o riachense

Quinta,
29 de Junho de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Talvez baste uma palavra: generosidade

A notícia apanha-me sem surpresa. O Carlos Tomé decidiu abandonar o lugar de vereador. Vinte anos depois, mesmo com as votações últimas acima dos 15% - a abstenção não conta para estas percentagens - não sei se a decisão passou pela razão de sobrevivência económica, pelo cansaço da rotina da oposição, pela necessidade de, nesta fase da vida, as exigências duma vida profissional activa como a advocacia. Talvez passe por todas, não sei se se esgotam naquelas as razões do abandono.

Sou amigo do Carlos, como da Cristina, sua mulher, há muito, mesmo muito tempo. Muito antes do 25 de Abril, dos bancos da Escola Secundária Maria Lamas. Encontrámo-nos, depois, em percursos de intervenção, alguns em comum, outros nem tanto, mas sem que as diferenças, mais de postura ideológica que de objectivos, enfraquecessem, pelo menos da minha parte, um afecto enraizado na ternura dos dias que valem a pena e contam histórias da história das vidas. Guardo para os amigos o melhor de mim - as palavras dos versos com que inventei uma forma de preencher os dias que é preciso conquistar momento a momento. Conhecem-me também pelo lado do sangue das palavras - isso marca.

Falar da actividade do Carlos como vereador, na oposição, num dos períodos que considero do pior que o concelho, depois de Abril, conheceu, não é fácil. Defender o que se acredita ser o caminho da justiça social, da igualdade, da defesa dos direitos dos seres humanos, numa época em que, sob a tutela local do partido socialista - é bom não esquecer o que foi o socialismo de polichinelo - que fechou no concelho escolas, postos médicos, transportes rurais, permitiu que o ensino, sob o centralismo do poder, implodisse numa perda de direitos democráticos e, em nome do empreendedorismo, transformou Torres Novas numa desmemória, as freguesias em depósitos de velhos, a cidade num pirismo de construção à custa do crédito bancário que deu no que deu - sem indústria, sem comércio, só serviços, só aparência, desgasta, consome, desilude.

O Carlos foi o rosto visível, nessa atmosfera de impudor e desrespeito públicos, duma resistência pela alternativa. Foi oposição quando era difícil não ser submerso pela maioria absoluta dum poder autoritário e antidemocrático, capaz de todos os processos para atingir os seus fins. Vinte anos duríssimos, com muitos passos em falso, outros mais conseguidos, mas que mereceram, pela entrega, pela determinação, a simpatia e o apoio dos cidadãos mais empenhados. Vinte anos é muito tempo, e há um tempo em que é necessário deixar de ser o mesmo gesto, a mesma frase, o mesmo (outro) rosto. A dialéctica em política, por vezes, é suprimida pelos que a têm como razão ideológica. E resistem, como lapas crivadas na rocha, às mudanças de gerações. A generosidade do combate pelo futuro não pode transformar-se, pela rotina, numa roda dentada dum relógio fragilizado. Mas também, e nisso compreendo-lhe o adiamento da saída, não se pode entregar os remos do barco a quem pouco percebe da náutica e, por inépcia, falta de peso, desenraizamento dos locais e dos rostos, transforma a navegação numa linguagem desenraizada da sociedade concreta do concelho: o envelhecimento populacional, o desemprego de longa duração, a destruição ambiental, um abandono dos sectores primários e secundários, um associativismo a perder-se por falta de dinâmica e apoios municipais, sobretudo a municipalização dum ensino assente no clientelismo, virado para a fabricação de mão de obra preparada, não para o desenvolvimento do país, mas para servir, a preços de saldo, a Europa da finança e da desigualdade social.  

Houve épocas em que o Carlos, que tem uma boa cabeça, escreve muito bem, percebeu que as suas palavras se acomodavam à sonolência do tempo de prepotência e prepotência socialista. E eu, que defendo há muito que a esquerda tem de se unir num programa de salvação nacional, comunistas, socialistas, esquerda radical, em vez de andar a roubar os berlindes uns aos outros, localmente não poderia deixar, nesses tempos de espavento endividado em que o município se tornou, de votar nele, mesmo quando duvidava ser esse o melhor caminho.

É que, sem pelouros distribuídos, sem informação transparente e atempada, sem uma equipa multidisciplinar de apoio, quase se poderia considerar um milagre manter, como o fez, a dignidade e a alternativa políticas, sem a menor possibilidade de alterar o que a maioria socialista delineava e deixou como um pesadelo, que recai sobre todos os munícipes, em escassez, em promessas nunca cumpridas, em festas de fantochada que vieram como viroses entorpecer o espírito crítico e a autonomia associativa, a troco dum centralismo municipal do espectáculo e do fogo de vista.

Não me apanhou de surpresa, porque os tempos e as personagens actuais - as do poder não apresentam grandes novidades e não podem ignorar que os outros não esquecem que foram cúmplices, senão autores, dos imbróglios que hoje estão à vista e ninguém chama pelos nomes claros - das oposições prometiam, mais no início que hoje, uma alternativa e uma frontalidade que mudaria o estilo e os caminhos do empobrecimento e decadência concelhias.

Há muito pressentia que o Carlos sabia que perdera a sua época de crítica oposição. E, quando começou a suspender os mandatos, adivinhava-se que chegara a altura de mudar de lugar no combate pelo futuro. 

Fica, nestes vinte anos de retrocesso democrático, como um símbolo muito raro em política: generosidade. 

18 de Fevereiro de 2015
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Segunda, 23 Fevereiro 2015 18:06 )  

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