o riachense

Domingo,
30 de Abril de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Luaty Beirão terminou a greve de fome que mantinha há mais de trinta dias. A sua prisão, por delito de liberdade de opinião contra o regime angolano, assim como outros 14 com ele detidos em Junho, lembrou-me as acusações que no Tribunal da Boa Hora se apresentavam contra os presos políticos portugueses, na sua maioria militantes comunistas, após a sua prisão e tortura nas mãos da PIDE/DGS. O concelho de Torres Novas teve uma longa tradição de casos similares. Pena que não tenha havido, até o momento, com excepção dalguns textos do historiador e antigo dirigente comunista Francisco Canais Rocha, publicados em O Almonda e na revista Nova Augusta, a concretização dum estudo das lutas da resistência concelhia contra o fascismo. Na sua obra «Para A História do Movimento Operário em Torres Novas (1862/1926)», ficou a promessa de que «o período seguinte, que abrange todo o Estado Novo, será objecto de um outro trabalho». Seria importante averiguar se, no espólio que obviamente existe, não existirão páginas desse projectado estudo.

O esquecimento, pela ocultação do passado, não é boa pedagogia para as gerações posteriores, nascidas já num regime onde as liberdades cívicas (intervenção, informação, opção) são tomadas como normais. Sabe-se muito pouco desse passado concelhio, entre o 28 de Maio e o 25 de Abril, embora, nas últimas décadas, na revista atrás citada, ou em estudos publicados pela Câmara Municipal, surjam informações avulsas sobre alguns dos episódios e das personagens desses tempos. Falta uma obra de síntese sobre esse período. E os testemunhos dessa época deveriam ser recolhidos entre os que, dessas gerações, ainda podem contá-la. Ao Departamento Camarário respectivo competiria criar os meios dessa investigação. Em nome da defesa da democracia, nos últimos anos tão amesquinhada pela ignorância e a resignação ao deus dinheiro.

O silêncio que envolve muitos trabalhadores mostra bem o medo que se instalou, ante a facilidade do despedimento, devido à precariedade dos empregos, do incumprimento dos contratos, do aumento progressivo do desemprego. O estudo recente da DECO (Associação para a Defesa dos Direitos do Consumidor), resultado dum inquérito a 1222 famílias, entre Outubro e Novembro de 2014, exemplifica bem que o número de pessoas que consideram insuficientes os seus rendimentos para responderem às despesas mensais passou de 23% em 2011 para 76% actualmente. Segundo a mesma fonte, metade das famílias inquiridas vive com menos de 1000 euros/mês. 18% não conseguem pagar mensalmente a prestação da casa e as contas da água, gás, electricidade; 62 % aguardam os subsídios de férias e Natal para pagamentos em atraso. Há um decréscimo do rendimento e, consequentemente, um avolumar de incerteza num ambiente cada vez mais sufocante.

A liberdade não é eterna e não há direitos adquiridos. As utopias emergentes com a implantação da democracia transformaram-se, nestes décadas, após a entrada no Euro, de corrupção generalizada e partidariamente assumida, em estátuas de sal que qualquer chuva dissolve e extingue. As ideologias renderam-se ante a militarização global do mercado. O Grande Irmão (o Chefe Supremo) abraçou a única religião garante do poder: a informática. Somos planetariamente cidadãos vigiados, fiscalizados, vendidos, ameaçados, chantageados, reprimidos, fichados. Perdemos o direito ao sonho dos amanhãs que cantam, descremos cada vez mais dum mundo melhor, mais humano e menos desigual para os nossos descendentes, tememos o fim da reforma antes da extinção, o desemprego na idade viril, o empobrecimento em qualquer fase da existência.

O combate de Luaty Beirão pela dignidade da vida humana compete-nos a todos. Não permitir que a memória seja escondida no quarto mais escuro do planeta é defender a causas sociais do futuro. O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente.

Observe-se o percurso dos políticos do dito arco do governo. Leia-se um livro frontal sobre a hipocrisia e a corrupção, com nomes e negociatas postas a nu, dessa rede de gente pública que associou, ao poder, a capacidade, perdoada pela justiça portuguesa, do roubo: - Os Predadores, de Vítor Matos, à venda em qualquer livraria.

Sem ser leitor nem adepto da política de informação do Correio da Manhã, a tentativa actual de impedir a capacidade pública do direito de informar com o argumento jurídico do segredo de justiça, agora posta de forma inversa pelos advogados de José Sócrates, demonstra-me de forma clara que a greve de fome de Luaty Beirão é também a nossa. Enquanto é tempo.

29 de Outubro de 2015
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

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