o riachense

TerÁa,
07 de Fevereiro de 2023
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M√°ria Pombo

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Desprendimento

 


‚Äď H√° muito que n√£o sei nada de ti ‚Äď disse-me.
Estou aqui. Precisamente no mesmo sítio. Fico calada, quieta. Não se ouve a minha respiração e apenas os olhos se movem. O peito balança suavemente. Movimentos imprecisos e desordenados.
Não quero este mundo. Já não faço parte dele. Sou apenas espelho. E um dia serei memória.
Fico aqui. Estou calada mas os ouvidos latejam. Ou√ßo os passos das multid√Ķes, os ru√≠dos dos mexericos estrondosamente amplificados e em eco. Ou√ßo tudo e n√£o reconhe√ßo nada.
Paro. Sinto o fumo das castanhas, que me dá nojo nesta altura. Só nesta altura, só desta vez. Sempre gostei, hoje dá-me nojo. Agora está a dar-me nojo.
Continuo aqui. O meu corpo j√° n√£o √© meu, eu j√° n√£o sou daqui. O meu corpo √© apenas corpo, j√° n√£o me tem. √Č apenas mat√©ria, [des]ilus√£o.
Fico. Os olhos estão abertos de uma forma assustadora. Não os consigo fechar. Já secaram e se feriram com o sal das lágrimas, as mesmas que também desapareceram. Até as lágrimas fugiram, preferiram inundar outros olhos. Mais bonitos, talvez.
Estou aqui mas não conto a ninguém. Quero ficar comigo. Neste canto que já tem as minhas formas, que já conhece o meu cheiro. Talvez um dia também ele se canse e me mande embora. Nesse dia mudarei o tom da minha voz, a cor das minhas roupas e o jeito do meu cabelo. Quem sabe a textura da minha pele também se altere.
Hoje a minha pele é macia, num contraste perfeito com a aspereza do coração.
Tenho sono. Quero adormecer e voltar a sentir a ingenuidade mi√ļda. E sinto o corpo a baloi√ßar. Quero partir, querendo ficar.
Continuo por c√°. Um dia serei diferente. Um dia, os m√ļsculos da minha cara v√£o voltar a mexer-se. Mas hoje n√£o. N√£o quero. Quero que sejam pregui√ßosos. J√° me cansei de os obrigar a esbo√ßar sorrisos sem terem vontade.
Permaneço. A posição é a mesma, o olhar é o mesmo, o penteado não se alterou. Mas já nada disto é meu. Já me libertei destas trivialidades. Já há algum tempo.
‚Äď H√° muito que tamb√©m n√£o sei nada de mim ‚Äď respondi.

Actualizado em ( Quarta, 23 Novembro 2011 15:59 )  
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