfrica pela primeira vez no ver√£o de 2007 era um europeu p√≥s-colonialista cheio de ideais na minha cabe√ßa. O meu conhecimento de √Āfrica foi-me transmitido por familiares e amigos, al√©m do que li. Conhe√ßo muitas hist√≥rias de tribos africanas. Ouvi falar em grandes l√≠deres africanos, como Shaka ou Malangatana, reis do s√©c. XIX. An√≠bal ou Cle√≥patra da antiguidade cl√°ssica. L√≠deres como Mandela, ainda entre n√≥s, her√≥i pr√© e p√≥s apartheid. L√≠deres da independ√™ncia como Sengor, Nasser ou Cabral. Adorava ver tudo o que dizia respeito √† vida selvagem. Sonhava com o Kilimajaro e as neves eternas no equador. Sabia que a Tun√≠sia inclu√≠a o ponto mais setentrional, que Dakar era o mais ocidental. Que o cabo da Boa Esperan√ßa dividia o Atl√Ęntico e o √ćndico. Que a Som√°lia, no corno de √Āfrica era o ponto mais a nascente. O deserto do Sara foi palco de grandes romances e aventuras. O Nilo, maior rio, atravessa desertos e grande parte da √Āfrica oriental. Madag√°scar √© a maior ilha. Intrigavam-me os bosqu√≠manos e a sua estranha linguagem, no deserto do Cala√°ri. As pir√Ęmides. O imp√©rio do Gana. A ilha de Zanzibar. Tantas culturas. Toda a gente me falava das cores, dos cheiros, da chuva, dos horizontes, da magia, da terra vermelha, do sol zenital.

Claro que uma coisa √© saber. Outra completamente diferente √© absorver, interiorizar, sentir tudo isto. Fui atingido. Deixo este lugar com uma mistura de sentimentos. Por um lado a ‚Äúcidade‚ÄĚ onde estive √© uma porcaria. Lixo at√© onde os olhos chegam. N√£o h√° esgotos. N√£o h√° estradas, apenas pistas feitas pelos carros. O p√≥ que cobre todos os teus poros. O coberto vegetal abusado por pessoas tentando sobreviver. Manadas de animais dom√©sticos, substitu√≠ram toda a fauna. Estranhamente vi pessoas felizes. Aqui as pessoas t√™m expectativas muito baixas na vida. Ficam felizes apenas com uma palavra, um ol√°, um carneiro, um dia de chuva, um dia de festa. Aprendi que √© poss√≠vel viver com muito menos do que vivemos. Mas pelo contr√°rio, o crescimento populacional √© insustent√°vel. N√£o √© poss√≠vel gerir um continente em que a popula√ß√£o duplica a cada quarto de s√©culo. A corrup√ß√£o drena quaisquer melhorias que poderiam existir.

No entanto, o meu cora√ß√£o n√£o estava consciente do seu tamanho, aguentou-se e agora est√° em tr√™s continentes. Sei que vou voltar muito mais rico que quando cheguei. Devo ter recebido uma li√ß√£o de humildade que muitos europeus necessitavam. Toda a nossa hist√≥ria √© acerca dos nossos her√≥is. Como se os ‚Äúoutros‚ÄĚ apenas l√° estivessem para aumentar os nossos feitos. Deveria ser obrigat√≥rio que as nossas crian√ßas aprendessem a verdade sobre as nossas ac√ß√Ķes nas col√≥nias. Roub√°mos de todo o mundo. Dividimos continentes em pa√≠ses absolutamente falsos. Nunca nos import√°mos com os outros. A Europa tem uma importante hipoteca sobre quase toda a alma n√£o europeia. Ao interiorizar isto n√£o estou triste. De facto estou at√© muito feliz. N√£o carrego √†s costas todos os males do mundo. N√£o creio que v√° parar ao inferno por estes eventos passados. Estou agora mais consciente que antes. Conheci pessoas que querem ver, aprender e tentar ajudar. Conheci pessoas que n√£o desistiram apenas porque √© dif√≠cil fazer qualquer coisa aqui. Aprendi a amar. Sei agora que sou melhor pessoa que era antes. Sei tamb√©m que estou orgulhoso dos momentos partilhados. Dito isto, mais um cap√≠tulo da minha vida est√° escrito. Um novo est√° a√≠ e eu n√£o posso esperar para o escrever!

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